Eleições nos EUA: O que acontece se Trump não aceitar o resultado da votação?

Redação Notícias
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Republican presidential nominee Donald Trump gestures to supporters as he departs a campaign rally in Clive, Iowa, U.S., September 13, 2016.  REUTERS/Mike Segar
Republican presidential nominee Donald Trump gestures to supporters as he departs a campaign rally in Clive, Iowa, U.S., September 13, 2016. REUTERS/Mike Segar

Alguns especialistas preveem uma grande derrota eleitoral para o atual presidente dos Estados Unidos, mas Donald Trump provavelmente não sairá de cena sem fazer alarde.

Trump tem se recusado a comprometer-se com uma transição pacífica de poder, preparando um exército silencioso de advogados e agentes políticos para uma batalha pós-eleitoral.

Uma equipe bipartidária de agentes políticos formada por ex-funcionários do governo e militares, bem como constitucionalistas e especialistas jurídicos, reuniu-se discretamente em junho para pensar estratégias para lidar com os piores cenários das eleições dos EUA em 2020.

O grupo, que se autodenomina Transition Integrity Project (Projeto de Integridade de Transição, em português), fez um prognóstico sombrio da hipótese de Trump se recusar a entregar as chaves do Salão Oval.

No que foi descrito, em tom de piada, como uma versão de Dungeons and Dragons em Washington, a equipe de especialistas imaginou como a Casa Branca de Trump poderia usar braços do governo federal, como os correios, o Departamento de Justiça, agentes federais e militares para manter-se no poder.

Em um artigo de pesquisa, o grupo analisa como a equipe de Trump poderia minar, paralisar ou lançar dúvidas sobre o resultado da eleição.

"O presidente em exercício concorrendo à reeleição pode usar seus poderes com grande vantagem, principalmente se as normas tradicionais não forem consideradas importantes e ele estiver disposto a correr o risco de o tribunal decidir que, possivelmente, suas ações são ilegais", o grupo escreveu.

"O exercício identificou os seguintes poderes presidenciais como os mais prováveis de serem usados indevidamente para manipular resultados eleitorais ou dificultar a transição: o poder de federalizar a guarda nacional ou invocar a Lei de Insurreição para usar as forças armadas no próprio país; o poder de iniciar investigações sobre os oponentes; e o poder de usar o Departamento de Justiça e/ou as agências de inteligência para lançar dúvidas sobre os resultados eleitorais ou desacreditar seus oponentes."

Ato de rebeldia do presidente seria um 'caso perdido'

Mesmo superdimensionadas, as medidas observadas pelo grupo causariam agitação e segregação social, mas dificilmente influenciariam o resultado eleitoral.

Mas o problema, pelo menos em parte, é que o sistema é regido por normas e não costuma responder bem quando a pessoa que deveria ser seu principal defensor decide contrariá-las totalmente.

O professor Don Debats, coordenador de Estudos Americanos da Flinders University, acha que não vale a pena se preocupar com esse cenário.

"Acho que seria um caso perdido", disse o professor ao Yahoo Notícias da Austrália sobre a ideia de Trump tentar se manter no poder de qualquer forma.

"Seu mandato acaba no dia 20 de janeiro", sugerindo que não há nada a fazer após uma clara derrota nas eleições.

“A Casa Branca é pequena, e provavelmente não é grande o suficiente para hospedar dois presidentes."

Embora a equipe de Trump possa pressionar líderes republicanos em disputas acirradas a envolverem-se em manobras escusas como a repressão dos eleitores, no fim das contas, é o Congresso dos EUA que decidirá a votação no sistema de Colégio Eleitoral.

Uma disputa acirrada poderia ser contestada nos tribunais, o que provavelmente seria resolvido pelo Congresso até janeiro — tempo suficiente para o Congresso se reunir e eleger o novo presidente oficialmente.

Os militares poderiam se envolver?

À medida que as tensões foram aumentando nos últimos meses, um oficial militar dos EUA disse ao Congresso que as forças armadas não vão intervir no processo eleitoral ou na resolução de uma disputa.

"Acredito profundamente no princípio de um exército americano apolítico", disse o general Mark Milley, Chefe do Estado-Maior dos Estados Unidos, em resposta por escrito a várias perguntas feitas por dois membros democratas do Comitê de Serviços Armados do Senado.

"No caso de uma disputa sobre qualquer aspecto das eleições, os tribunais e o Congresso dos EUA são obrigados por lei a resolver as disputas, não os militares. Não vejo nenhuma função para as forças armadas nesse processo."

Questionado se os militares recusariam uma ordem do presidente se ele tentasse usar a ação militar para obter vantagens políticas em vez da segurança nacional, Milley disse: "não vou cumprir uma ordem ilegal".

Donald Trump pode enfrentar um massacre eleitoral

O veterano estrategista de campanha política dos EUA Joe Trippi acredita que Trump pode enfrentar uma retumbante derrota eleitoral em poucas semanas.

Enquanto muitos estão concentrados no resultado surpreendente de 2016 — e em outro possível engano nos resultados da pesquisa eleitoral —, Trippi acha que uma comparação mais plausível é a eleição de 1980, que viu o impopular presidente Jimmy Carter ser demitido do cargo em uma derrota esmagadora.

"Em 1980, tínhamos um presidente muito impopular", disse ele ao Planet America, da ABC, na quarta-feira, relembrando as altas taxas de desemprego e a crise de reféns constante no Irã.

"Se prestarmos atenção, a economia está ruim, estamos vivendo uma crise e todas as noites as redes de televisão relatam números mais altos (de casos de coronavírus)."

Na época, Trippi trabalhava para os democratas em exercício. "Dizíamos que Ronald Reagan estava muito velho, que era um louco de direita, que iria estragar tudo. No final, vendo sua participação nos debates, conforme se aproximava o dia das eleições, começamos a pensar: 'ele parece ser muito mais seguro do que o que estão dizendo'."

"No final, houve uma grande virada de Reagan."

"Eu vejo exatamente o mesmo cenário acontecendo nessa eleição (em favor do Biden), e não vejo nada que possa mudar isso."

Embora Biden seja uma figura muito conhecida na política dos Estados Unidos, seus números nas pesquisas parecem ter melhorado um pouco depois do desastroso primeiro debate presidencial.

Analogamente ao que aconteceu em 1980, os números de intenção de voto do atual presidente estão constantemente baixos, e Joe Biden lidera por cerca de 10 pontos percentuais nas pesquisas nacionais.

"Quando o resultado chega acima de 5%, é quase impossível perder o colégio eleitoral", observou Trippi.