Emicida e outras personalidades negras ganham grafite em restauração de escola pública

Alma Preta
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Na escola Ruy de Mello Junqueira, na zona leste de São Paulo, a diretoria ouviu opiniões de alunos e professores para escolher quem seriam as personalidades homenageadas no processo de restauração do local. Foto: E.E Ruy de Mello Junqueira
Na escola Ruy de Mello Junqueira, na zona leste de São Paulo, a diretoria ouviu opiniões de alunos e professores para escolher quem seriam as personalidades homenageadas no processo de restauração do local. Foto: E.E Ruy de Mello Junqueira

Texto: Roberta Camargo Edição: Nataly Simões

Emicida, Nelson Mandela, Carolina de Jesus e diversas outras personalidades importantes na construção da história negra ao redor do mundo ganharam ilustrações nas salas de aula da escola estadual Ruy de Mello Junqueira, localizada na Cidade Tiradentes, periferia da zona leste de São Paulo.

A diretora da escola, Rosângela Simões, conta que o apoio do governo para a restauração da escola veio no momento certo, criando um ambiente inspirador para os alunos na volta às aulas presenciais. A ideia do projeto de grafite nas salas de aula existia há alguns anos e começou nos muros da parte externa do prédio, também com mensagens de incentivo a inspiração para quem chega para estudar ou trabalhar.

"Nós já tínhamos a ideia de fazer os grafites, mas faltava verba disponível. Conseguimos encaixar no dinheiro para a restauração", explica a diretora. As ideias sobre quem estaria nas paredes veio do diálogo virtual feito com professores e alunos que compõem o grêmio estudantil. 

E.E Ruy de Mello Junqueira
E.E Ruy de Mello Junqueira

A foto com o grafite do rapper Emicida teve grande repercussão nas redes sociais depois que a filha da professora compartilhou a imagem. "Nós já vimos tudo ao vivo, porque tivemos atividades envolvendo os professores na escola, mas quando os alunos chegarem, vai ser ainda mais legal. A gente espera que eles gostem e se sintam motivados nessa volta às aulas", diz Cristiane Campos, professora de matemática.

"Eu acredito que é importante ter um nome que os estudantes conhecem bem e que inspira, como o do Emicida, e também histórias de pessoas que eles vão se sentir provocados para conhecer mais, como é o caso da cientista Jaqueline Goes de Jesus", conta Rosângela. 

A professora Cristiane, que dá aula para os alunos do Ensino Médio, avalia que o ambiente pode estimular a curiosidade dos alunos, além de ser uma forma de os inspirar e os incentivar a aprender cada vez mais.

E.E Ruy de Mello Junqueira
E.E Ruy de Mello Junqueira

Segundo a diretora responsável pelo projeto de grafite, quase 90% dos alunos da escola são negros. "É importante que eles se vejam e entendam que podem chegar em outros espaços", destaca Rosângela. Para ela, ter rostos e imagens de pessoas que são importantes para os alunos também pode influenciar na preservação do espaço escolar: "Eu acredito que a degradação da escola também vai diminuir e isso é muito bom para todos", complementa.

Projeto Grafite nas Escolas

As paredes das salas de aula foram grafitadas pelo autor do projeto Grafite nas Escolas, Waldir Grisolia Jr, grafiteiro há 20 anos. Os painéis feitos em 18 salas de aula contam com nomes como Mahatma Gandhi, Frida Kahlo, Maria Carolina de Jesus e Grande Otelo. A arte que ilustra Emicida, segundo o grafiteiro, serviu como uma forma de divulgar a iniciativa: "A gente viu que chegou até o Emicida, o pessoal tem comentado bastante e isso é muito bom para seguir com o projeto", considera o artista.

Essa é a terceira escola que abre as portas para o projeto, criado em outubro de 2020. A iniciativa tem entre seus principais objetivos levar a arte para dentro da periferia. "Além das atividades nas escolas, nós estamos trabalhando na construção do Beco do Huck, com uma galeria de arte a céu aberto", explica o grafiteiro.

E.E Ruy de Mello Junqueira
E.E Ruy de Mello Junqueira

Diante do período pandêmico, situação ainda mais complexa para quem vive nas periferias, os grafites homenageiam também outros nomes de quem está na linha de frente no combate à Covid-19 no Brasil e no mundo. A ponte entre o trabalho de Walmir e da diretoria da escola aconteceu depois de um trabalho feito pelo grafiteiro ir parar nos muros do Hospital das Clínicas, um dos mais importantes de São Paulo e do país.