Em silêncio, Nilson tenta se reencontrar no ascendente São Bento

<em>Famoso pelo gol perdido na final da Copa do Brasil pelo Santos, atacante comemora acesso à Série B no clube em que se destacou. Mas joga pouco, não marca gols e não fala. (Crédito: Jesus Vicente/Repórter Autônomo)</em>
Famoso pelo gol perdido na final da Copa do Brasil pelo Santos, atacante comemora acesso à Série B no clube em que se destacou. Mas joga pouco, não marca gols e não fala. (Crédito: Jesus Vicente/Repórter Autônomo)

Por Fernando Cesarotti (@cesarotti)

O lance está cravado na memória de todo santista e palmeirense. São 48 minutos do segundo tempo do primeiro jogo da final da Copa do Brasil de 2015, o Santos vence por 1 a 0 e só não aumentou a vantagem porque Fernando Prass pegou muito. Neto Berola puxa um contra-ataque e a bola chega em Ricardo Oliveira, que supera Vitor Hugo, divide com o goleiro alviverde e perde a passada. Na sobra, o troncudo Nilson toma a frente do camisa 9 e, de frente para o gol vazio, chuta para fora. A bola passa a centímetros da trave direta, belisca a lateral da rede e o juiz apita o fim da partida.

O fim da história todos sabem: o Palmeiras venceu o jogo de volta por 2 a 1, a decisão por pênaltis por 4 a 3 e ficou com o título. O Santos perdeu não apenas a Copa do Brasil mas o embalo no Brasileiro e acabou de fora da Libertadores de 2016. Nilson ainda ficaria no banco de reservas no jogo de volta, mas nunca mais entraria em campo com a camisa alvinegra, marcado como um dos responsáveis pela perda do título.

Quase dois anos depois, Nilson ainda tenta reencontrar a paz e o rumo da carreira no mesmo clube que o levou a ter uma oportunidade no Santos: o São Bento de Sorocaba, clube do interior paulista, que acaba de conseguir o acesso à Série B do Brasileiro, neste fim de semana, ao superar o Confiança-SE no mata-mata. Mas, se o time está em alta, num dos grandes momentos em seus 104 anos de história, Nilson está quieto. E permanece como coadjuvante num ataque liderado por desconhecidos como Caio Cesar, Everaldo e Anderson Cavalo.

No jogo do acesso, o atacante passou o tempo todo no banco de reservas, sem ser acionado pelo técnico Paulo Roberto Souza. Em toda a campanha da Série C até agora, antes de o clube disputar as semifinais, participou de apenas cinco das 20 partidas. Foi titular apenas uma vez, na vitória por 2 a 0 sobre o Botafogo, em Ribeirão Preto, num jogo em que o time acumulava lesões e suspensões de seus atacantes – mas saiu aos 21 minutos do segundo tempo. Em outras quatro ocasiões, saiu do banco, somando exatos 65 minutos em campo. Seu lance mais lembrado foi no empate por 0 a 0 com o Ypiranga, em Erechim (RS), quando apareceu livre na cara do goleiro, já nos minutos finais, aproveitando uma bobeada dos zagueiros, mas… perdeu o gol. Chutou fraco, o goleiro Carlão defendeu e, no contra-ataque, o Ypiranga quase marcou.

Não foi um gol perdido tão trágico já que, mesmo assim, o time se classificou para os mata-matas e conseguiu o acesso, mas aumentou o peso sobre Nilson. O atacante treina como se fosse mais um, quase não joga e se recusa a dar entrevistas – “não se sente confortável para falar com a imprensa”, disse a assessora do clube à reportagem.

Nilson já tem rodagem nos campos. Começou nas categorias de base da Portuguesa, profissionalizou-se no Vasco e de lá foi emprestado para vários clubes, sem brilhar. Seus melhores momentos foram no Paraná, em 2012, com 3 gols em 14 jogos pela Série B; e no Icasa, em 2014, 4 gols em 9 partidas, também na Série B. Mesmo em 2015, em sua primeira passagem no São Bento, Nilson fez apenas dois gols, em 10 jogos pelo Paulistão. Foi a boa atuação na Vila Belmiro, num empate por 2 a 2, que chamou a atenção do Peixe e lhe rendeu a grande oportunidade da vida, numa indicação feita pelo ex-centroavante Serginho Chulapa.

Chegou falando bonito. “Sou um jogador que segura bem a bola e faz o pivô. Sou finalizador. Bom de cabeça, de perna direita, de perna esquerda, gosto de brigar com os zagueiros para abrir espaço para os jogadores de beirada”, definiu-se, sem modéstia, na coletiva de apresentação. Em campo, foram 16 partidas, pelo Brasileirão e Copa do Brasil. Nilson acumulou parcos 546 minutos em campo, e só começou três vezes como titular. Na goleada por 5 a 2 sobre o Avaí, marcou seu único gol com o manto santista. No fatídico jogo contra o Palmeiras, havia acabado de entrar no lugar de Thiago Maia, e deu apenas um toque na bola – o chute para fora.

Em 2016, Nilson teve sua primeira passagem pelo exterior, defendendo o Ventforet Kofu, no Japão, porém, de novo, foram poucas chances: apenas nove partidas, um gol. De volta ao Brasil, defendeu o América-MG no Brasileirão, outra vez sem destaque: apenas três partidas, nenhum gol. No começo deste ano, o Novorizontino foi sua primeira tentativa de porto seguro e a estreia foi promissora: entrou aos 30 minutos do segundo tempo e cinco minutos depois marcou o gol da vitória por 3 a 2 sobre o São Bernardo. Mas foi apenas uma nova ilusão: caiu de produção, disputou apenas mais seis partidas e viu, do banco de reservas, os dois jogos das quartas de final contra o Palmeiras, derrotas por 3 a 1 e 3 a 0.

Depois de três meses parado, Nilson acertou a volta ao São Bento já no meio da campanha da Série C. Foi apresentado sem pompa, sem mesmo dar entrevistas ao site oficial do clube. Falou apenas o vice-presidente do clube, Marcio Rogerio Dias. “Não estamos trazendo o jogador que perdeu um gol numa final, mas sim homem, um atleta digno, pai de família que foi execrado e terá aqui a oportunidade de um novo começo, uma chance de aparecer novamente para o cenário nacional”, disse à época o dirigente. Os números mostram que Nilson, até agora, não aproveitou as chances. Segue calado, mesmo após o acesso do São Bento: um andarilho da bola que já não consegue falar nem com palavras e nem com gols.

<em>Nilson, jogador do Santos FC, durante partida contra o Figueirense, válida pela trigésima segunda rodada do Campeonato Brasileiro 2015.</em>
Nilson, jogador do Santos FC, durante partida contra o Figueirense, válida pela trigésima segunda rodada do Campeonato Brasileiro 2015.
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