Em depoimento, sobrevivente contradiz Queiroz sobre tentativa de homicídio

Redação Notícias
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A polícia prendeu Queiroz em um sítio na cidade de Atibaia, interior de SP | Foto: Reprodução/SBT
A polícia prendeu Queiroz em um sítio na cidade de Atibaia, interior de SP | Foto: Reprodução/SBT

O confeiteiro Antônio Rabelo estava indo para um baile funk na comunidade da Cidade de Deus, no Rio de Janeiro, a convite de uma amiga. Porém, antes de chegar na festa, ele foi atingido por um disparo de arma de fogo. O ano era 2002 e, segundo o confeiteiro relatou ao UOL, ele e um grupo de amigos foram cercados por uma troca de tiros entre policiais e o que ele acreditava ser um grupo de traficantes.

Rabelo foi socorrido por amigos até o Hospital Lourenço Jorge, na zona oeste do Rio. Mais tarde foi transferido para o Hospital Miguel Couto, onde ficou internado por cerca de duas semanas. Os tiros pegaram em uma das pernas, joelho e no pé.

Apesar de sofrer com as sequelas das lesões até hoje, o desfecho da história do confeiteiro poderia ter sido pior. No mesmo dia, Gênesis Conceição da Silva foi morto baleado durante a mesma ação policial.

A principal linha de investigação da 32ª Delegacia de Polícia do Rio de Janeiro, que esta com o caso desde novembro de 2002, é que Fabrício Queiroz, ex-assessor do senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) e subtenente da reserva da PM do Rio, esteja envolvido na morte e na tentativa de homicídio sofrida por Antônio Rabelo em decorrência de uma ação policial. À época, o ex-assessor dos Bolsonaro atuava como sargento do 18º Batalhão.

“Falhas” na investigação

Acontece que há uma série de “falhas” no processo que investiga a morte e a tentativa de homicídio. Desde 2002, segundo reportagem do UOL, diferentes delegados pediram três vezes o arquivamento do inquérito sem tomar o depoimento do sobrevivente ao tiroteio.

No fim do ano passado, a promotora Denise Pieri Pitta, da 1ª Promotoria de Justiça de Investigação Penal-Núcleo Jacarepaguá e Madureira, exigiu o depoimento e outras providências. Para ela, segundo o jornal, há "circunstâncias anômalas" no procedimento.

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Nos documentos dos autos, a versão dos fatos que existe até hoje é essencialmente a contada por Queiroz. Depois do tiroteio, ele prestou depoimento e disse que "estava em patrulhamento de rotina com os demais policiais militares quando diversos elementos armados passaram a efetuar disparos contra a guarnição".

Queiroz afirmou que os policiais reagiram e os "meliantes" correram para o interior da comunidade e a perseguição continuou dentro da comunidade. Em certo ponto, ele encontrou um desses "elementos caído, baleado, portando a arma de fogo". Em seguida, segundo Queiroz, surgiu outro homem, também baleado em uma das pernas e dizendo ter sido atingido por um dos disparos dos criminosos.

Histórias diferentes

No entanto, a história contada por Rabelo ao UOL, sobrevivente do tiroteio, é bem diferente. "Foi a primeira vez que eu fui na Cidade de Deus, por conta do baile. Mas nem cheguei a ir no baile. Tava indo quando fui atingido", contou Rabelo.

"Começaram a dar tiro atrás da gente e começamos a correr. Só que fomos na direção onde estava um comboio de policiais. Eles estavam numa rua esperando quem passasse, entendeu? Nesse momento é que aconteceu tudo", disse. "Foi tipo uma emboscada que fizeram", completou.

Rabelo disse que viu um homem bastante ferido ser colocado dentro de uma viatura, mas não o conhecia. "Ele tava muito ensanguentado, mas estava vivo ainda. Botaram na viatura para levar no hospital. Não conheço", disse. "Não foi só eu e esse rapaz que foi atingido. Teve moradores que foram atingidos", contou.

O Ministério Público do Rio (MP-RJ) destacou, ao pedir o aprofundamento das investigações, que "algumas circunstâncias anômalas que ocorreram no decorrer das investigações". Um exemplo disso é que a primeira intimação para Rabello só ocorreu 10 anos após os fatos, ou seja, em 2012. Mesmo assim, ele ainda não foi ouvido.

Além disso, o pai de Gênesis da Silva, morto durante a ação, mesmo tendo reconhecido o corpo do filho em 2002, só foi ouvido 10 anos depois e outros dois policiais também prestaram depoimento 18 anos após o caso. Eles informaram não se recordar mais da ocorrência, mas alegaram que Gênesis era traficante — o homem não tinha nenhuma passagem pela polícia.

Visita polícial

Rabelo ainda afirmou que algum tempo depois do tiroteio recebeu em casa uma visita de um policial cujo nome não se recorda.

"Ele perguntou a dinâmica do que tinha acontecido, ele quis fazer com que eu tivesse certeza que não foram os PMs, entendeu? Falei que não vi de onde veio. Tinham pessoas que vinham atrás de mim correndo e pessoas que vinham dos lados também correndo e atrás dessas pessoas tinham PMs também e eu me encontrei com esse comboio de policiais", afirmou ao UOL. "Eu fiquei com medo, nem ação contra o estado eu movi. Carreguei essa sequela até hoje", contou.

Investigaões de Queiroz

Não é a primeira vez que Queiroz é investigado por homícidio da época em que fez carreira como policial militar. No ano passado, o promotor Cláudio Calo apontou uma série de falhas em um outro inquérito que apura a morte do estudante Anderson Rosa de Souza, de 29 anos. Em 2003, o então tenente Adriano Magalhães da Nóbrega, milicano morto em 2020, e Queiroz afirmaram que o caso foi um "homicídio proveniente de auto de resistência".

O MP-RJ, porém, verificou uma série de falhas na investigação que durante quase duas décadas: ausência de exame nos fuzis usados na operação, de perícia de resíduos nas mãos do cadáver e a falta de depoimentos de familiares da vítima, entre outros. As únicas providências tomadas foram três depoimentos de Queiroz e de Adriano. Agora, o MP quer a retomadas das investigações.

O caso agora está na Delegacia de Acervo Cartorário aguardando o cumprimento de ações.

Além disso, Queiroz ainda enfrentará ao longo de 2021 outras investigações criminais. O caso das "rachadinhas", que consistem na devolução ilegal de salários na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, e, em outubro do ano passado, ele foi denunciado ao Tribunal de Justiça fluminense junto com o filho mais velho do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) por organização criminosa, peculato e lavagem de dinheiro.