Equipes sem contrato e regulamento atrasado: a guerra dos bastidores da F1

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Lewis Hamilton durante o GP da Rússia. (Foto: Mark Thompson/Getty Images)
Lewis Hamilton durante o GP da Rússia. (Foto: Mark Thompson/Getty Images)

Por Julianne Cerasoli (@jucerasoli)

Não é nenhuma rebelião ou ameaça de criar um campeonato paralelo, como aconteceu com a Fórmula 1 em 2008, quando o então presidente da Federação Internacional de Automobilismo, Max Mosley, tentou forçar as equipes a adotar um teto orçamentário de 50 milhões de dólares, algo em torno de um quinto do que é gasto atualmente pelos grandes. Mas a categoria vive uma situação pouco confortável: apenas três pilotos, duas fornecedoras de motores e alguns circuitos têm contratos que vão além da próxima temporada. Mercedes? Ferrari? Hamilton? Vettel? Verstappen? Todos só estão garantidos até o final de 2020.

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Com a perda de poder da FIA nos últimos anos, quem tenta acabar com as incertezas desta vez é a Liberty Media, empresa que tomou o controle da F-1 em 2017. Eles herdaram um verdadeiro abacaxi deixado pelo dono anterior, Bernie Ecclestone, que, para resolver a rebeldia de 2008, ao invés de fechar um contrato com todos os times, fez acordos unilaterais. E o poder de barganha que isso deu às equipes é algo que elas insistem em manter.

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Em pauta, novamente, está a implementação de um teto orçamentário, ainda que se fale em um limite muito maior, de US$ 175 milhões, que seria atingido com uma série de medidas para padronizar peças que custam muito caro e que não trazem grandes ganhos de performance, como a caixa de câmbio, por exemplo. Mas nem os grandes, nem os times médios estão contentes com isso.

“Somos contra essa padronização primeiro porque já vamos ter um teto de gastos para controlar os custos”, afirmou o chefe da Ferrari, Mattia Binotto. “Acreditamos que a padronização possa até ser um risco para o futuro da Fórmula 1, porque primeiro não se sabe qual a confiabilidade dessas peças - como aconteceu com o câmbio padronizado da F-2 - e depois não sabemos se o nível de performance é o que você espera de um F-1.”

No meio do pelotão, os times também torcem o nariz para essas peças, que vão adicionar, estima-se, 35kg (juntamente do pneu de 18 polegadas, adotado puramente por questões estéticas) ao carro, que já é criticado pelos pilotos por ser muito pesado. “Isso, juntamente das questões aerodinâmicas, vai fazer com que sejamos 5 a 6s mais lentos por volta. Ou seja, vamos gastar um caminhão de dinheiro para ter um carro que não é muito mais rápido que um Fórmula 2”, comparou o chefe da Racing Point, Otmar Szafnauer. “Além disso, tem tanta coisa que fica fora do teto orçamentário que as grandes não vão deixar de gastar muito.”

O dirigente refere-se aos gastos com a folha de pagamento e com marketing, que estão de fora e que garantem que os times grandes ainda consigam contratar os melhores funcionários.

O que parecia ser grande objetivo, contudo, já foi atingido pelos times: mudanças importantes no regulamento com maioria simples de votos só podem ser feitas 18 meses antes do ano em que elas entram em vigor. A partir de agora, é necessária a unanimidade. Ou seja, mesmo sem a rebeldia de pouco mais de uma década atrás, as equipes estão no controle das ações.

Os times grandes concordam que a categoria precisa de mais competitividade para ser mais atraente, mas resistem em ceder, o que já diminuiu consideravelmente a expectativa de uma revolução para 2021. Os conceitos gerais estão definidos: adoção de aerodinâmica mais simples na carenagem para diminuir a turbulência, caminho que começou a ser adotado neste ano, e a simplificação das unidades de potência híbridas. Mas fora isso a a discordância é tanta que os diretores técnicos pediram mais tempo para avaliar as mudanças, algo que foi concedido recentemente pela Liberty.

Não é por acaso: pilotos como Vettel e Hamilton já condicionaram a renovação de seus contratos aos caminhos escolhidos nas novas regras, mas eles não param por aí: são contra a proposta da Liberty Media de aumentar o calendário, algo fundamental para a sustentabilidade econômica da F-1, na visão dos norte-americanos.

A temporada 2020 já terá o recorde de 22 etapas, e o limite proposto pela Liberty é de 25, nove a mais do que Vettel já declarou ser favorável. Quanto mais corridas no calendário, mais renda para a Liberty, mas ao mesmo tempo isso também pressiona o orçamento das equipes e as afasta de um teto orçamentário. As próximas semanas serão fundamentais nessa queda de braço entre a Liberty e as equipes, e vão definir se a estratégia atual será mais eficaz para os times terem mais controle do que a rebeldia de 11 anos atrás.

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