Entenda a simbologia presente nos protestos bolsonaristas

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Protestos bolsonaristas têm colocado diversas bandeiras e símbolos lado a lado. (Foto: Alexandre de Almeida/Arquivo Pessoal)
Protestos bolsonaristas têm colocado diversas bandeiras e símbolos lado a lado. (Foto: Alexandre de Almeida/Arquivo Pessoal)

Manifestações favoráveis ao governo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) têm colocado lado a lado bandeiras com diferentes símbolos e significados, que remetem desde movimentos de ultra-nacionalismo às Cruzadas da Idade Média, ou mesmo à época do Brasil Império.

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Segundo especialistas ouvidos pelo Yahoo Notícias, a aleatoriedade dos ícones presentes nos atos bolsonaristas é fruto da apropriação política pela extrema-direita brasileira, quando um desses movimentos apodera-se de tal símbolo e lhe dá outro significado.

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Foi uma bandeira estampada com o brasão de armas da Ucrânia, ostentada pelo militante pró-Bolsonaro Alex Silva, o estopim para o confronto que resultou na repressão de manifestantes pró-democracia pela PM (Polícia Militar), na Avenida Paulista, no domingo (31).

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Segundo o secretário-executivo da PM, coronel Álvaro Batista Camilo, pessoas que portavam bandeiras neonazistas foram o gatilho do tumulto nas manifestações. “A polícia filma tudo, estamos filmando isso também, vamos passar para a Justiça e o Ministério Público para que se apure. Provavelmente, [o estopim] seja o pessoal ligado ao neonazismo que acabaram começando, levando a esse tumulto”, disse Camilo ao canal CNN Brasil.

O TRIDENTE UCRANIANO

O Tryzub - um tridente, geralmente, em dourado sob um fundo azul - é considerado um dos emblemas nacionais ucranianos, mas tem sido utilizado recentemente pelos bolsonaristas como forma de endossar o discurso radicalista de “ucranizar” o Brasil.

“Quando utilizam esses símbolos, eles não fazem um elogio aos valores, à cultura ou aos mitos nacionais da Ucrânia, mas olham para o que aquele símbolo significou naquele momento de 2014 e 2015. Ali, aquele símbolo é expressão da ruptura anti sistema político, que perseguiu a classe política profissional na Ucrânia, similar à crítica que o bolsonarismo faz hoje”, explica Odilon Caldeira Neto, professor de História Contemporânea da UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora), e membro do Observatório da Extrema Direita.

Representação clássica do Tryzub no ato realizado na Avenida Paulista, em São Paulo, no domingo. (Foto: Alexandre de Almeida/Arquivo Pessoal)
Representação clássica do Tryzub no ato realizado na Avenida Paulista, em São Paulo, no domingo. (Foto: Alexandre de Almeida/Arquivo Pessoal)

O tridente foi um dos ícones apropriado por movimentos ultra-nacionalistas e neonazistas na Ucrânia como o Pravy Sektor (Setor Direito), um grupo político de extrema-direita com braço paramilitar que começou como um movimento de rua e hoje possui integrantes no parlamento ucraniano.

O Pravy Sektor ganhou destaque a partir da crise de 2013, quando protestos violentos derrubaram o governo. Em um deles, manifestantes cercaram o Parlamento e arremessaram umdeputado em uma caçamba de lixo, em uma cena que viralizou na internet. “Eles olham para a Ucrânia não admirando-a, mas sim vendo-a como um laboratório da extrema-direita que deu certo”, completa Caldeira Neto.

Discursos de “ucranizar” o Brasil tem sido repetidos por bolsonaristas como por exemplo pelo deputado estadual Daniel Silveira (PSL-RJ), que postou um apelo no Twitter, ou pela militante Sara Winter, alvo de inquérito que apura a disseminação de fake news contra o STF (Supremo Tribunal Federal) e liderança do grupo que se auto-intitula “300 pelo Brasil”.

AS TOCHAS DOS ‘300 PELO BRASIL’

Acampado nos arredores da Esplanada dos Ministérios, em Brasília, o bando já foi classificado pelo MP-DF (Ministério Público do Distrito Federal) como uma “milícia armada” e, segundo o historiador da UFJF, o grupo reúne características neofascistas em seus rituais e símbolos. Um dos exemplos, afirma Caldeira Neto, está no uso das tochas e na formação militar feita pelo grupo durante uma marcha com destino ao Supremo, na semana passada.

“Além dos diversos indícios da historicidade pregressa dela (Sara Winter) com grupos neofascistas, essa marcha reproduz uma estética muito comum da extrema direita. A imagem das tochas ficou muito impregnada no imaginário social na associação com a KKK (Ku-Klux-Klan, grupo racista que perseguia e assassinava negros nos EUA), mas também estava presente nas manifestações em Charlottesville”, diz ele, que também estuda neonazismo e fascismo.

Em agosto de 2017, a cidade localizada do estado de Virgínia foi palco de diversas passaeatas de pessoas brancas carregando tochas, algumas delas com capuzes brancos, em clara referência à Ku-Klux-Klan. Na ocasião, os atos eram contra a retirada de uma estátua da guerra civil que consideram um símbolo branco e contaram com a presença de David Duke, ex-líder do grupo racista.

Grupo reunido com tochas e máscaras na marcha em direção ao STF, em Brasília. (Foto: Reprodução/Instagram)
Grupo reunido com tochas e máscaras na marcha em direção ao STF, em Brasília. (Foto: Reprodução/Instagram)

O uso das tochas como um dos símbolos abarca diferentes significados, na visão do historiador. “Vemos que essa simbologia da chama, das tochas simboliza quem detém o conhecimento do fogo e que por isso seriam os mais evoluídos. Pode representar também uma purificação nacional ou serviria para afugentar os inimigos. Essa simbologia complexa é um dos componente dessa extrema-direita global”, elenca Caldeira Neto.

Nas redes sociais, o 300 do Brasil se define como “o maior acampamento pelo fim da corrupção e esquerda no Brasil” ou “parte do exército que vai exterminar a esquerda e a corrupção”, sem reivindicar explicitamente bandeiras neofascistas, neonazistas ou supremacistas.

No entanto, a pregação de medidas radicais faz com que indivíduos simpatizantes do neofascismo ou neonazismo se junte às fileiras do movimento. “Esses indivíduos tendem a se aproximar de parcelas mais radicaios da direita e enxergam no Bolsonaro uma bandeira em comum para defender. Seja por seu ultrareacionarismo, por suas falas homofóbicas ou preconceituosas. Eles enxergam a possibilidade de interlocução, a possibilidade de defender esse processo bolsonarista nesse momento de radicalização”, argumenta Caldeira Neto.

BRASIL IMPÉRIO E REFERÊNCIAS MONARCAS

Outra simbologia constante nos atos bolsonaristas são as referências ao período do Brasil Império e idolatria às figuras monarquistas.

Bandeira do Brasil Império ao lado de um estandarte atual da República brasileira. (Foto: Alexandre de Almeida/Arquivo Pessoal)
Bandeira do Brasil Império ao lado de um estandarte atual da República brasileira. (Foto: Alexandre de Almeida/Arquivo Pessoal)

“Essa bandeira monarquista é a forma de idolatrar um outro Brasil, um dos mitos de retorno ao passado. Representa um passado idealizado, onde supostamente havia um modelo de sociedade que funcionava. São fórmulas claramente reproduzidas por outros grupos de extrema-direita na Europa”, explica Alexandre de Almeida, mestre em Antropologia e doutor em História pela USP (Universidade de São Paulo).

Segundo ele, entre os ídolos monarcas cultuados atualmente pelas extremas-direitas europeias estão o rei Vitor Emanuel II, na Itália; o duque Carlos Martel, na França; e o nobre Rodrigo Díaz de Vivar, conhecido como ‘El Cid’ na Espanha.

No Brasil, parte dessa veneração recai sobre a figura do imperador Dom Pedro II. Exemplo disso são postagens como a do instrutor de segurança Alex Silva - da bandeira ucraniana no protesto da Avenida Paulista -, na qual elenca no Facebook os feitos e marcos sócio-econômicos da sociedade no Brasil-Império.

Ou mesmo a reivindicação de Sara Winter, na mesma rede social, de que a Proclamação da República em 15 de Novembro de 1889 foi “golpe”. Na foto, ela posa com uma camisa estampada com o emblema imperial.

“Os monarquistas têm uma visão que a época sob o comando Dom Pedro II foi de grande prosperiedade. De fato, naquele momento o Brasil tinha uma força naval poderosa e outras caraterísticas que lhe conferiam o status de ‘potência’. Mas havia muita desigualdade, corrupção. Tinha escravidão. Não há essa sociedade idealizada e igualitária que pintam”, explica Alexandre de Almeida, coordenador do GT (Grupo de Trabalho) História das Direitas, pela ANPUH (Associação Nacional de História).

SÍMBOLOS TEMPLÁRIOS E CRUZADAS

Mais anterior ainda do que o período imperial, a admiração da extrema-direita chegou recentemente à Idade Média europeia e às Cruzadas Templárias.

Na avaliação de Paulo Pachá, professor de História Medieval no Instituto de História da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), a idolatria da extrema-direita aos movimentos militares cristão da época pode ser explicada pela criação de uma versão imaginada da Idade Média européia como “branca, patriarcal e cristã”.

Em linhas gerais, o historiador afirma que esses grupos praticam um revisionismo reacionário ao ligar intimamente a história brasileira ao “passado medieval imaginariamente puro de Portugal”, dando a entender que existe uma continuidade histórica que molda os brasileiros brancos como herdeiros da Europa.

“Portanto, afirmar as ligações identitárias do Brasil com a Idade Média européia é também afirmar um conjunto de projetos políticos conservadores antigos e muito específicos. (...) Examinando quão importante é a idéia de uma Idade Média européia pura e branca para a extrema direita brasileira, podemos vislumbrar os princípios fundamentais que guiarão este governo e o movimento social mais amplo que lhe dá força”, explica Pachá, em um artigo escrito para a revista Pacific Standard.

Essa inspiração pode ser vista na presença randômica de frases e termos em latim nas postagens do assessor especial presidencial para assuntos internacionais, Filipe Martins. No Twitter, Martins se apropriou do lema “Deus vult” – traduzido em “Deus deseja” em latim -, um grito de guerra medieval associado à Primeira Cruzada.

Mais explícito que mensagens em latim, o economista e militante bolsonarista Paulo Kogos tem aparecido fantasiado de cavaleiro templário nas manifestações recentes na Avenida Paulista. Em abril deste ano, Kogos - que se auto-intitula anarcocapitalista, ultra-reacionário e católico apostólico romano - segurou na alça do caixão do "enterro político" do governador João Dória (PSDB). Dias depois, postou um vídeo pedindo desculpas.

“No caso da simbologia templária, que tem aparecido bastante, acredito que há um impacto muito grande da cultura nerd. Ultimamente, tenho apostado minhas fichas que parte dessa inspiração vem da série de Netflix (Knightfall) e tem causado um impacto muito grande”, afirma Alexandre de Almeida. Para o historiador, há também um culto ao heroísmo, lealdade e despredimento de “entregar a vida em nome da causa e da religião”, como fizeram os cavaleiros templários na época.

METAPOLÍTICA E O ‘ETERNO 3º TURNO’

Na visão de Alexandre de Almeida, todas essas inspirações e apropriações de símbolos encontram explicação no conceito da metapolítica, consistindo na construção de visões alternativas de mundo e de narrativa para que tenham consequências nas estâncias eleitorais.

“É um fundamento da antropolítica e é anterior à política eleitoral. Tem finalidade de ganhar corações e mentes das pessoas ao convencê-las de narrativas, de que o comunismo avança e ameaça o Brasil, de que os grupos e movimentos progressistas como feminista e negro querem dividir o país e etc. É uma campanha eleitoral constante, todo dia exercendo um terceiro turno com manifestações, interpretações e simbologias. É uma política que não é feita somente nas proximidades das eleições, é uma política do dia a dia”, finaliza.

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