Estátua de Pelé está há nove anos em estúdio aguardando instalação no Maracanã

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - Repousa há nove anos em um estúdio no Jardim Botânico, na zona sul do Rio de Janeiro, uma estátua de Pelé que deveria ter sido inaugurada no estádio do Maracanã na presença do ídolo, que morreu nesta quinta-feira (29).

A encomenda foi feita pelo Governo do Rio de Janeiro durante os preparativos para a Copa do Mundo de 2014, disputada no Brasil. A intenção inicial era de que a estátua fosse inaugurada assim que a reforma do Maracanã fosse concluída, em 2013, para a Copa das Confederações.

Ela seria instalada em frente à rampa monumental, próxima às estações de trem e metrô do Maracanã, principal acesso da torcida ao estádio. Na outra rampa está a icônica estátua do Bellini, zagueiro capitão da seleção brasileira campeã do mundo em 1958.

O autor da obra é o cartunista e artista plástico Victor Henrique Woitschach, o Ique. Ele começou a fazer a estátua antes da assinatura do contrato com o governo e, com os adiamentos que se transformaram em esquecimento, manteve a imagem em seu estúdio.

"A intenção foi fazer para o Maracanã, mas o negócio acabou não vingando. Me antecipei a um pedido da secretária de Esportes da época [Márcia Lins] e não havia contrato com o governo. Trocou secretário, não inauguraram e não pagaram. Fiquei com o prejuízo e com a escultura", disse Ique.

Diferentemente da escultura de Bellini, a estátua de Pelé seria instalada diretamente no chão. A homenagem o representa dando o famoso "soco no ar", inspirada na comemoração do gol marcado contra a então Tchecoslováquia na Copa de 1970.

Três inaugurações foram desmarcadas. A primeira foi em 19 de novembro de 2012, no 43º aniversário do milésimo gol de Pelé, marcado no estádio.

Uma cirurgia do ídolo e atraso nas obras provocaram o adiamento, que se repetiu outras duas vezes. Logo em seguida, a arena ficou sob responsabilidade da Fifa para a Copa das Confederações e nunca mais foi marcada a cerimônia.

A secretaria trocou de comando, o estado entrou em crise financeira e o contrato acabou nunca assinado, mantendo a estátua de Pelé a quatro paredes em um estúdio no Jardim Botânico.

Desde o adiamento das inaugurações, Ique tem "lambido a cria", como se refere às melhorias na estátua. Inicialmente, colocou a barba de aço encravada na face do rei. Com o tempo, decidiu desmontá-la e trocar toda a estrutura para bronze, metal mais resistente.

"É a minha melhor obra, porque nenhuma outra teve uma dedicação de quase dez anos. E, sem falsa modéstia, é a melhor estátua já feita do Pelé. Parece que foi feito para ser assim mesmo, demorar dez anos para ser concluída", diz o artista plástico.

A peça atualmente está desmontada, motivo pelo qual Ique não quis exibir sua versão atualizada. Ele afirma que pode concluí-la em cerca de 40 dias, caso haja algum interessado. O artista não quis estipular um preço para venda.

Ele afirma que recebeu "duas ou três" propostas pela estátua, sendo uma delas, segundo o artista, de um sheik do Qatar, país sede do Mundial deste ano. Nenhuma vingou.

"Vou estudar qualquer proposta para instalação. Sou artista e vivo disso. É mais uma que está no meu portfólio. Eu tenho uma ligação muito forte com ela. Me frustrei muito [por não ter sido instalada]. Aliviei minhas frustrações refazendo a peça", afirma Ique, autor de diversas estátuas exibidas nas ruas do Rio de Janeiro, entre elas de Michael Jackson e Martinho da Vila.