Especial: como segurar as promessas que estão em atividade no Brasil?

Flávio Garcia

Apontado como um dos jogadores mais promissores das divisões de base do São Paulo, David Neres fez oito partidas pelos profissionais, todas em 2016. Em janeiro deste ano, quando disputava o Sul-Americano Sub-20 pela Seleção Brasileira, foi vendido ao Ajax (HOL), por 15 milhões de euros (cerca de R$ 50,7 milhões), sem ter chance de se apresentar ao novo técnico Rogério Ceni. O caso do jovem de 20 anos ilustra bem a situação das promessas surgidas nos principais clubes do país. Contratos prolongados por mais alguns anos, multas rescisórias altíssimas, participação de jovens talentos em competições importantes... Os dirigentes brasileiros fazem de tudo para segurar ao máximo as joias da base.

No entanto, têm a perfeita noção de que o assédio do exterior é pesado e impede a concorrência. Na prática, a equação é mais ou menos esta: vontade do jogador em atuar na Europa + necessidade financeira do clube + proposta satisfatória para todos os lados = venda concretizada.

Entre os 12 clubes brasileiros pesquisados pelo LANCE! (Atlético-MG, Botafogo, Corinthians, Cruzeiro, Flamengo, Fluminense, Grêmio, Internacional, Palmeiras, Santos, São Paulo e Vasco), o discurso é muito parecido: "a base serve para revelar talentos para os profissionais, mas, se render uma grana boa para o clube, ninguém ficará chateado."

A venda de David Neres permitiu que o São Paulo segurasse outro jovem promissor, Luiz Araújo, que recentemente teve o contrato renovado até dezembro de 2021. A prorrogação do vínculo de jovens promessas, aliás, se tornou algo bem comum entre os principais clubes do Brasil. Foi assim no próprio São Paulo, com Rodrigo Caio, no Fluminense, com Gustavo Scarpa, no Corinthians, com Guilherme Arana, no Atlético-MG, com Gabriel.

- Segurar os jovens valores no futebol brasileiro é a maior preocupação dos nossos clubes. Uma proposta do exterior mexe com a cabeça do jogador, da família, do procurador e passa pelas circunstâncias financeiras do clube - afirmou Marcos Francisco de Almeida, diretor da base do São Paulo, clube que no fim de março também teve de vender o zagueiro Lyanco para o Torino (6 milhões de euros, cerca de R$ 20 milhões) para aliviar ainda mais seus cofres.

Apesar das tentativas em segurar os talentos da base, a preocupação dos clubes tem data para recomeçar. No dia 1 de junho, a janela de transferências na Europa será reaberta.

- Não dá para segurar. Vem alguém da Europa e como segurar com conta pra pagar? Vende para reinvestir. Ou vende pra pagar dívida. E aí vende mal. Paga dívida e não contrata um jogador do nível do que foi vendido - lamenta André Figueiredo, diretor da base do Atlético-MG.

Em muitos casos, a proposta, que chega para o clube e o jogador, mexe também com a cabeça de parentes:

- É algo que tem preocupado os clubes formadores. O mercado é cruel, fazem oferta para o pai, o empresário. Há de haver uma legislação que proteja o jogador a ser reconhecida pela Fifa. O clube formador tem que ser amparado para não perder talentos na base - cobra Ronaldo Lima, gerente da base do Santos.

Segure-se quem puder!

QUEM PODE RECEBER PROPOSTA PARA SAIR?
Luiz Araújo (São Paulo)
- Teve a permanência esticada no clube após a venda de David Neres em janeiro. O Lille, da França, chegou a oferecer R$ 20 milhões por ele. O São Paulo renovou o contrato dele até 2021

Gustavo Scarpa (Fluminense) - No fim do ano passado, o Palmeiras fez uma proposta oficial pelo jogador, que já havia recebido sondagens da Europa. Em março, teve o contrato renovado até 2020.

Gabriel (Atlético-MG) - O Galo recusou uma proposta de um clube turco por considerá-la baixa: 1 milhão de euros (cerca de R$ 3,5 milhões). Titular do time, o zagueiro renovou até dezembro de 2020.

Guilherme Arana (Corinthians) - A Inter de Milão, da Itália, ofereceu cinco milhões de euros pelo jogador (cerca de R$ 18,5 milhões). Recentemente, o lateral-esquerdo teve o contrato renovado até 2021.

Thiago Maia (Santos)
- No ano passado, o volante recebeu uma proposta de 18 milhões de euros (cerca de R$ 66,6 milhões) do Zenit, da Rússia. O jogador de apenas 19 anos tem contrato com o Santos até junho de 2019.

Vinicius Junior (Flamengo) - Destaque da Seleção sub-17, o meia nem estreou nos profissionais, mas já está na mira de grandes clubes europeus, entre eles o Barcelona. A multa rescisória é de 30 milhões de euros.


























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