Em alta no Monaco, Jemerson fala de Neymar, seleção, Atlético-MG, futebol francês e da vida no Principado

Jorge Nicola
Zagueiro comemora um dos três gols com a camisa do atual campeão francês (Arquivo pessoal)

A transferência de Neymar ao PSG por R$ 838 milhões deve mudar o time da capital francesa de status no cenário do futebol e certamente garantirá muito mais visibilidade à Ligue 1, como é chamado o Campeonato Francês. Entre os brasileiros que fazem sucesso por lá, está o zagueiro Jemerson, atual campeão nacional pelo Monaco. Há um ano e meio no clube, o baiano de 24 anos falou com exclusividade ao Blog na última quinta-feira. No bate-papo de quase uma hora, ele admitiu que esperava ser convocado por Tite nesta semana, falou sobre os planos de seu time após as mudanças no elenco, encheu a bola de Mbappé, estrela de 18 anos, analisou a chegada de Neymar ao grande rival, lamentou o mau momento do Atlético-MG…

BLOG: O quanto a chegada do Neymar ao futebol francês na maior negociação da história muda o status do Campeonato Francês?
JEMERSON: A liga vai se valorizar demais. Certamente, vai ficar ainda mais em evidência. Todos os olhos do mundo estarão no nosso campeonato. E é o tipo da transferência que atrai outros grandes jogadores.

Por falar em grandes jogadores, o Mbappé está surgindo como um dos maiores astros do planeta. Ele é bom mesmo?
O menino é muito, muito bom. E novo de tudo (18 anos). O Mbappé tem muito a crescer e só depende dele continuar trabalhando para se manter no topo. O engraçado é que toda essa ascensão que ele conseguiu veio em poucos meses. O garoto havia chegado tímido ao time de cima, mas foi fazendo gol, grandes jogos…

Você foi convocado pelo Tite para os amistosos da seleção na Austrália, em junho. Ainda tem esperança de jogar a Copa do Mundo de 2018?

Com certeza. Todo mundo quer estar lá, né? Aliás, eu tinha esperança de estar nessa última convocação (para os jogos contra Equador e Colômbia) e até acompanhei. Não deu agora, mas quem sabe na próxima… preciso estar cada dia mais preparado no meu clube.

É o melhor momento da sua carreira?
Eu diria que é um dos melhores, pelo título do Campeonato Francês, nossa ida até a semifinal da Liga dos Campeões (foi eliminado pela Juventus). No Atlético-MG em 2015 eu também tive um desempenho muito bom, tanto que havia me feito chegar à seleção.

Quais as diferenças entre o futebol no Brasil e na França?
Aqui, a última linha, do zagueiro e dos laterais, é muito avançada, o que acaba encurtando o campo. Somente um ou outro time no Brasil faz isso. Na França também tem muito contato físico e ligação direta. Os atacantes são grandes e fortes, enquanto no Brasil eles são rápidos e habilidosos.

Você sofreu para se adaptar?
Cheguei na metade da temporada na Europa (em fevereiro de 2016), então joguei só cinco vezes nos quatro primeiros meses. Mas, na temporada seguinte (2016-2017), fui um dos que mais entrou em campo. Então, dá pra dizer que foi tranquilo.

O Monaco perdeu Mendy, Bakayoko, Bernardo Silva, Germain… O que esperar do time para essa temporada?
Foram perdas grandes, mas vieram jogadores com qualidade (Tielemans, Rony Lopes, Kongolo, Mboula, entre outros). O estilo de jogo do Monaco vai ser meio parecido, mas com jogadores de jeito diferente de jogar. Estamos trabalhando para conseguir se adaptar melhor aos novos companheiros.

Mas o Monaco vai ser capaz de brigar com o poderoso PSG do Neymar na França? Ou conseguirá repetir a campanha da Liga dos Campeões passada? 

Nós vamos brigar por todos os títulos que disputarmos, como na temporada passada… Primeiro, vamos pensar no Campeonato Francês, jogo a jogo, até porque a Liga dos Campeões ainda vai demorar um pouco mais para começar.

Vocês eliminaram Manchester City e Borussia Dortmund para chegar às semifinais da Liga dos Campeões. Qual sensação ficou ao cair para a Juventus, com duas derrotas?

A sensação pela campanha foi de um gosto bom, porque talvez tenhamos sido o primeiro time a sair da fase de repescagem e chegar até uma semifinal. Fomos muito longe e estivemos perto do título. Mas, ao mesmo tempo, teve um gosto amargo, porque dava para brigar pelo título.

Quais os três atacantes mais difíceis que você já marcou?
Vou tirar o Ibrahimovic da lista, porque só o enfrentei uma vez, embora ache ele ótimo. (Pensativo) Um é o Guerrero (do Flamengo), porque além de ser muito forte, é inteligente e técnico. Gosto muito do Lacazette (que foi comprado pelo Arsenal por 53 milhões de euros do Lyon) e do Cavani (do PSG). Eles dão bastante trabalho.

Você prefere marcar atacante baixinho e rápido ou grandalhão e mais parado?

Não tenho preferência, até porque vai muito do jogo, do momento. Às vezes, você se dá bem com o cara forte, às vezes com o cara rápido.

O Monaco vem de 13 vitórias seguidas no Campeonato Francês e enfrenta neste domingo, a partir das 12h, o Dijon, fora de casa. O que espera desse jogo?
Não deve ser muito diferente do jogo contra eles na temporada passada (houve empate em 1 a 1). Ou seja, o Dijon vai ficar fechado e esperar a gente ali atrás, para tentar fazer gol no contra-ataque. E a gente deve enfrentar muito calor.

Esquecendo um pouco o futebol: como é a vida em Monaco, um dos lugares mais falados do planeta?
É muito legal. Trata-se de um lugar bem calmo aqui, que só fica um pouco mais agitado no verão. Sou bem caseiro, mas costumo dar minhas voltinhas mesmo que a pé, apesar das subidas e descidas.

Dizem que alguns dos maiores famosos do mundo moram aí.
Também já ouvi isso, mas só cruzei com o Felipe Massa de famoso até hoje.

E o que já fez em Monaco? Esteve naquele cassino onde os carros de Fórmula 1 passam na frente enquanto ocorre a corrida?

Ainda não. Passo por ele todo dia, quando estou indo treinar. Aqui tudo é muito perto. Uma coisa que fiz com os outros jogadores brasileiros do time (Fabinho, Boschilia e Jorge) e que foi bem legal foi dar um passeio de iate.

A vida em Monaco é cara?
O aluguel é muito caro, mas a vida em si não é muito, não. Se você fizer a conversão, as coisas em geral têm quase o mesmo preço do Brasil. Eu e minha esposa (Débora) somos tranquilos e saímos mais para comer alguma pasta. Há vários restaurantes de cozinha italiana aqui.

Você citou os brasileiros. Eles são os mais próximos?
Com certeza. Nossa relação é bem legal e fazemos bastante coisa juntos, como almoçar, jantar… A gente torce bastante um pelo outro. O Boschilia, por exemplo, estava muito bem quando operou o ligamento cruzado do joelho. Está quase voltando. Já o Jorge jogou pouco nos primeiros meses, mas deve ser titular nesta temporada, enquanto o Fabinho tem muito moral.

Como é trabalhar com o Leonardo Jardim, mais da ótima escola de técnicos portugueses?
Facilita a comunicação, porque ele fala comigo bastante em português. O Jardim é um cara que troca muito o time. Raramente ele põe a mesma equipe para jogar em duas partidas seguidas. No começo, você demora um pouco para entender, mas depois vai conhecendo a ideia de jogo. O legal é que ele atua como um paizão para todos os jovens e nosso grupo tem bastante gente nova.

O que pensa da fase do Atlético-MG, que foi eliminado da Libertadores e corre risco de rebaixamento no Brasileirão?

É uma fase complicada, mesmo. Mas o time tem vários jogadores experientes, com qualidade, além de um treinador que é muito bom. Trabalhei com o Rogério Micale na base do próprio Atlético e tenho certeza de que,  se derem tempo, ele vai mostrar resultado.

Ainda acompanha as coisas do Galo?
Sim. Torço e torço muito. Posso dizer que, depois da minha passagem por lá, virei torcedor atleticano. E, como torcedor, digo que não vejo o Atlético correndo risco de rebaixamento, e sim brigando por vaga na Libertadores do ano que vem.