Escolas de samba do Rio discutem o possível adiamento do carnaval

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O casal de mestre-sala e porta-bandeira do Salgueiro, Sidclei e Marcella
O casal de mestre-sala e porta-bandeira do Salgueiro, Sidclei e Marcella

Se é verdade que “na folia o povo esquece a amargura”, como diz um samba do Salgueiro, a revanche na Sapucaí contra esses tempos tão difíceis pode demorar. A necessidade de adiar os desfiles de carnaval — um espetáculo com aglomeração por natureza, na pista e na plateia — está cada vez mais em debate entre dirigentes e artistas das escolas.

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Entre eles, ecoa a opinião de que a festa só acontecerá na data original, em fevereiro de 2021, se, até lá, houver uma vacina contra o novo coronavírus ou, no mínimo, um medicamento eficaz e o contágio quase zerado.

Os sambistas já cogitam passar os desfiles para março, maio ou até mesmo para o feriado de Corpus Christi, em junho. Jorge Castanheira, presidente da Liesa (Liga Independente das Escolas de Samba), afirma que nos próximos dias convocará uma reunião para debater os rumos do carnaval. Além das milhares de pessoas que os festejos reúnem no Sambódromo, ele lembra que é preciso considerar a segurança para realizar o pré-carnaval, nos barracões e nos ensaios.

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Para ele, o limite para bater o martelo sobre como será o “novo normal” na festa, uma das maiores do Rio, é o início de outubro.

— O futebol e a Fórmula 1 podem voltar sem público. No carnaval, não faz sentido. Sem falar que cada escola tem três mil componentes. Para o setor do entretenimento, a maior solução será a vacina ou um bom remédio — diz.

Sem definições, algumas escolas esperam para lançar seus enredos (que a esta altura do ano já estariam quase todos anunciados). O carnavalesco Leandro Vieira, da Mangueira, é um dos que aguardam.

— Não me sinto confortável. Já tem muita gente normalizando a pandemia. Não podemos fazer o mesmo. Agora, precisamos tratar das pessoas que morrem e passam fome, problemas reais no Morro da Mangueira, por exemplo — afirma Leandro. — Não acredito que sejam viáveis os desfiles em fevereiro. Até porque toda a cadeia industrial do carnaval está parada.

Em compasso de espera, das 12 agremiações do Grupo Especial, apenas cinco anunciaram os temas do ano que vem. Na Grande Rio, que cantará o orixá Exu, os carnavalescos Gabriel Haddad e Leonardo Bora decidiram pôr, no logotipo do enredo, o símbolo de infinito ao lado do ano de 2021.

— Decidimos pelo lançamento para tentar dar um ânimo na comunidade de Duque de Caxias, que tem sofrido com o coronavírus — diz Haddad, que também acredita na transferência do espetáculo para outra data. — Mesmo que os desfiles aconteçam no carnaval, terão de ser repensados em termos de material, boa parte importada da China — ressalva.

Na Beija-Flor, o conselheiro Gabriel David garante que, no que for possível, a azul e branco vai se preparar como se a folia fosse em fevereiro. Hoje, a escola apresenta a sinopse de seu enredo. E já se adapta aos novos tempos causados pela doença: o concurso de samba transcorrerá em lives. A Unidos de Padre Miguel, do Grupo de Acesso, também se rendeu às escolhas virtuais, que começam em 4 de julho.

Gabriel sugere que se analise o avanço da pandemia e o comportamento de eventos adiados para o fim do ano, como a Festa do Peão de Barretos, em São Paulo, antes que seja batida a sentença sobre as apresentações na Passarela:

— O importante é que tenhamos os desfiles, com disputa entre as escolas, seja em fevereiro, abril ou julho. Um ano sem carnaval teria consequências econômicas muito ruins para o Rio.

Formato extraordinário

Opinião parecida é compartilhada por Ruan Lira, subsecretário estadual de Grandes Eventos. Ele ressalta a relevância cultural e econômica do evento. E defende que, caso seja necessário mover as datas da festa, os blocos de rua acompanhem a mudança. Quanto à Sapucaí, Ruan não despreza a possibilidade de que as escolas discutam um formato extraordinário para 2021, como um desfile sem rebaixamento e possíveis alterações nas regras.

Por enquanto, quadras, ateliês e barracões estão abertos apenas para a confecção de mais de cem mil máscaras para o combate ao coronavírus. A movimentação típica destes locais migrou para a internet. No Salgueiro, os mestres de bateria e passistas famosos dão oficinas on-line. Já Sidclei e Marcella Alves, casal de mestre-sala e porta-bandeira, usam computador ou celular para conversarem diariamente sobre a dança. Quando se encontram, seguem os protocolos, como o uso de máscaras.

Na Viradouro, ritmistas do naipe de tamborim chegaram a ensaiar on-line. A escola, que terá como enredo o carnaval de 1919, o do pós-gripe espanhola, prepara agora uma live para comemorar seu aniversário, na próxima quarta-feira.

— Até que se encontre uma cura, grandes eventos vão acontecer assim, virtualmente. É o novo jeito de se fazer festa, com uma lista de convidados sem limites, e que vai perdurar após a pandemia. É um caminho sem volta — diz Alice Fernandes, produtora da Muitamídia, que realiza as lives.

O Salgueiro já fez até feijoada virtual, com distribuição da iguaria para moradores de rua na quarentena.

— E a ideia é que as lives se mantenham após a pandemia. É uma oportunidade para que pessoas que moram longe se divirtam — afirma André Vaz, presidente da escola, que tem submetido os participantes dessas apresentações on-line a testes rápidos de Covid-19 antes de cada show.

O cuidado se justifica. Praticamente todas as escolas perderam baluartes e desfilantes na pandemia. Só na Mocidade, foram dez, conta o diretor de carnaval Marquinho Marino, que chegou a ficar internado na UTI com a doença.

Por meio de nota, a Riotur informou que acompanha a pandemia, mas ainda não é possível falar em planejamento do Carnaval Rio 2021, nem mesmo em adiamento.

da Agência O Globo

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