Psicóloga esportiva aconselha atletas e reflete sobre adiamento da Olimpíada: "Hora de repensar"

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Olimpíada ficou mais longe. Foto: Getty Images
Olimpíada ficou mais longe. Foto: Getty Images

Por Gabriel Leão

Os Jogos Olímpicos de Tóquio 2020 estão entre as vítimas da pandemia de Covid-19. Todo o preparo de atletas para competição sendo postergado, uma vez que anunciaram que seria efetuada em 2021, e, em alguns casos planos de aposentadoria, como do reconhecido wrestler cubano tricampeão olímpico Mijaín Lopez. 

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Os efeitos psicológicos da atual crise mundial são sentidos por todos e para entender como afetam atletas olímpicos em particular, o Yahoo Esportes entrevistou por Skype um dos principais nomes da América Latina em Psicologia Esportiva: Dra. Katia Rubio.

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Além de psicóloga é jornalista e educadora, autora de 18 livros publicados na área de Psicologia Esportiva e Estudos Olímpicos, é também professora associada na Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo (USP) e membro da Academia Olímpica Brasileira. Dra. Rubio respondeu sobre os efeitos psicológicos, os fatores que diferenciam atletas de alto níveis dos demais além da carga psicológica que é a não realização dos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020.

Psicóloga Katia Rubio. Foto: Divulgação
Psicóloga Katia Rubio. Foto: Divulgação

Yahoo Esportes: De maneira geral como a Covid-19 tem afetado psicologicamente as pessoas?

Dra. Katia Rubio: O isolamento define muitos comportamentos, então o ser humano é um ser social. A humanidade e sua cultura só são aprendidas por meio de contato social. No momento em que se tem este isolamento e distanciamento necessários para o controle da doença se inicia a produção de efeitos que variam de acordo com o repertório pessoal de cada indivíduo.

Pessoas acostumadas a ambientes de trabalho solitário, ou seja, restrito individualmente, certamente conseguem lidar com isto de uma forma mais elaborada do que aqueles acostumados a trabalhar em equipe, fora de casa, com movimento e os desdobramentos são muitos variando desde ansiedade até a depressão porque o isolamento em alguns casos causa esta sensação de desamparo. Por isto tenho visto a oferta de vários serviços psicológicos inclusive gratuitos para pessoas neste quadro de desamparo.

YE: Quão avançado é o Brasil em relação à Psicologia Esportiva?

D.KR: O Brasil viveu nestes últimos dez anos um aumento significativo de psicólogos especialistas em Psicologia do Esporte. Durante muito tempo a Psicologia do Esporte no Brasil foi um território ocupado por pessoas desqualificadas, muito voluntariosas, mas desqualificadas do ponto de vista técnico. 

Com a Resolução 06 do ano de 2000 do Conselho Federal de Psicologia que instituiu a especialidade, isto levou à uma busca dos psicólogos desejosos de trabalhar com psicologia do esporte por qualificação.

A busca pela qualificação e a efetiva qualificação destes profissionais levou também à uma ampliação do mercado de trabalho, o que confere muito mais visibilidade a esta prática profissional do que se tinha no passado. Sendo assim, eu diria que nestes últimos dez anos compuseram uma década de ouro para a Psicologia Esportiva no Brasil. 

YE: No que o preparo psicológico de um atleta de alto rendimento é diferente dos demais atletas e pessoas em geral?

D.KR: O atleta de alto rendimento tem um tipo de vida, um tipo de fazer muito diferente de outras práticas profissionais. Portanto, o atleta amador e o atleta em formação possuem o desejo de vir a serem profissionais do esporte. 

O profissional do esporte se dedica integralmente, sete dias por semana a este fazer. Tal que o tipo de demanda sobre esta pessoa é muito diferente inclusive de outras profissões. O atleta não possui fim de semana ou uma rotina de vida que se assemelhe a outros profissionais. Por isto precisa de cuidados distintos de outros profissionais também.

YE: O que define a psicologia esportiva como diferencial em relação às outras áreas da Psicologia?

D.KR: A Psicologia Esportiva se dedica ao campo do esporte, especificamente ao atleta, o protagonista do espetáculo esportivo, de tal maneira, o psicólogo que vai atuar como psicólogo do esporte precisa antes de tudo ter conhecimentos neste campo social que é o esporte. 

Não basta apenas o psicólogo fazer o atleta “render para ser campeão”. O esporte é uma estrutura social extremamente complexa que hoje divide espaço com as questões de ordem comercial, o atleta se tornou um produto de grandes marcas, muitas vezes sendo destituído de sua humanidade para ser trabalhado como um produto. Isto causa problemas seríssimos para o atleta e para o campo do esporte de uma forma geral. 

O psicólogo do esporte além de deter todo conhecimento relacionado à Psicologia naquilo que se refere ao trato das emoções suscitadas pelo esporte, o mesmo precisa dominar este campo complexo que é o esporte. Quando digo que é “um campo complexo” é por ser uma teia, uma trama, muito longa que vai desde o nível mais micro regional passando pelo estadual, nacional e internacional. E o atleta faz esta passagem, este trânsito, entre estas tramas. 

YE: Com a pandemia os Jogos Olímpicos de 2020 em Tóquio foram adiados para 2021. Os atletas têm todo um planejamento de treinos e preparo que acabou sendo postergado, em alguns casos até de aposentadoria. Como esta crise afeta em particular os atletas?

D.KR: (Respira fundo) ... Em meu ponto de vista é que os Jogos não foram adiados, foram cancelados. Os Jogos Olímpicos de 2020 não existem mais e se acontecerem em 2021 já não mais serão Jogos Olímpicos porque quebrou-se um calendário que é ritualístico.

Realizar os Jogos em 2021 seria mais ou menos como celebrar o Natal em fevereiro ou a Páscoa em setembro. Eu acredito pelos sinais que tenho observado tanto lá de Tóquio como do Comitê Olímpico Internacional (COI) é que em breve assistiremos ao anúncio do cancelamento dos Jogos e não do adiamento.

O adiamento é impossível, é improvável! Porém, cancelar logo de cara seria uma situação muito árdua para todos assimilarem. Então primeiro anunciou-se o adiamento e creio que nas próximas semanas receberemos a notícia do cancelamento dos Jogos. 

(Para os atletas) é um desastre, um absoluto desastre! Pois quando se compreende que Jogos Olímpicos se dão de quatro em quatro anos, e em quatro anos pode acontecer muita coisa. Ninguém sabe se daqui quatro anos haverá a possibilidade de se estar nos Jogos Olímpicos ou não. 

Tanto que acredito que toda esta geração que iria aos Jogos de Tóquio hoje vive um estado de luto. Um luto neste momento por não poder treinar ou competir, e o maior luto de todos será não poder realizar os Jogos. Os efeitos disto nós só saberemos daqui um tempo quando estes atletas tiverem elaborado esta situação.

YE: Existem semelhanças entre o caso dos Jogos de Tóquio e quando os EUA boicotaram os Jogos Olímpicos de 1980 em Moscou ou quando as nações dos Bloco Soviético boicotaram os Jogos Olímpicos de 1984 em Los Angeles, dado que muitos atletas não puderam competir e apresentar aquilo pelo qual tanto treinaram? 

D.KR: Certamente. Nos Jogos de Moscou e Los Angeles nós tivemos uma situação política. Havia um cenário político da Guerra Fria que levou ao boicote e era uma coisa esperada porque foram premeditados por meses, havia toda uma preparação para os anúncios de boicotes.

Agora não. Creio que a questão dos Jogos de 2020 é um tanto trágica porque foi uma situação que afetou a todos indistintamente e todos entendem como necessária esta medida. Então não há um “inimigo”, não há “bandido e mocinho” nesta história. 

O grande “bandido” desta história é o vírus e vítimas somos todos nós. Acredito que mais parecido do que com os boicotes de 1980 e 1984 é a eclosão da Guerra em 1940 que também cancelou os Jogos de Tóquio naquele momento. Era uma guerra com armas nas mãos, agora temos uma guerra contra um vírus. 

YE: Quais são os métodos que atletas podem utilizar para manter a saúde mental durante o isolamento social?

Tentar de alguma forma se sentir produtivo. Os atletas se sentem produtivos treinando e competindo porque este é o produto da vida do atleta. Então sei de vários atletas que estão improvisando condições de treinamento para se sentir ativos, mas esta também pode ser a oportunidade que os atletas conseguiram ter de desenvolver outras habilidades. 

Habilidades emocionais e intelectuais. É preciso produzir alguma coisa porque senão a única coisa que sobrará é o lamento pela perda de algo sobre o qual não se tem controle. Então é tempo de ler, de escutar música, de fazer tarefas manuais, montar quebra-cabeças, mas é preciso produzir alguma coisa. 

YE: Muitos atletas brasileiros são oriundos de camadas menos favorecidas, inclusive, vindos de regiões remotas ou comunidades, as quais se espera que sejam fortemente afetadas pelo Coronavírus. Em alguns casos tais atletas moram ainda nessas condições também lidando com pobreza e violência. Como é trabalhar com atletas que além destas pressões e as exigências de resultados ainda precisam buscar equilíbrio mental diante da pandemia?

D. KR: É um jogo de equilíbrio. É lidar com tudo isto ao mesmo tempo que se tenta ter controle sobre uma cena incontrolável. Tenho acompanhado diariamente o transcurso da doença, o aumento do número de mortos e infectados. É preciso ficar em casa! É preciso respeitar o distanciamento e o isolamento!

Hoje sai para ir ao mercado de manhã, fiquei assustada com o número de pessoas nas ruas e de pessoas que não usam máscaras. Se as pessoas de uma forma geral não se derem conta de que é necessário seguir com rigor este controle, o número de mortos continuará a crescer e o isolamento demorará muito mais que o previsto. 

É preciso ter disciplina! A mesma disciplina que o atleta usa para se manter treinando, pra se manter ativo, ele precisa utilizar para neste momento respeitar todas as estratégias determinadas pelas pessoas que produzem Ciência para se manter saudável. E a principal delas neste momento é o isolamento social. 

YE: Quais acredita que serão os traumas que atletas brasileiros podem desenvolver durante e após a pandemia?

D.KR: Acho que o mais difícil neste momento é lidar com a angústia e a ansiedade causadas pelo isolamento e realmente não sei nem sobre os atletas nem sobre os meus alunos... É um momento muito diferente para todos nós. 

O Brasil (em sua história recente) não viveu guerra. Há uma parte do Brasil que não viveu a dificuldade de não ter comida na mesa, da necessidade de não sair de casa. Então, este fato novo leva todos nós a ter que desenvolver estratégias para lidar com algo que nunca vivemos. 

Para mim, num nível pessoal, está sendo muito difícil. Tenho uma vida muito ativa, muitas atividades que faço fora de casa. Minha família e eu estamos isolados há 45 dias e indo para a sétima semana de isolamento, só saindo uma vez por semana para fazer mercado. 

É muito difícil! ... É muito difícil mesmo estando dentro de casa tendo a sorte de ter o salário nas mãos para poder comprar comida... Não sabemos o que será depois disto tudo. Só esperando passar para vermos.  

YE: Quais são as lições e legado desta crise mundial para o mundo dos esportes?

D.KR: Ter de repensar modelos, o esporte e a sociedade terão de se repensar. O esporte como grande parte da sociedade levou o consumo e a exploração ao limite. Talvez a maior lição desta pandemia seja repensar o mundo de uma forma um pouco mais solidária.

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