“Ele fez sinal de arma com a mão”, diz casal vítima de homofobia

Lucas Trindade ficou machucado e precisou tomar vacinas contra tétano. Foto: Arquivo Pessoal
Lucas Trindade ficou machucado e precisou tomar vacinas contra tétano. Foto: Arquivo Pessoal

“Ele chamou a gente de viado, veio falando que a gente estava de ‘safadeza’ na fila, que a gente estava desrespeitando as pessoas. Aí ele começou a fazer sinal de arma com a mão, falou que ia matar a gente”. É assim que o assessor de eventos Lucas Trindade, 24 anos, relata os momentos de tensão que viveu antes de ser agredido.

Era por volta de 6h30 do dia 12 de janeiro e Lucas estava juntamente com uma amiga e com o namorado Caio Costa Souza, 19 anos, esperando por um ônibus da linha 193 (Embu das Artes - Santa Teresa) em uma das plataformas da EMTU (Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos de São Paulo) ao lado do metrô Capão Redondo.

Role para baixo para continuar lendo
Anúncio

Eles voltavam de uma balada e conversavam sobre como tinha sido a festa. Porém, em determinado momento, Lucas deu um “selinho” no namorado. A cena revoltou um homem que estava no local e que foi identificado pela vítima como um vendedor ambulante do local.

Leia também:

“No momento que esse cara viu que a gente tinha dado o selinho, ele já começou com os xingamentos”, afirma o assessor de eventos. Depois de serem insultados, as vítimas e o agressor começaram uma discussão verbal e o suposto ambulante saiu de perto deles.

Jovem se machucou e precisou ir ao hospital. Foto: Arquivo Pessoal
Jovem se machucou e precisou ir ao hospital. Foto: Arquivo Pessoal

“Eu continuei conversando com o Caio. Achei que ele tinha ido embora, mas ele voltou com uma madeira cheia de pregos e veio andando. Os fiscais viram ele entrando com ela e ele deixou essa madeira onde o fiscal fica sentado”, relata Lucas. Depois de um tempo, o agressor voltou para perto do casal e continuou com os xingamentos.

“Então, ele veio para me dar uma madeirada. Foi quando ele acertou com os pregos e acabou pegando quatro pregos em mim. Então, a gente entrou em luta corporal com ele”, explica a vítima relatando que o casal teve um momento de reação.

Caio relata que o agressor “só foi batendo” e que tudo durou cerca de 20 minutos. “Depois, os fiscais separam a briga e tiraram ele. Mas eles ficaram do lado dele, perguntando se ele estava bem. Em momento nenhum alguém veio oferecer ajuda para a gente ou perguntar se meu namorado estava bem. Ele estava sangrando”, afirma.

Após as agressões, Caio diz que uma médica que também estava na fila do ônibus pediu para que eles fossem ao médico para checar se todas as vacinas de tétano de Lucas estavam em dia. A preocupação dela era por conta dos pregos enferrujados que rasgaram a pele do jovem.

Essa também era a maior preocupação de Lucas. “Meu pensamento na hora foi só o tétano. A gente saiu de lá, eu fui para minha casa pegar alguns documentos e fui direto para o hospital. Eu tive um pouco de febre e tive que tomar uma dose de antitetânica. Daqui 15 dias eu vou ter que tomar outra”, diz.

Jovens foram até a Polícia Civil para registrar a ocorrência. Foto: Arquivo Pessoal
Jovens foram até a Polícia Civil para registrar a ocorrência. Foto: Arquivo Pessoal

Agora, o casal tenta se recuperar do trauma. “Foi um choque de realidade que a gente tomou. A gente sabia que, a qualquer momento, a gente podia sofrer um ataque. Mas eu nunca pensei que seria por algo tão banal, tão besta. Eu acho que as feridas do corpo saram, mas as da mente não. A gente vai lembrar para sempre do que aconteceu. O que pesa mais é o psicológico”, afirma Lucas.

“Estou melhor fisicamente. Porém, estou psicologicamente abalado. A gente não espera que aconteça algo do tipo, por mais que a gente tenha em mente que pode acontecer em algum momento”, explica Caio.

O casal foi até a Polícia Civil nesta segunda-feira (13) para registrar uma ocorrência contra o agressor. O caso foi registrado como lesão corporal e preconceito de raça ou cor (de acordo com a resolução do Supremo Tribunal Federal, representações de homofobia podem ser enquadradas no crime de racismo).

Lucas diz que, agora, pretende ir “até o fim” com o caso. “Pretendo procurar meus direitos e os do Caio por tudo o que ele fez, pelas ameaças que ele fez e pela agressão. Eu vou atrás de tudo o que eu puder fazer para prender esse cara, para que ele não agrida mais outras pessoas”, afirma.

“Agora vamos procurar todos os nossos direitos para que a justiça seja feita. Uma pessoa assim não pode sair impune”, complementa Caio.

A reportagem entrou em contato com a Secretaria dos Transportes Metropolitanos do Estado de São Paulo para questionar sobre o treinamento dos fiscais que ficaram do lado do agressor e que não socorreram as vítimas e para perguntar por qual motivo um vendedor ambulante estava na área.

Além disso, também foi questionado por qual motivo não existiam seguranças treinados no local para fazer a proteção dos passageiros. Até o fechamento desta reportagem, a pasta não se posicionou.

Leia também