Enfrentar Brasil em 1970 ajudou peruano a jogar no Barça de Cruyff

ALEX SABINO E BRUNO RODRIGUES
Folhapress

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A lembrança mais valiosa que Hugo Sotil, 74, tem da sua carreira no futebol não é da Copa de 1970, mas só se tornou possível por causa dela. Em um canto no seu guarda-roupa está um par de chuteiras. Foi presente do holandês Johan Cruyff. "É uma das poucas coisas que guardo de quando joguei", ele afirma.

Ao lado do zagueiro Hector Chumpitaz e do também atacante Teofilo Cubillas, Sotil se tornou um dos nomes mais famosos do que ficou conhecida como a geração de ouro do Peru. A classificação para o Mundial aconteceu graças a um empate histórico na Bombonera, em Buenos Aires, que eliminou a Argentina.

A seleção obteve o sétimo lugar no México, a melhor campanha de sua história. Cinco anos depois, Sotil fez o gol do título da Copa América, a última vencida pela equipe.

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A campanha na Copa do Mundo despertou o interesse dos europeus. Três anos depois dela, Sotil foi contratado pelo Barcelona, onde virou companheiro de Cruyff. Juntos, venceram o Campeonato Espanhol de 1974 e encerraram um jejum de 14 anos da equipe no torneio.

Um dos cartões de visita do futebol do país aconteceu em 14 de junho daquele ano, quando a seleção enfrentou o Brasil nas quartas de final da Copa. Os peruanos repetiram o mesmo que fizeram todos os adversários da equipe comandada por Zagallo naquele Mundial.

Em algum momento da partida, chegaram a acreditar ser possível não perder, mas sucumbiram, por 4 a 2.

Sotil foi titular contra Marrocos (vitória por 3 a 0) e Alemanha (derrota por 3 a 1) na segunda e terceira rodadas da fase de grupos. Na estreia, ele entrou durante o segundo tempo no 3 a 2 contra a Bulgária.

O técnico brasileiro Didi o considerava indisciplinado taticamente, e por isso o deixou no banco de reservas novamente nas quartas de final. O atacante foi um dos substitutos depois do intervalo. Ocupou o lugar do meia Julio Baylon quando o Brasil vencia por 3 a 1. "Pouco depois da minha entrada, Cubillas marcou, e aquilo me deu esperança. Achei que era possível chegar ao empate e que tudo poderia mudar. Naquele momento, a partida estava equilibrada. O problema foi que Jairzinho marcou outro para o Brasil. Ficou muito difícil", recorda Sotil à Folha.

O gol de Cubillas aconteceu aos 25 minutos do segundo tempo. O otimismo peruano durou até os 30, quando o artilheiro brasileiro fechou o placar. Antes disso, Rivellino e Tostão (duas vezes) haviam feito para o Brasil, e Gallardo, para o país que disputava a Copa pela segunda vez.

Na primeira, em 1930, a equipe entrou como convidada e perdeu os dois jogos.

"Fizemos tudo o que podíamos contra o Brasil, mas aquela equipe era um fenômeno. A lembrança que eu tenho do jogo é de ataque o tempo todo, em um ritmo muito forte. A bola saiu pouco de campo. Creio que Brasil e Peru eram as equipes mais técnicas daquele Mundial", diz o atacante.

Para Sotil, o time de 1970 foi o melhor que o Peru já teve. Ele acredita inclusive que poderia ter chegado mais longe. "Se não tivéssemos enfrentado o Brasil, iríamos mais longe ainda. Era a única seleção melhor que a nossa. Se não houvesse o Brasil, quem sabe poderíamos ter sido campeões?"

Mas havia. Quando Carlos Alberto Torres levantou a taça no estádio Azteca, após goleada por 4 a 1 sobre a Itália, Sotil já tinha voltado ao Deportivo Municipal, time que o revelou.

O atacante não aparenta ter ficado com uma sensação amarga pela derrota. Diz não haver nada que ele ou seus companheiros pudessem fazer em campo para mudar o resultado. Pelo contrário, até se considera sortudo. "Eu fui profissionalizado em 1968, jogando na segunda divisão do Peru. Dois anos depois, entrei em campo e enfrentei Pelé."

Ele não se queixa nem do tratamento injusto que considera ter recebido no Barcelona e que o fez voltar ao futebol peruano em 1977. Apesar de ter feito parte de uma equipe histórica na Catalunha, Sotil começou a ser deixado de lado no elenco meses depois do título espanhol, quando o técnico holandês Rinus Michels pediu a contratação do compatriota Johan Neeskens para a vaga que era dele. Michels foi o técnico de Neeskens e Cruyff na seleção holandesa, vice da Copa de 1974.

A partida em Guadalajara foi uma das 63 em que Sotil atuou pela seleção. Ele também esteve no Mundial de 1978.

"Não posso reclamar de nada. Tive uma carreira boa. Joguei contra Pelé e ao lado de Cruyff. Não poderia pedir muito mais do que isso. Aquela seleção brasileira de 1970 foi a melhor da história das Copas e foi um privilégio estar em campo naquele dia", finaliza o ex-jogador peruano.

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