A escolha de Gameiro pelo Atlético é bem mais simples do que parece

Felipe Portes
Foto: AP

Você é um atleta de alto nível. E está no seu auge físico, em uma das ligas mais importantes do mundo. Seu trabalho está sendo recompensado com convocações para a seleção do seu país e, de repente, chega aquela proposta dos sonhos. O Barcelona quer te contratar e você fica dividido.

Porque, apesar de estar ao lado dos melhores do mundo, seu papel sempre será secundário. E então, você pensa: “Poxa vida, quero isso para a minha carreira? Talvez não”. E assina com o Atlético de Madrid, outra potência espanhola sem a mesma pompa e os craques do Barça.

Essa escolha poderia ser bem duvidosa em outros tempos, mas para Kevin Gameiro, ela se sustenta e tem um ponto de razão. Partindo do princípio que ele jamais seria titular enquanto o Trio MSN estiver em atividade (realidade dele e de muitos outros atletas), quem é que abdica de minutos de jogo, titularidade, gols e projeção para ficar sentado no banco? Quer dizer, se ficar no banco destes três monstros do futebol fosse um emprego possível para mim e para você, talvez fosse um bom negócio. Ser bem pago para ver de camarote as partidas da equipe catalã, interagir com os colegas de clube, aquela coisa, é um sonho.

Em entrevista ao site Le10 Sport, o atacante colchonero explicou suas razões: “Eu tive que escolher entre ir para o Barcelona ou vir para o Atlético de Madrid. Mas o que faria indo para o Barça? Lá, eles têm Neymar, Messi e Suárez. Há jogadores como esses e eu gostaria de jogar todos os jogos. Eu tinha que recusar, porque jogaria somente os 10 minutos finais. É o que aconteceu com Ibra“, afirmou Gameiro.

Mas para um atleta com ambições e objetivos pessoais, assinar com o Barça para ser a quarta ou a quinta opção no ataque não é uma escolha saudável. Porque quem tem mesmo sangue no olho e vontade de entrar para a história jogando bola, jamais vai preferir o banco aos gramados, às divididas, aos dribles, até mesmo em detrimento dos erros. Simplesmente porque ser colocado à prova faz parte do ofício. Ser reserva também faz, mas ao fim do dia, você sempre será aquele cara que não é bom o bastante para entrar jogando.

A realidade é dura e a história só lembra dos que estiveram em atividade. Aí que entra a aptidão para o acaso: este reserva pode ser um talismã que entra no segundo tempo e causa impacto suficiente para dar a vitória ao seu time, seja com gols, assistências ou uma participação crucial antes da bola balançar a rede. Mesmo assim, apostar que isso se repita todo jogo é um tanto quanto descabido.

Lidemos com os fatos: Gameiro é hoje um dos ídolos no Atlético de Madrid. Evoluiu seu jogo sob o comando de Diego Simeone e é um goleador valioso para o elenco. Jamais estaríamos falando dele se a transferência fosse para o Barcelona. Quer dizer, até estaríamos, pois a esta altura, especulações sobre sua insatisfação no banco já seriam inúmeras na espalhafatosa imprensa espanhola. Não é mesmo, Paco Alcácer?

Na atual ordem mundial, jogar no Barcelona não é só um sonho. Os escolhidos pelo clube podem até sorrir de orelha a orelha quando chega aquela propostinha, mas há nesta escolha um certo sacrifício pessoal. A exigência de que você se acomode como uma peça de reposição ou que tente superar o talento e a qualidade demonstrada pelos titulares. Ou seja, melhor esquecer, mesmo. Enquanto Iniesta, Messi, Suárez, Neymar, Rakitic, Mascherano e Piqué não se aposentarem, não há quem possa chegar e desbanca-los. E isso já é mais que meio time de futebol.

Olhando assim, a esnobada de Gameiro nem parece uma distorção de prioridades. Porque para a maioria massacrante de jogadores, só importa estar com a bola ou perto dela. Sentar para ver o jogo no conforto do banco, conversando com os companheiros, não é o projeto de vida de nenhum menino. Quem julgou Kevin por ter escolhido o Atlético talvez fique um pouco mais simpático à sua decisão. Porque, até onde sabemos, o futebol não se resume aos grandes clubes e nem aos craques facilmente explorados pelo marketing.

Para cada Messi, existem milhões de Zequinhas. Gameiro está mais perto de Messi do que de Zequinha, é verdade. Mas entre o melhor de todos os tempos e o segundo melhor do time em uma temporada específica, há um longo caminho a ser percorrido, e quase sempre o fim da estrada jamais chega.