Eleições 2020: resultado nas capitais opõe antiga direita à nova esquerda

Matheus Pichonelli
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Mayor candidate Guilherme Boulos speaks as his vice-mayor candidate Luiza Erundina, 85, participates from inside the "cata voto" (Vote Catcher), a car with a plastic booth to protect herself from the coronavirus disease (COVID-19) during the campaign in Sao Paulo, Brazil November 13, 2020. REUTERS/Amanda Perobelli
Guilherme Boulos e sua candidata a vice, Luiza Erundina, durante campanha em SP. Foto: Amanda Perobelli/Reuters

Eleito presidente em 2018, Jair Bolsonaro levou para Brasília uma nova linha divisória do que é direita e esquerda no Brasil. No extremo do braço destro, jogou à sua esquerda antigas forças conservadoras, de direita ou centro-direita. A ponto de o velho PFL, hoje DEM, parecer hoje um grupo de centro acadêmico perto do nacional-populismo do presidente, seus filhos e da chamada ala ideológica do governo.

Mas, para quem esperava que a chegada de Bolsonaro à Presidência seria um marco da nova força hegemônica no país, o resultado parcial das eleições municipais em 2020, ao menos nas capitais e grandes cidades, indica que a mola que estava comprimida e foi expandida até a extrema direita voltou à posição intermediária e deve ficar por lá até 2024.

Neste domingo (15), dia da República e da votação, a antiga direita, hoje chamada centro, erroneamente ou não (cada caso é um caso, como cada cidade é um mundo), saiu das urnas fortalecida.

Antiga referência da direita nacional até pouco tempo, o DEM elegeu ou chegou ao segundo turno em cidades estratégicas como Rio de Janeiro, Salvador, Curitiba, Florianópolis e também em São Paulo, onde é parte da coligação do tucano Bruno Covas.

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Já a esquerda, na berlinda desde 2013 e ainda sob o impacto do impeachment de Dilma Rousseff, da onda de outsiders avessos à política (leia-se antiesquerda) de 2016, da prisão (e posterior soltura) de sua maior liderança e da vitória da extrema direita em 2018, mostrou cara nova em 2020.

O PT, que em 2016 perdeu 60% de suas prefeituras, conquistadas no auge dos anos Lula, fez figuração na maioria das capitais. Apesar do esforço do ex-presidente, o desempenho de Jilmar Tatto na capital paulista será sempre lembrado como um marco ao partido que já governou a cidade três vezes e que sempre figurou entre os primeiros colocados na corrida.

Fossem outros tempos, quando Lula era conhecido pela capacidade de eleger postes, o ex-deputado e ex-secretário teria sorte melhor. Mas os tempos são outros.

Candidatos à esquerda, no entanto, saíram fortalecidos na campanha em São Paulo, Porto Alegre e Belém, onde Guilherme Boulos (PSOL), Manuela D'Ávila (PCdoB) e Edmilson Rodrigues (PSOL), respectivamente, abriram mãos de velhos clichês e revanchismos com campanhas tomada por cores, sorrisos, apelo à diversidade e enfrentamento do ódio e do preconceito representado pelo atual governo federal. De certa forma, mas com suas peculiaridades, o mesmo se pode dizer dos "finalistas" em Recife, os primos João Campos (PSB) e Marília Arraes (PT), dois rostos novos de uma velha oligarquia dividida em partidos historicamente fortes na região.

Em 2020, a estratégia de boa parte dos candidatos à esquerda lembrou a mobilização dos idealizadores da campanha "No", que encerrou em um plebiscito os anos Pinochet no Chile em 1988. O mote era que a alegria venceria o medo.

Por falar em plebiscito, o governo Bolsonaro entrou no divã ao longo da disputa, embora sua influência nas Câmaras de Vereadores e nos comandos das cidades menores ainda esteja para ser analisada. Nas capitais, ele se tornou uma das âncoras da campanha ao se associar a candidatos que o representavam, ao menos no campo das ideias.

Em suas lives, Bolsonaro pediu votos para prefeitos em São Paulo, Rio, Belo Horizonte, Recife, Fortaleza, Manaus e Santos. Ajudou pouco ou quase nada.

No caso da Delegada Patrícia, candidata na capital pernambucana, o anúncio de apoio foi um duplo tiro no pé. Com o apoio do presidente, a candidata ganhou mais visibilidade e virou alvo fácil dos adversários. Foi desconstruída em poucos dias quando o candidato Mendonça Filho (DEM) resgatou das catacumbas declarações preconceituosas da adversária, que chamou a cidade que queria governar de "Recifilis" --um "parque de horrores" onde disse nunca ter visto tanta gente feia. Pois foi nela que Bolsonaro apostou.

Desde então, ela despencou nas intenções de voto e acabou fazendo figuração na campanha.

Num universo de 5.570 municípios, há vitórias, derrotas e tendências para todos os gostos, conversas e discursos a serem analisados nas pequenas e grandes praças. Um erro comum das análises é associar o resultado do pleito municipal ao que pode acontecer dali a dois anos --como se a única disputa que de fato importasse fosse a nacional.

Não é bem assim. É no ambiente local que são tomadas as decisões que afetarão diretamente a vida dos eleitores. E, na hora de decidir o voto, experiência, sensibilidade e capacidade de escuta são levados mais em conta do que os tridentes e as chamas da guerra cultural que tem assolado as disputas presidenciais.

Em 2016, as disputas locais de fato foram influenciadas pela dinâmica nacional, marcada pela Lava Jato e o impeachment. Em 2020, a defesa explícita da força-tarefa já não é sinônimo de voto --vide o desempenho de Joice Hasselmann (PSL), que entre outras coisas prometia instituir a Lava Jato paulistana em sua gestão.

Na primeira eleição pós-Covid e na ressaca da onda que levou Bolsonaro até Brasília, o eleitor preferiu, em boa parte das capitais, a moderação à pirotecnia dos outsiders. Parte desses outsiders falou sozinha na campanha, marcada também pela derrocada do PSL, nanico que ganhou na loteria ao eleger o futuro presidente e não soube o que fazer da bolada a que tinha direito do fundo eleitoral.

Com raras exceções, os candidatos da antiga legenda de Bolsonaro, que rompeu com seus dirigentes há exato um ano, entraram na disputa apenas para passear. Casos de São Paulo, Rio e Recife. Traços de audiência, podem ser guardados na prateleira da insignificância após eleger, e perder por guerras intestinas, a maior bancada da Câmara.