Em meio ao caos e à baixa expectativa, Rio de Janeiro ‘arruma a casa’ para os Jogos Olímpicos

Faltam 100 dias para a cerimônia de abertura da Olimpíada do Rio de Janeiro, a primeira a acontecer na América do Sul. O que deveria ser motivo de orgulho para os brasileiros acabou se transformando em dor de cabeça: as obras não estão prontas, o orçamento estourou e o legado olímpico está em xeque. Todo o cenário verde e amarelo pintado em 2009, quando o país conquistou o direito de sediar os Jogos, anda bastante apagado.

Eduardo Paes (PMDB) é a principal face política de todo o projeto, mas está envolvido em gravações da Operação Lava Jato com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O Governador Luiz Fernando Pezão (PMDB) participou pouco da evolução das obras olímpicas e não deverá focar nisso pelos próximos meses, pois está em tratamento contra um raro tipo de câncer que atinge o tecido ósseo. Faltando pouco para a chegada de milhares de atletas ao Rio, como a cidade se prepara para o megaevento?

Transporte segue em construção

Aquela que era para ser uma das maiores heranças da Olimpíada se tornou tragédia na quinta-feira (21). A ciclovia Tim Maia, na Avenida Niemeyer, em São Conrado, foi derrubada pela ressaca do mar, deixando dois mortos e escandalizando a imprensa ao redor do mundo. A obra estava entre as principais esperanças da capital fluminense para tirar o atraso de décadas na modernização do sistema de transporte.

A ideia dos Governos Estadual e Municipal é mudar a vida cotidiana dos cariocas, mas, pelo menos no que diz respeito ao transporte público, o cenário está longe do ritmo pacato do bondinho do Pão de Açúcar, um dos cartões postais da cidade. Congestionamentos infernais até mesmo fora das horas de pico, trens e metrôs lotados e ônibus não menos cheios andando muito acima da velocidade permitida fazem parte de um panorama caótico que testa, diariamente, a paciência de quem precisa se deslocar dentro da Cidade Maravilhosa.

O BRT (Bus Rapid Train, em inglês, ou Transporte Rápido por Ônibus) é uma das apostas como legado para a cidade. Durante os Jogos, esse será o meio de transporte exclusivo para chegar ao Parque Olímpico, localizado na Barra da Tijuca, na zona oeste carioca. A Prefeitura investiu quase R$ 10 bilhões para a criação do sistema nas ruas, que engloba o VLT (Veículo Rápido sobre Trilhos) e melhorias no Elevado Joá. Por outro lado, o Governo do Estado assumiu os R$ 9,2 bilhões da construção — inacabada — do metrô da Linha 4, que ligará pontos turísticos de Copacabana e Ipanema à estrutura olímpica na Barra. As autoridades pretendem ampliar para 63% da população o acesso ao transporte público, contra os 18% de sete anos atrás, além de reduzir o fluxo de carros e ônibus.

O metrô é um caso à parte. Apesar de o Governo Estadual assegurar que a obra está dentro do prazo, a urgência em levantar R$ 500 milhões para sua conclusão coloca em risco a inauguração do trecho até agosto, mês dos Jogos. No total, os subordinados de Pezão precisam financiar mais R$ 989 milhões, quase metade para evitar a paralisação da construção. Em fevereiro, o jornal O Globo publicou um e-mail do prefeito do Rio, Eduardo Paes, em que ele demonstrava sua preocupação com o andamento das obras do metrô. Na correspondência encaminhada ao Comitê Olímpico Internacional (COI), Paes sugeria que fosse analisado um plano alternativo de transporte.

Crises econômica e política tiram o foco da Olimpíada

Todos os holofotes apontam neste momento para Brasília, enquanto os últimos retoques para a preparação dos primeiros Jogos Olímpicos na América do Sul são acompanhados com indiferença. O terremoto político que sacode o país deixa em segundo plano as preocupações com os atrasos nas obras olímpicas, com a ameaça do Zika vírus ou com a contaminação da Baía da Guanabara, onde será realizada a competição de vela.

Na verdade, o que grande parte dos brasileiros se pergunta agora é se será a impopular presidente Dilma Rousseff, à beira do impeachment, ou o ‘conspirador’ vice-presidente, Michel Temer, que irá declarar, no Maracanã, a abertura dos Jogos Olímpicos no dia 5 de agosto a milhões de telespectadores do mundo todo.

No dia 2 de outubro de 2009, em Copenhagen, na Dinamarca, quando o Rio foi escolhido sede olímpica, os delegados do COI não podiam imaginar que, sete anos depois, a jovem democracia brasileira atravessaria sua pior crise política desde o fim da ditadura civil-militar em 1985 e a mais profunda recessão econômica desde a década de 1930. O Brasil emergente, beneficiado pelo boom das matérias-primas, apresentava um expressivo crescimento econômico durante o segundo Governo de Lula, enquanto as grandes potências industriais eram atingidas em plena crise financeira.

Dois anos após a Copa do Mundo de 2014, as Olimpíadas do Rio deveriam ser a apoteose do Brasil como protagonista mundial. "Não vão se arrepender!", disse aos delegados do COI o então presidente Lula, encarnação da "história de sucesso" do maior país da América Latina.

O ex-mandatário do Brasil agora é suspeito em casos de corrupção, e sua herdeira política, Dilma Rousseff, corre o risco de sofrer um impeachment pelas conhecidas ‘pedaladas fiscais’.

Em meados de maio, os senadores provavelmente votarão a favor do impedimento da presidente, o que a afastaria pelo período máximo de seis meses antes de seu julgamento político. Não se sabe se o processo terminará antes ou depois dos Jogos. Dilma denunciou energicamente o que considera um ‘golpe de Estado’ institucional, enquanto seus opositores criticam que ela propague, no exterior, uma imagem do Brasil como ‘república das bananas’. Nesse contexto explosivo, o COI se esforça para manter o otimismo. "Esses Jogos Olímpicos serão uma mensagem de esperança em tempos difíceis", disse, na quinta-feira (21), o presidente Thomas Bach, antes de o fogo olímpico ser aceso na Grécia.

11 operários mortos em sete anos de obras

Onze operários morreram em obras de instalações olímpicas e de legado dos Jogos do Rio-2016 desde 2013, confirmou Robson Leite, Superintendente regional do Trabalho e Emprego do Rio de Janeiro. "É um número que assusta", comentou, lembrando que oito trabalhadores foram vitimados nas obras da Copa do Mundo de 2014.

O número de mortos consta em um relatório divulgado nesta segunda-feira (25) pela Superintendência Regional do Trabalho e Emprego, que fiscalizou as obras na cidade. De acordo com Leite, o maior número de acidentes fatais ocorreu nas obras de extensão da Linha 4 do metrô, que custou a vida a três operários. Outros dois trabalhadores morreram na construção do Parque Olímpico e mais duas pessoas faleceram em obras de museus que fazem parte do legado olímpico, o Museu da Imagem e do Som, em Copacabana, e o Museu do Amanhã, no centro do Rio. Outras mortes ocorreram durante obras de transporte, como a Transolímpica, a ampliação do Elevado do Joá e o sistema ferroviário da Supervia. "É um time de futebol de mortos. Isso tudo causado por falta de planejamento, sem dúvida. É a correria na hora de concluir", lamentou Elaine Castilho, auditora fiscal que coordena a fiscalização, ao apresentar o relatório.

Baía de Guanabara ainda é a grande incógnita

98% das obras olímpicas estão concluídas. As arenas recebem os eventos-teste finais, e um ajuste fino acontece a cada vez que um atleta utiliza as instalações. No entanto, na semana passada, quando César Cielo buscava o índice para se classificar para as Olimpíadas, a energia elétrica do Parque Aquático caiu por mais de 30 minutos, e o ar-condicionado não funcionou da forma correta, como atestou Bruno Fratus, classificado para o Rio-2016.

O Velódromo é um grande ponto de preocupação – o local teria de estar pronto no final de 2015, o que não aconteceu. O evento-teste de inauguração foi cancelado, e o Comitê Internacional marcou um período de treinos entre 25 e 27 de junho para testar a qualidade da pista e simular uma competição. A montagem da raia está em execução, o sistema de refrigeração funciona, mas não há um prazo para o final da construção.

As Arenas Cariocas 2 e 3 estão em fase final de instalação das cadeiras temporárias, mas não preocupam a Prefeitura ou o COI. O Centro Olímpico de Tênis passou para a Construtora Volume, que garante tudo pronto até o final de junho. As outras obras estão próximas da conclusão e passam apenas por adaptações das federações e do comitê organizador.

Porém, a questão da Baía de Guanabara parece não ter fim. A Federação Internacional de Vela ainda não decidiu se apoiará a escolha do local como sede das provas para a Rio-2016, mas quer evitar o máximo de contato dos atletas com a água. O Rio de Janeiro não conseguiu cumprir nem 5% da despoluição prevista e aposta no local mais pela beleza da Marina da Glória do que pelo cheiro ou pela segurança sanitária dos participantes.

O Brasil de 2009 não é o mesmo de 2016. A empolgação por receber os dois maiores eventos esportivos do mundo — Copa do Mundo e Jogos Olímpicos — praticamente não existe mais (vide que menos de 50% dos ingressos foram vendidos para as competições). Muitos brasileiros estão preocupados com o que acontece em Brasília e não na Cidade Maravilhosa, mas, será que as crises, confusões políticas e obras serão esquecidas até o – não tão – esperado 5 de agosto na cerimônia de abertura?

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