Efeito Jesus: o que esperar dos novos 'gringos' do futebol brasileiro?

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Eduardo Coudet deixou o Racing para assumir o Internacional (AP Photo/Eugenio Savio)
Eduardo Coudet deixou o Racing para assumir o Internacional (AP Photo/Eugenio Savio)

Por Rodrigo Coutinho (@RodrigoCout)

Na roleta de tendências que o futebol brasileiro dita a si mesmo de tempos em tempos, os primeiros dias de 2020 já nos deixa claro qual é a principal herança de 2019. O grande trabalho feito por Jorge Jesus e o desempenho bem acima da média nacional com o Flamengo deram o tom de algumas contratações de treinadores para esta temporada. Três novos “gringos” iniciam o ano em clubes da Série A. Na Série B, mais um. Mas será que cada uma dessas contratações representa o que deveria de fato? Ou é simplesmente uma aposta em alta no momento?

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O Yahoo Esportes propõe a reflexão. As diretorias de Santos, Atlético-MG, Internacional e Avaí compreenderam o que Jesualdo Ferreira, Rafael Dudamel, Eduardo Coudet e Augusto Inácio podem oferecer em termos de montagem da equipe, modelo de jogo e gestão de vestiário? Não se trata aqui de criticar o novo, o diferente, ou defender de forma ferrenha os técnicos brasileiros. O “efeito Jesus” pode ser extremamente benéfico para o futebol brasileiro, principalmente se soubermos entender os processos que levaram ao seu sucesso.

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Não! O Flamengo não planejou o sucesso estrondoso que teve em 2019. O maior mérito do Mais Querido foi a ação contundente no mercado. Recheando o elenco de grandes e decisivos jogadores para o nível sul-americano. Ganhou a tão sonhada Libertadores, o Brasileirão, e orgulhou a sua imensa torcida na final do Mundial contra o Liverpool. A questão é que a vinda de Jorge Jesus foi muito mais uma oportunidade de mercado do que necessariamente algo pensado pela diretoria. Rodolfo Landim, Marcos Braz e companhia, ao trazerem o Mister, não pensaram exatamente na intensidade, no volume ofensivo e na ótima movimentação que o time ganhou. As coisas se encaixaram com o grande trabalho feito pela comissão técnica.

Entender a dinâmica do parágrafo anterior ajuda a saber o porquê mais quatro clubes brasileiros foram atrás outros de nomes estrangeiros para comandar suas equipes. Cabe ressaltar que, com exceção de Augusto Inácio, os outros três têm ótimos trabalhos relativamente recentes e podem sim fazer um bom trabalho no Brasil. A questão é: o dirigente que curte o “Galo Doido” sabe que o estilo de Rafael Dudamel na Venezuela prezava muito mais o jogo de contra-ataque e uma defesa sólida? O cartola colorado está preparado para ver seu time se dividir em “dois blocos” nos momentos de pressão na saída rival que Coudet curte adotar? Ou o santista que se acostumou com a alta intensidade da equipe de Sampaoli vai entender um time que não acelera tanto as jogadas com Jesualdo?

As perguntas acima podem ser respondidas com o simples “ganhou tá bom”. Mas este espaço quer mais do que isso. Entender os processos de formação de uma equipe de futebol, as características propostas por um treinador, pode responder muitas perguntas que surgem após as derrotas. E elas virão! Como o 3x0 do Bahia sobre o Flamengo no início do trabalho de Jesus ou as goleadas sofridas pelo Santos para equipes pequenas com Sampaoli no Paulistão. Vamos mergulhar então nas características dos últimos trabalhos dos quatro treinadores “gringos”:

Santos – Jesualdo Ferreira

Perfil de Jesualdo Ferreira (Rodrigo Coutinho)
Perfil de Jesualdo Ferreira (Rodrigo Coutinho)

O estilo ofensivo que marca o DNA de futebol santista tem tudo para ser mantido com Jesualdo Ferreira no comando. Há, porém, diferenças importantes entre as equipes que ele costuma montar e a que Sampaoli produziu no Peixe em 2019. A começar pelo ritmo. Os últimos trabalhos do experiente técnico português não tiveram a mesma intensidade com e sem a bola da última versão santista. A prioridade foi por uma construção de jogadas mais pausada, privilegiando a coordenação nos movimentos entre as peças, principalmente a flutuação dos pontas para o centro e a ocupação dos corredores pelos laterais.

Observações sobre equipes de Jesualdo Ferreira (Rodrigo Coutinho)
Observações sobre equipes de Jesualdo Ferreira (Rodrigo Coutinho)

A principal semelhança entre as equipes de Sampaoli e Jesualdo, além da aproximação das peças para trocar passes curtos, é a postura muito vertical em contra-ataques. O português geralmente monta equipes letais e organizadas nas transições ofensivas. Por mais que esta não seja a característica central de seus times, há preocupação em acelerar ataques após a retomada da bola. Defensivamente a ideia é marcar por encaixes no setor, com perseguições bem curtas, sem descaracterizar o posicionamento do time. Ao perder a bola, Jesualdo pede pressão imediata para sufocar o adversário, mas tem visto suas equipes oscilarem muito em intensidade.

Observações sobre equipes de Jesualdo Ferreira (Rodrigo Coutinho)
Observações sobre equipes de Jesualdo Ferreira (Rodrigo Coutinho)

Muitos jogadores já externaram a importância de Jesualdo em suas respectivas carreiras. Ao longo das décadas comandou processos importantes de estudo do jogo e formação de treinadores em Portugal. Sua preocupação sempre foi aliar a parte teórica com a parte física. São 41 anos como técnico, 73 de idade, e recentemente era comentarista de TV em Portugal. Vai tentar retomar a melhor versão de suas equipes, algo que não acontece há cerca de dez anos em alto nível.

Atlético/MG – Rafael Dudamel

Perfil de Rafael Dudamel (Rodrigo Coutinho)
Perfil de Rafael Dudamel (Rodrigo Coutinho)

A melhor fase recente do Atlético Mineiro teve uma equipe intensa, agressiva e direta para atacar. A expressão “Galo Doido”, consagrada com históricas campanhas na Libertadores e na Copa do Brasil, está marcada na trajetória do clube, mas é inegável que foi nociva na interpretação de alguns bons trabalhos que passaram recentemente pelo clube. Se o time não atacasse naquele ritmo das equipes de Cuca e Levir Culpi, para muita gente da torcida, diretoria e imprensa mineira, não servia. É bom então começar a entender o que Rafael Dudamel pode trazer.

Observações sobre equipes de Rafael Dudamel (Rodrigo Coutinho)
Observações sobre equipes de Rafael Dudamel (Rodrigo Coutinho)

O venezuelano é técnico há nove anos, antes foi goleiro de destaque em seu país, e a amostragem de seu trabalho de campo não é tão extensa assim. É preciso considerar a realidade do futebol da Venezuela. Tido sempre como o mais frágil da América do Sul, começou a conquistar espaços importantes. E o principal responsável por isso é Dudamel. Se não conseguiu levar a ‘Vinotinto’ a uma Copa do Mundo, construiu uma identidade de futebol jamais vista no país. Elevou a autoestima de atletas que sofriam com a crise política e financeira local, auxiliou na evolução técnica e tática de vários, e o principal: conseguiu um histórico vice-campeonato mundial com o selecionado sub-20.

Observações sobre equipes de Rafael Dudamel (Rodrigo Coutinho)
Observações sobre equipes de Rafael Dudamel (Rodrigo Coutinho)

Suas ideias de jogo foram muito baseadas em “futebol reativo” nesta década. Novamente precisamos lembrar o nível técnico do futebol venezuelano em comparação ao restante do continente. À medida que atletas mais qualificados foram surgindo, Dudamel soltou mais a equipe, mas a base sólida sempre esteve sedimentada em contra-ataques rápidos, times compactos e diretos quando tinham a bola desde a defesa. Esperar um Galo insano, partindo pra cima dos rivais com muitos jogadores inicialmente, me parece desconexo com aquilo que o venezuelano mostrou.

Internacional – Eduardo Coudet

Perfil de Eduardo Coudet (Rodrigo Coutinho)
Perfil de Eduardo Coudet (Rodrigo Coutinho)

Intensidade deveria ser o sobrenome de Eduardo Coudet. O novo técnico do Internacional tem essa característica desde a época em que foi um bom meio-campista de passagem relevante por Rosario Central (seu clube de coração) e River Plate. Os casos de sua “loucura’’ e a forma visceral com que lida com as coisas são muitos e o torcedor colorado perceberá rapidamente ao observar o comportamento do “Chacho” a beira do gramado. Assim como outros de sua geração, tem Marcelo Bielsa como referência inicial a beira do campo, o que explica muita coisa de seus trabalhos.

Observações sobre equipes de Eduardo Coudet (Rodrigo Coutinho)
Observações sobre equipes de Eduardo Coudet (Rodrigo Coutinho)

Coudet também não tem tantos anos como treinador. Mas mostrou seu potencial em dois dos três clubes que teve a oportunidade de dirigir até aqui. Recuperou a imagem do seu time de coração e levou os “Leprosos’’ a terceira colocação na Liga Argentina, além das quartas de final da Libertadores de 2016 jogando um grande futebol. Já no Racing, seu último time, foi campeão nacional em 2018/2019, consolidando ainda mais suas ideias de futebol e seu estilo de comando.

Observações sobre equipes de Eduardo Coudet (Rodrigo Coutinho)
Observações sobre equipes de Eduardo Coudet (Rodrigo Coutinho)

Já no futebol mexicano, acabou fracassando no Tijuana. Outro detalhe importante a ser frisado é a queda de rendimento, tanto de Racing quanto de Rosario Central, após a equipe alcançar o ápice de desempenho e conquistar os objetivos. Geralmente faz suas equipes jogarem de forma muito ofensiva, com pelo menos sete jogadores envolvidos em fase ofensiva. Pede velocidade nas ações e dá liberdade aos laterais, bem como aos meias e atacantes para muitas trocas de posição. Precisa trabalhar de forma mais eficaz suas equipes nas transições defensivas. Não é raro levar gols de contra-ataques rivais.

Avaí – Augusto Inácio

Das vindas de técnicos estrangeiros para o Brasil nos últimos anos, esta é uma das mais surpreendentes. Augusto Inácio assume o Avaí, que novamente passou somente um ano na Série A do Brasileirão, e dentro daquilo que mostrou nas últimas equipes que dirigiu, costumar montar times que gostam de ficar mais com a bola do que acontecendo com o Leão nos últimos dois anos. Aos 64 anos, completou três décadas como treinador em 2019. Seu auge foi vivido na temporada 1999/2000, quando foi campeão português com o Sporting. A equipe tinha nomes como o goleiro dinamarquês Peter Schmeichel e o atacante búlgaro Iordanov. O brasileiro César Prates era outro importante nome do plantel na época.

O segundo título mais relevante de Augusto Inácio aconteceu na segunda divisão portuguesa, em 2005/2006, com o Beira-Mar. Não será a primeira experiência fora de Portugal. Treinou o Al Ahli do Catar em 2004, o Ionikos da Grécia em 2006, o Foolad do Irã em 2007, o Interclube de Angola em 2008/2009, o Vaslui da Romênia em 2011, e o Zamalek do Egito entre 2016 e 2018. Conseguiu ser campeão de uma Supertaça de Angola em 2008. Recentemente em Portugal se notabilizou por pegar trabalhos no meio da temporada e fazer ajustes pontuais para evitar rebaixamentos ou colocações melhores com times medianos na tabela de classificação.

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