Efeito Rebeca faz explodir procura por ginásio onde atleta deu primeiros saltos

*** FOTO DE ARQUIVO *** GUARULHOS, SP, 14-12-2022: Último dia do ano de treinamento de ginastas no Ginásio Bonifácio Cardoso, em Guarulhos, onde a atleta Rebeca Andrade (medalha de ouro nas Olimpíadas e no Mundial de Ginástica Olímpica) começou a carreira. (Foto: Bruno Santos/Folhapress)
*** FOTO DE ARQUIVO *** GUARULHOS, SP, 14-12-2022: Último dia do ano de treinamento de ginastas no Ginásio Bonifácio Cardoso, em Guarulhos, onde a atleta Rebeca Andrade (medalha de ouro nas Olimpíadas e no Mundial de Ginástica Olímpica) começou a carreira. (Foto: Bruno Santos/Folhapress)

GUARULHOS, SP (FOLHAPRESS) - "Ela é forte." "Ela é estilosa." "Ela tem postura." "Ela mostrou que o preto é capaz." "Ela é sorridente." "Ela treina muito." "Ela é o máximo." "Ela é a melhor do mundo."

Aos oito e nove anos de idade, as mais novas alunas do projeto esportivo sediado no ginásio Bonifácio Cardoso, em Guarulhos (SP), deixam de lado a disciplina típica da ginástica artística quando o assunto é Rebeca Andrade.

O excesso de empolgação é compreensível, já que a melhor ginasta do mundo, de 23 anos, deu seus primeiros saltos naqueles mesmos trampolins do ginásio para mais tarde conquistar medalhas inéditas para o Brasil e se converter em ícone para as novas gerações.

Nascida em Guarulhos, na Grande São Paulo, numa família pobre e numerosa, Rebeca fez história nos Jogos Olímpicos de Tóquio, em 2021, ao tornar-se a primeira ginasta brasileira a obter uma medalha de ouro (no salto sobre a mesa). Ela também foi a primeira atleta do país a subir ao pódio na categoria individual geral, ficando com a prata.

"Desde então, o telefone do ginásio não parou de tocar nunca mais", conta a treinadora Mônica dos Anjos, 50, que iniciou a medalhista no esporte, e hoje assiste a um "efeito Rebeca" na alta procura pela ginástica artística no mesmo centro de treinamento onde a campeã mundial e ela própria começaram suas respectivas carreiras.

O reflexo da primeira grande vitória de Rebeca, ocorrida nas Olimpíadas em plena pandemia da Covid-19, pode ser visto também na estrutura do ginásio, que recebeu melhorias da prefeitura da cidade e um grande painel decorativo com desenhos da ginasta brasileira em ação.

Em novembro passado, quando a atleta conquistou outra marca histórica —a medalha de ouro no Mundial de ginástica artística na categoria individual geral—, o "efeito Rebeca" atingiu novo patamar.

"Foi uma explosão de demanda tão grande que mal pude comemorar a vitória dela. Não conseguia nem chorar nem gritar", lembra Mônica, que deu entrevistas em série e ajudou a criar um modelo de ingresso de novas atletas por meio de oficinas, não apenas de um teste pontual.

Se, antes, após divulgação dos testes nos canais da prefeitura, o ginásio recebia pouco menos de 200 candidatas, após as medalhas de Rebeca, mais de 300 bateram às portas do ginásio espontaneamente. "Hoje, temos lista de espera", conta Mônica.

Mascote entre as alunas ingressantes nessa onda, a pequena Lorena expressa esse espelhamento como motor dos novos talentos. "Meu nome não é Lorena. Meu nome é Rebeca!", diz ela, entre um mortal e um espacate.

Trata-se de um incentivo que também fez parte da história da campeã mundial atual. Rebeca chegou ao ginásio por meio de sua tia, Cida, que trabalhava na cozinha do Bonifácio Cardoso.

"Ela disse ter uma sobrinha que parecia levar jeito para ginástica artística e perguntou se eu topava testá-la", lembra Mônica. "Quando eu vi aquela menininha toda musculosa, meus olhos brilharam! Fiz com que ela pulasse no tablado e vi que tinha impulso. E pensei: meu Deus, caiu uma futura Daiane dos Santos aqui no ginásio!"

A própria Daiane passou alguns dias treinando no ginásio de Guarulhos nos dois anos em que Rebeca peregrinava ao local diariamente na garupa da bicicleta de um dos seus sete irmãos. Assistir aos treinos da atleta profissional de perto serviu como um incentivo a mais para a pequena aspirante.

"Eu entendo a importância desse papel de ser inspiração porque eu também me inspirei em alguém, na Daiane dos Santos", explica Rebeca à Folha.

"Procuro mostrar a realidade dos atletas de alto rendimento, que precisam de muita dedicação e abdicação, mas também podem conquistar muitas felicidades e alegrias. Gosto de mostrar tudo isso. Essa é a minha forma de inspirar. Tenho muito orgulho de tudo o que conquistei para poder ser um espelho para tantas crianças e adolescentes no esporte."

Para ela, o Bonifácio Cardoso foi a pedra fundamental dessa trajetória. "Ele foi a grande oportunidade da minha vida. Foi o início de tudo o que eu conquistei e foi onde os profissionais enxergaram o meu potencial", diz Rebeca, que conheceu seu técnico, Francisco Porath, no ginásio de Guarulhos.

"Tenho um orgulho enorme de ter começado lá e sou grata por de ter tido a oportunidade de integrar um projeto social que mudou a minha vida e o meu futuro", afirma a campeã mundial, que neste sábado (7), a partir das 15h30, volta a Guarulhos para uma apresentação e vivência de ginástica artística dentro da programação Sesc Verão 2023.

O ginásio Bonifácio Cardoso foi idealizado pela professora Rose Nogueira em 1979 como um espaço exclusivo para a ginástica artística. Foi construído pela Prefeitura de Guarulhos nos anos 1990 em terreno ao lado da casa de Mônica dos Anjos, que já treinava num local bem mais distante e, após contusões, direcionou a carreira para a área técnica e a arbitragem internacional do esporte.

Hoje, as ginastas que frequentam o espaço são divididas entre aquelas da equipe principal, hoje com nove atletas, e as da pré-equipe, que tem cerca de 32 crianças. As jovens da equipe treinam diariamente por um período de quatro horas. "Senão elas não chegam ao nível de que a gente precisa", explica Mônica. As crianças da pré-equipe treinam três vezes por semana por um período de três horas.

"Eu sou chata e coloco a família toda na linha", disse a técnica. "Tem que se organizar para cumprir com os compromissos ou sair", afirma ela, que interrompe a entrevista à reportagem de tempos em tempos para corrigir as pequenas atletas em imperfeições imperceptíveis aos olhos leigos.

Mônica conta que, a pequena Rebeca, aos cinco anos, era espoleta e um pouco distraída, mas já muito talentosa. "Ela já se imaginava no tablado porque, volta e meia, sumia do treino, e a encontrávamos fazendo coreografias num canto", diverte-se. "Hoje, as meninas que chegam aqui querem ser Rebeca."

No tablado do ginásio, entre barras paralelas, trampolins e traves de equilíbrio, com uma pequena arquibancada ao fundo, as candidatas a futuras Rebecas desfilam seu conhecimento sobre a heroína da ginástica artística.

"O aparelho preferido dela é o salto sobre a mesa, mas ela é melhor mesmo nas barras paralelas", explica, sabida, Sara Marinho, 9. "E o salto favorito dela é o rodante flic flic", emenda Estela Leal Camargo, 8.

Rodante flic flic? "Vou mostrar como é", diz a pequena Estela antes de caminhar solenemente para o tablado, sob o olhar atento das colegas.

O nome engraçadinho esconde uma desafiante sequência de uma estrela que termina com os dois pés juntos e emenda com dois mortais. Estela completa o salto e ergue os dois braços, arqueando o peito para a frente, sob o aplauso das colegas mirins. "Desde que eu vi a Rebeca nas Olimpíadas, meu sonho é ser atleta e ir para as Olimpíadas."

A medalhista olímpica deixa um recado para atletas que se inspiram nela. "Meu recado é: acredite em você. A gente começa no escuro, sem saber o que esperar, porque o esporte é muito difícil. Mas, com o tempo e a dedicação, você vai evoluindo e criando seus sonhos e objetivos. Acredite no processo e não duvide de você, independente do que os outros digam."