Eleição nos EUA: Com Trump ou Biden, o que muda para a comunidade negra?

Alma Preta
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Em ano de forte tensão racial, campanha de 2020 mostra disruptura entre a política a as demandas da comunidade negra estadunidense
Em ano de forte tensão racial, campanha de 2020 mostra disruptura entre a política a as demandas da comunidade negra estadunidense

Texto: Juca Guimarães Edição: Nataly Simões

O atual presidente dos EUA, o republicano Donald Trump, 74 anos, tem um histórico de aproximação e incentivo mútuo com supremacistas brancos. O democrata Joe Biden, 77 anos, foi a favor do pacote de medidas que promoveu o encarceramento em massa e foi contra, no governo Clinton, propostas para a integração racial no transporte escolar.

Os dois candidatos na corrida eleitoral americana viveram suas adolescências na década de 1960, período de luta por direitos civis para os estadunidenses negros e das mortes de Malcom X (em 1965) e de Martin Luther King (em 1968).

Pela conduta na vida política e na vida privada dos dois candidatos nas décadas seguintes, a experiência de ter vivenciado momentos importantes para o fortalecimento da democracia não causou impacto.

“Na minha opinião, os dois são igualmente uma ameaça para a comunidade negra”, diz Jordan Fields, que nasceu em Nova Jersey, no estado de Nova Iorque, onde se graduou em História.

Atualmente, Fields mora em São Paulo, é ativista, rapper e professor no projeto Inglês na Quebrada, criado por ele. “Não acompanhei a campanha de perto desta vez, mas não confio neles e também na Kamala Harris [senadora e advogada negra vice na chapa de Biden]”, afirma.

Para Flávio Thales Ribeiro Francisco, professor de Relações Internacionais da UFABC (Universidade Federal do ABC), a reeleição de Trump representa uma perspectiva ruim para a comunidade negra nos próximos quatro anos.

“Não há possibilidade de mudança positiva para a população negra sob o governo do Donald Trump. O atual presidente foi responsável por uma grande mudança nas relações raciais, mas no sentido negativo, flertando com organizações supremacistas brancas”, destaca. “No momento em que o Black Lives Matter começou a liderar os protestos de ruas, ele tentou retratar a reação à morte de George Floyd como uma baderna de ‘antifas’, argumentando que as vozes das ruas não eram as vozes da maioria”, acrescenta.

Segundo o professor, o candidato democrata Biden, por sua vez, não é a resposta que a comunidade negra espera, principalmente em relação ao combate à violência policial.

“Biden, com excessão de ter sido o vice de um presidente negro, tem um currículo nada promissor quando se trata de relações raciais. Ele voltou contra a iniciativa de integração racial através do transporte escolar e, no governo Clinton, votou a favor de leis punitivistas que aprofundaram o encarceramento em massa”, lembra Francisco. “Há um projeto de lei nos EUA que discute o aumento de barganha dos sindicatos policiais, Biden tende a apoiar o ponto que dificulta a punição aos policiais e já manifestou contra o corte no financiamento dos policiais”, pondera.

Democratas x Republicanos

O acirramento da disputa entre Democratas e Republicanos nas últimas eleições, com vitórias apertadas e controversas, é um cenário distante daqueles em que a população afro-americana viveu períodos de conquistas. O professor Francisco recorda que as iniciativas políticas mais contundentes para a população negra foram feitas quando houve a hegemonia política de um partido.

De acordo com ele, na era da Reconstrução (1865-1877), os Republicanos, naquele momento o partido mais progressista, dominou politicamente e correntes mais radicais dentro do partido e procuraram integrar a população de ex-escravizados e constituir uma cidadania negra no país.

“Os democratas, posteriormente, com a negligência republicana, iniciaram um retrocesso e criaram códigos segregacionistas ao longo da década de 1880 que só seriam derrubados em 1960. Por outro lado, a hegemonia democrata a partir de 1930, num momento em que o partido começou a mudar a sua identidade política, acenou com leis e iniciativas integracionistas, obviamente em busca do voto negro, que cada vez mais ganhava peso nas eleições”, salienta o professor de Relações Internacionais.

Tensão

O cineasta e fotógrafo brasileiro Maílson Soares mora em Los Angeles, na Califórnia, há alguns anos. Nos últimos dias, ele relata que o clima de tensão nas ruas aumentou por causa da disputa eleitoral.

“Estão colocando tapumes nas portas dos comércios e se preparando para possíveis tumultos. O que acontece aqui tem impacto no mundo. O lado conservador ganhou força. Aqui ou você vota no Biden ou vota no Biden, é o jeito de tirar o Trump. O Obama entrou tarde na campanha e a gente percebe que os democratas não têm planos para a comunidade negra. Além disso, muitas pessoas negras foram presas, para o resto da vida, por delitos pequenos, relacionados a drogas ou flagrantes forjados por consequência das leis que o Biden apoiou”, descreve.

Soares avalia ainda que Trump é uma figura que inspira o racismo. “Outro dia fui filmar numa cidade a duas horas de Seattle, numa área mais no interior e sem a diversidade racial que tem em Los Angeles. No mercado tinha uma caminhonete com a bandeira do Trump e a dos confederados. Eles apoiam as ideias racistas dele abertamente”, relata. A bandeira dos confederados representa o exército que lutou na Guerra Civil americana pela manutenção da escravidão dos negros.