Entre youtubers de finanças, 'tem os responsáveis e os oportunistas', diz Nilce Moretto

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Nilce Moretto, do canal Coisa de Nerd, Cadê a Chave e, agora, Financeiro. Foto: Divulgação / Evva Comunicação
Nilce Moretto, do canal Coisa de Nerd, Cadê a Chave e, agora, Financeiro. Foto: Divulgação / Evva Comunicação

*Atualizado às 14h35: diferentemente do que dizia a primeira versão deste texto, o casal Nilce e Leon não é dono do canal Controle 2. Leon é um dos apresentadores, mas o canal pertence ao grupo BBTV.

No auge da pandemia de coronavírus, o YouTube brasileiro ganhou mais um canal sobre finanças pessoais. Chamado simplesmente Financeiro, o veículo tem como objetivo falar de dinheiro, investimento e economia de um jeito simples. Soa familiar? Pode ser. O diferencial são os nomes por trás do projeto: Nilce Moretto e Leon Oliveira Martins.

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O casal já comanda um império de conteúdo no YouTube que inclui os canais Coisa de Nerd (10,4 milhões de inscritos), Cadê a Chave? (3,93 milhões) e República Coisa de Nerd (1,32 milhões). A mais recente adição ao grupo é o Financeiro, que além de Nilce e Leon, conta com o economista Luiz Persechini.

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"A quarentena instigou a gente a produzir conteúdo", diz Nilce em entrevista ao Yahoo Finanças, sem o sempre presente Leon ao lado, que precisava cuidar dos diversos canais no momento em que marcamos a conversa. "A gente tem que dividir pra conquistar", brinca a jornalista.

Na entrevista que você confere a seguir, Nilce fala sobre o desafio de lançar um canal de finanças no meio de uma pandemia, enfrentar a concorrência, os oportunistas que existem no mercado e diz por que o livro "1984", de George Orwell, sobre um estado totalitário que vigia e controla a informação, é hoje mais relevante do que nunca.

Yahoo – De onde surgiu a ideia de um canal focado em finanças?

Nilce Moretto – Isso começou por interesse nosso, uma lacuna que a gente tinha. Eu sou jornalista, o Leon é analista de relações internacionais, e o ano passado a gente começou a perceber que tem uma demanda muito grande das pessoas buscando informação nos nosso canais. Por exemplo, no Cadê a Chave, a gente sempre falou um pouco sobre atualidades, notícias, comportamento e política. E as pessoas pediam para que a gente desenvolvesse, se aprofundasse em alguns temas. Mas esse aprofundamento não cabe num canal que é de entretenimento.

Existe uma demanda muito menor do que por conteúdo de entretenimento, é claro, é um público mais nichado, mas existe uma demanda. No ano passado eu fui convidada para ser advisor de uma startup do Luiz Persechini e a gente se aproximou muito. E começamos a perceber preocupações que coincidiam em relação à qualidade do conteúdo [de finanças] que era colocado na internet.

A gente sabe que tem canais maravilhosos, que são referência de conteúdo, que realmente têm provido educação financeira e tudo o mais, mas a gente sentia uma dificuldade de linguagem de alguns canais que eram um pouco mais difíceis de entender. O Luiz é professor, eu sou jornalista, a gente tem uma facilidade de explicar as coisas. A gente percebeu que ali tinha um espaço que a gente poderia ocupar traduzindo temas que são mais complexos de entender com uma linguagem mais simplificada, mas sem cair no simplismo. E a gente partiu por aí.

Alguns canais têm como foco finanças pessoais, com dicas de imposto de renda, economia doméstica etc. Outros têm como objetivo ajudar o espectador a enriquecer, com dicas de investimento para maximizar ganhos e reduzir perdas. Onde o novo canal de vocês, o Financeiro, se encaixa neste cenário?

A gente sabe que no YouTube as coisas precisam ser dinâmicas, a gente também tem que jogar de acordo com o algoritmo. Mas na elaboração do canal, a gente teve três eixos. O primeiro: falar com quem não tem noção nenhuma de economia, que seria a nossa "sexta básica", a playlist da sexta-feira. Tem vídeo explicando juros, e usando para isso uma metáfora de um videogame, por exemplo, em que a gente usa o que acontece no Animal Crossing para explicar como a sociedade se comporta diante do aumento ou da baixa da taxa de juros, e por aí vai.

A gente tem uma playlist chamada Call da Quarta, em que a gente aproveita a experiência que o Luiz tem de ter trabalhado no mercado financeiro, para dar insights... Parece meio desorganizado, mas é organizado, tá? [risos] A playlist é voltada para o público que já é investidor, que já conhece e já tem interesse em investimentos, mas que também não é o expert. Na segunda-feira tem o Segunda Inspiração, em que a gente tenta desmistificar, combater algumas fake news, coisas que a gente percebe que rolam também, muito engodo e tudo o mais na internet.

A gente vai tecendo um conteúdo que consegue contemplar etapas das pessoas no aprendizado da economia e do investimento e mais esse público que está ali no início da jornada.

Entrar nessa área de finanças no YouTube é mais fácil quando vocês já são conhecidos no mercado e já têm um público fiel?

A gente não fez o Financeiro com a preocupação de criar um canal gigante. Eu fiz com a preocupação de criar um canal nichado. Então vai ser a minha primeira experiência com um canal de um nicho definido. Quando as pessoas olham, por exemplo, para o Coisa de Nerd, que é um canal de tecnologia, tende-se a imaginar que é um canal nichado, mas não. Ele é um canal que trata de assuntos de nicho para um público de massa. No Cadê a Chave é um público de massa. No República também. A gente não tem uma diferenciação por faixa etária ou por interesse, são as pessoas da nossa comunidade. Você tem os grupos mais diversos de interesse e de idade acompanhando a gente nesses canais já estabelecidos.

No Financeiro não, a gente sabia que seria uma parcela pequena dessa audiência que nos acompanharia, mas que também haveria possibilidade de a gente criar uma nova frente de audiência, atrair outras pessoas. Aqui a expectativa não é de números, mas é qualitativa. Eu quero criar uma comunidade com um propósito mais educativo mesmo. E eu acredito que o canal tem que ser olhado com essa outra perspectiva.

Não acho que seja mais simples porque a criação do canal no YouTube tem muito a ver com a realidade da plataforma hoje. Qualquer canal que você vá criar, seja de qualquer assunto, tem que entender que existem facilitadores – porque já existe um mercado gigante, quando nós começamos não havia mercado –, mas ao mesmo tempo é mais difícil porque você tem uma concorrência maior. Para mim e para o Leon é uma experiência nova, ser de nicho, mas ao mesmo tempo a gente já tem ali uma audiência que, curiosa, vai acompanhar a gente pelo menos no início. Aí depois, eu não sei, o canal tem que andar sozinho e se sustentar com o conteúdo para um público nichado.

Muitos analistas apontam que o aumento de pessoas físicas investindo na bolsa de valores nos últimos anos se deve, em parte, às dicas de influenciadores. Você acha que a maioria dos youtubers têm consciência dessa responsabilidade?

Acho que em toda profissão a gente tem os responsáveis e os oportunistas. Na produção de conteúdo financeiro no YouTube é a mesma coisa. A gente tem as pessoas que estudam e que têm consistência no conteúdo que produzem, e é claro que existem as pessoas que querem surfar uma onda.

A ideia desse canal surgiu no início do ano passado, essa demanda vinha de um tempo. E a gente esperou muito por causa disso também. A gente relutou até entender o que a gente de fato tinha a oferecer. E é justamente por isso que o Luiz é parte integrante disso. Eu sou jornalista, eu poderia pesquisar, mas eu senti falta de ter um economista.

Esse compromisso é uma preocupação que a gente tem e eu vejo até pelo resultado. Quando você me fala que analistas atribuem esse aumento [de investidores em renda variável] à presença desse conteúdo nas redes e plataformas, você vê que é o resultado de trabalho de gente séria.

Para muitos brasileiros, educação financeira se resume a dicas no YouTube e nas redes sociais. Você acha que o Estado e as instituições financeiras precisam também investir mais em educação financeira?

Eu acho. Isso é uma luta para a gente, sabe? Eu acredito que a nossa população precisava muito ter isso na escola, o entendimento claro do que é o mais simples mesmo. Embora a gente saiba que existe uma deficiência, é até assustador quando temos um feedback tão positivo. Quando colocamos esse vídeo de juros, por exemplo – sério, eu não estou exagerando –, eu recebi feedback de gente que tem pós-graduação, doutorado, dizendo "eu nunca tinha entendido isso, mas como vocês explicaram, visualmente, ficou límpido, transparente para mim".

A gente percebe que não é um problema da população sem escolaridade. É o foco da educação. A nossa educação não foca em formar uma população educada e com a capacidade de ser autônoma diante disso. E até por isso às vezes a gente não é tão exigente com os nossos políticos quando eles trazem projetos mirabolantes para a economia. A gente não sabe cobrar porque não temos essa educação básica. Não é algo óbvio para todo mundo. Seria um sonho se a gente tivesse no nosso programa curricular uma grade que fosse de economia básica, sabe? O mínimo para a gente entender.

Para finalizar, um bate-bola. Como você investe o seu dinheiro?

Eu tenho uma consultoria que me atende no Brasil. A gente valoriza demais o papel do consultor financeiro. Eu não tenho tempo para ficar dedicando a aprender cada uma das coisas e vigiar cada um dos meus investimentos, então eu tenho uma equipe que faz isso para mim. Eu tenho que produzir conteúdo, essa é a minha especialidade. Nosso investimento é bem diversificado.

Um livro?

Hoje, eu estou recomendando muito "1984" [de George Orwell]. Tem dois anos que eu estou recomendando muito. Eu aproveito todas as oportunidades porque acho que essa é a Bíblia que a gente tem que ter na cabeceira hoje. Não tem lógica o que está acontecendo no mundo. Eu vou aproveitar essa oportunidade para recomendar de novo [risos].

Uma música/artista/álbum?

Cara, eu estou numa fase de ouvir Pink. Muito Pink. Tudo dela [risos]. Eu jogo na playlist e tem sido minha música diária. Eu não acho que me influencia muito, é que eu tenho muitas fases. Eu ouço música até enjoar. A Pink é a do momento. Daqui a pouco enjoo e muda.

Um filme?

"Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças". Eu gosto muito da construção do roteiro, ele não é óbvio. Aquela coisa de a gente só valorizar depois que perde, acho que é uma lição bem legal, principalmente para essa fase. Eu revi agora na época da quarentena e ele caiu com um significado diferente.

Um influenciador que você acompanha e recomenda?

Cara, eu não vou recomendar. Não consigo apontar algum nesse momento, você me pegou de surpresa. A gente consome muita coisa, e agora eu descobri o TikTok, dei uma fugida do YouTube. Eu estou há uma semana mergulhada no TikTok, vendo muito sobre o movimento Black Lives Matter. Só estou com isso na cabeça. Se eu fosse recomendar alguma produção de conteúdo, seria acompanhar a hashtag #BlackLivesMatter no TikTok agora.

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