Esporte olímpico sofre com verba das loterias em queda livre

CARLOS PETROCILO E DANIEL E. DE CASTRO
Folhapress

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Abril se aproxima do fim com uma perspectiva preocupante para o esporte brasileiro.

Após verem as verbas que recebem da arrecadação das loterias federais caírem quase pela metade em março (46%), os comitês olímpico (COB) e paraolímpico do Brasil (CPB) se preparam para resultados parecidos ou ainda piores ao fim deste mês --e possivelmente também nos meses seguintes, em meio à pandemia de Covid-19.

Durante parte da segunda quinzena de março, casas lotéricas ficaram fechadas em alguns estados, até que um decreto do governo federal permitisse sua reabertura como serviço essencial.

Role para baixo para continuar lendo
Anúncio

"É muito preocupante. Estamos vendo a possibilidade de a arrecadação cair em 50% neste mês, já que muitas casas lotéricas que estão em shoppings continuam fechadas", afirma o presidente do CPB, Mizael Conrado.

O diretor-geral do COB, Rogério Sampaio, faz previsão parecida para a redução no mês de abril. "Isso nos preocupa, é uma queda bastante significativa e precisamos esperar os próximos meses", diz.

Por lei, o COB recebe 1,71% do valor arrecadado pelas loterias, e o CPB, 0,95%. Outras entidades e órgãos governamentais ligados ao esporte também possuem direito a algumas fatias desse bolo.

Essas verbas são repassadas diretamente pela Caixa e aplicadas, no caso dos comitês, na preparação dos atletas brasileiros, principalmente para os Jogos Olímpicos e Paraolímpicos.

Após o adiamento de Tóquio-2020 para 2021 e a paralisação do esporte em todo o mundo, a expectativa é de chegar ao principal evento do ciclo com investimentos bastante reduzidos.

Inicialmente, o COB esperava receber R$ 312 milhões de verbas das loterias (97% do seu orçamento total para o ano), mas já sabe que não chegará a esse montante. Em fevereiro, a Caixa repassou R$ 30,9 milhões para o comitê. Já em março, o valor foi de R$ 16,8 milhões.

Em 2019, a média mensal de arrecadação do COB foi de R$ 23,9 milhões, com picos nos meses de maio e dezembro, quando foram realizados grandes sorteios da loteria Mega-Sena. Para atingir o valor que pretendia em 2020, a média mensal precisaria ser de R$ 26 milhões.

No CPB, a queda em março, na comparação com fevereiro, foi de R$ 17,2 milhões para R$ 9,3 milhões. No ano passado, o comitê recebeu mensalmente em média 13,3 milhões.

A Caixa informou que os dados de abril serão consolidados e divulgados no início de maio.

Segundo Rogério Sampaio, o volume da arrecadação do COB em 2018 e 2019, somado a corte de gastos realizados desde 2017, faz com que o comitê tenha um recurso de contingenciamento no valor de R$ 135 milhões. Ainda assim, a ideia é não precisar usá-lo.

A inexistência de competições esportivas no momento e a paralisação de treinamentos também ajudam a entidade a poupar recursos, embora o salário de alguns treinadores, vários deles estrangeiros e que atendem a elite dos atletas do país, continuem sendo pagos normalmente.

"Até Tóquio temos totais condições de manter o nível de treinamento. Agora, é lógico que, se o período de diminuição no volume de apostas continuar, vamos ter que rever situações, tomar medidas para que o COB continue saúdavel. O nosso compromisso é não gastar mais do que arrecada", diz o diretor.

Como parte dos recursos da entidade é repassada para mais de 30 confederações das modalidades olímpicas, elas também deverão passar por meses turbulentos.

Desde 2001, com a sanção da Lei Agnelo/Piva, que previa os repasses das loterias para a área esportiva, entre outras, o esporte brasileiro passou a ter uma fonte de receita que o fez mudar de patamar internacionalmente.

Os cálculos que definem os percentuais da distribuição mudaram ao longo dos anos, e a divisão atual foi estabelecida no fim do governo Michel Temer, em 2018.

De 1920, ano da primeira participação olímpica do Brasil, até 2000, o país conquistou 66 medalhas em 18 participações. Nas quatro edições após a lei entrar em vigor, foram 62 medalhas.

Com cofres mais cheios, o esporte paraolímpico brasileiro também se desenvolveu durante esse período, e o país conseguiu se firmar no grupo das dez maiores potências nas últimas três edições dos Jogos.

A queda vivida atualmente na sua principal fonte de arrecadação não é o único indicativo de que o esporte nacional passará por muitas dificuldades na retomada após o pico da pandemia.

Muitos contratos de patrocínio de entidades e atletas têm término previsto para o segundo semestre deste ano, que deveria ser marcado pelos Jogos de Tóquio.

É o caso do apoio da Caixa (que independe dos repasses das loterias) às confederações de ginástica e atletismo e ao CPB. Quem não conseguir renegociar a extensão dos acordos poderá ficar menos amparado na reta final da preparação para o evento de 2021.

Alguns clubes sociais, grandes propulsores do esporte olímpico no país, já anunciaram cortes nos salários de atletas e membros das comissões técnicas.

Na última semana, o Esporte Clube Pinheiros, referência de investimentos na área, rescindiu contrato com Thiago Braz, campeão olímpico no salto com vara em 2016. A expectativa é de que novos cortes no setor de alto rendimento da entidade aconteçam nos próximos meses.

Leia também