Filho de imigrantes, Yudi ‘corta’ coxinha e busca medalha no judô em Tóquio

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Eduardo Yudi durante o Grand Slam de Kazan, na Rússia, em maio de 2021 (REUTERS/Alexey Nasyrov)
Eduardo Yudi durante o Grand Slam de Kazan, na Rússia, em maio de 2021 (REUTERS/Alexey Nasyrov)

A imigração japonesa completou 113 anos no Brasil. Período compreendido desde que o navio Kasato Maru partiu de Kobe, na terra do sol, para desembarcar no porto de Santos com 781 passageiros., cumprindo exaustivos 52 dias de viagem. A data é forte lembrança e remete ao povo que vai sediar a Olimpíada de Tóquio, na qual o Brasil terá delegação composta por 13 competidores no judô. 

Um destes atletas, que é candidato à medalha, assimilou hábitos brasileiros e não tem mais sotaque de onde veio. No entanto, ainda se enrola ao pronunciar as letras R e L. Descreve, porém, ter abandonado a coxinha de frango e vai de alimentação saudável focado em feito inédito. Sempre fortalecido pelo tradicional prato de arroz e feijão.

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A descrição é de Eduardo Yudi Brito Santos, de 26 anos. O atleta do Clube Pinheiros, da capital paulista, que também é terceiro-sargento do exército dentro do PAAR (Programa de atletas de alto rendimento), compete na categoria meio-médio (até 81 kg). Nasceu em Shimotsuma-shi, cidade situada na província de Ibaraki (82 km de Tóquio).

Yudi prática o esporte individual que mais deu medalhas ao Brasil em jogos (22 no total, sendo quatro de ouro, três pratas e 15 bronzes). Ele integra o grupo verde-amarelo distribuído entre sete homens e seis mulheres. Sendo Yudi um dos que carimbou seu passaporte para terras orientais graças à sua qualificação no ranking. 

Além dele, há destaques no masculino como o sul-mato-grossense Rafael Silva, o Baby (categoria acima dos 100 kg com duas conquistas olímpicas - Londres 2012 e Rio 2016). E no feminino, a brasiliense Ketleyn Quadros, de 33 anos, bronze em Pequim (2008) na categoria até 57 kg. Foi a primeira mulher a ganhar medalha em esporte individual do país. Todos encaram os combates que acontecem entre 24 e 31 de julho.

Com conquistas em torneios pan-americanos, mundiais e também em jogos militares, Yudi é aposta frente aos favoritos: os donos da casa. É estreante em Jogos Olímpicos. Apesar do gosto pela culinária nacional, abandonou hábitos que poderiam prejudicar a saúde, por exemplo, comer salgados gordurosos. Beber refrigerante muito pouco. A alimentação regrada e o olho no sucesso da competição requerem três premissas básicas: cabeça, técnica e físico. “Quando estes quesitos estiverem bem, a pessoa vai poder dar o seu melhor na competição”, afirma. 

Sem citar algum ídolo específico, mentor ou leitura de livro motivador, Yudi sustenta o valor do pensamento positivo. “É muito importante para se fortalecer e vencer”, diz Santos. Apesar da segurança, faz questão de delegar sua sabedoria e continuidade na modalidade marcial por ensinamento de técnico do colégio no Japão, pessoa que considerou como segundo pai e incentivador na caminhada dentro deste esporte.

Como ninguém é de ferro, apesar de Yudi conceder entrevista entre a volta do Campeonato Mundial em Budapeste (Hungria) e treinos puxados três vezes ao dia, ele tira um tempinho para relaxar e ouvir a música de preferência, a balada sertaneja de Luan Santana. Ultimamente tem dado menos importância ao futebol, esporte que praticou na infância antes de vestir o quimono no Japão e se dedicar no tatame. É corintiano, mas diz não ser fanático. O primordial na sua agenda agora é fazer planos com a noiva e futura esposa, a também judoca do Clube Pinheiros, Yanka Pascoalino. Dentro de perspectivas de futuro, fala ainda em voltar aos estudos, mas nada é certo.

Talento tipo-importação

Yudi tentou ser jogador de futebol, mesmo depois de ter iniciado pelo judô. Não tinha esta vocação, mas seu talento foi descoberto no Japão pela Associação Marcos Mercadante de Judô, entidade de Araras (interior paulista), através da participação dele em competição de 2013. Poderia representar os japoneses nas disputas, havia, porém um empecilho burocrático para servir o Japão, devido ao critério limitante para dupla cidadania antes de 20 anos. Veio então para o Brasil e se deu bem. Já em 2014, bateu o campeão mundial júnior, Rafael Macedo. A vitória se deu por waza-ari, golpe de imobilização por 15 segundos ou oponente cai com metade das costas e vale 100 pontos na disputa.

Com desempenho positivo em Jogos de Tailin (Estônia) e Glasgow (Escócia), realizados após a Olimpíada do Rio de Janeiro em 2016, foi avançando. Só que ótimo desempenho ao competir não era tudo. Havia a dificuldade para como se manter em solo brasileiro. Yuri lembra ter sido bancado pelo pai Jeremias. Em São Paulo, “ralou” e participou de seletivas com vitórias até chegar com esforço ao Pinheiros. Clube que o apoiou e ainda ofereceu-lhe estrutura para encarar novos desafios. Aliás, os pais Jeremias e Leila partiram em busca de melhores oportunidades de trabalho e retornaram ao Japão. Foram para casa de sua avó (hoje falecida) como dekasseguis (trabalhadores estrangeiros residentes no exterior). O judoca ainda tem duas irmãs vivendo no Brasil (Gabrielle e Thuanny). Mesmo assim, bateu a saudade dos queridos. Talvez outro de seu objetivo além da medalha seja trazê-los de volta ao Brasil. Enquanto isto busca alternativas para suprir a grande falta. Além deste problema, outro recente e grave foi ser testado positivo para Covid-19 durante competição no início do ano. Yudi fala em entrevista da doença, família e detalhes de golpes do judô.

Yahoo Esportes: Como foi sua classificação para Tóquio?

Yudi Santos: Deu-se pelo ranking internacional (fui o melhor do Brasil e estive entre 18 melhores do mundo).

Antes de você ser observado pela Associação Marcos o que te permitiu vir para o Brasil disputar o judô, você praticou futebol? Lembra-se da idade e como foi esta fase da vida?

Como muitos brasileiros, eu também tinha sonho de ser jogador de futebol com 10 anos. No início praticava o judô e futebol. Porém, o meu técnico me obrigou a escolher um. Pratiquei futebol durante três anos, aí percebi que ia melhor no judô e decidi voltar e estou até agora.

Você imagina um momento especial estar no Japão, terra sagrada onde nasceu? E sobre o Brasil fale de sua consideração sobre a Pátria que o acolheu?

Sou muito grato pelos dois países, mas irei defender com muita honra o Brasil.

Há possibilidade de brigar por medalha na primeira participação em Olimpíada?

Sim, brigar e dá pra ganhar. A chance é igual para todo mundo e tenho certeza que vou chegar bem treinado. Mais que todo mundo na categoria.

Sobre o episódio ruim com a Covid-19, como foi após ser testado positivo?

Eu peguei a Covid-19 em um treinamento internacional. Fiquei de quarentena no exterior por 15 dias. Graças a Deus meus sintomas não foram graves. Fiquei só um pouco mal. Não consegui participar de dois torneios importantes (o atleta foi testado positivo no hotel antes de torneio de Antalya {Turquia}, em março - sendo que 15 dos 19 atletas que tiveram contato com Yudi deixaram de competir também, conforme os protocolos das autoridades locais).

Falando em alimentação, você comia muita coxinha e tomava guaraná em excesso? Segue regras alimentares?

Agora sigo, pois tinha dificuldades ainda em me controlar. Mas melhorei muito.

Uma curiosidade à parte, qual dos golpes no judô você se identifica?

O meu preferido é Ouchi Gari - golpe mais usado em disputas esportivas no qual se segura pela gola e a manga o oponente usando para derrubá-lo movimento de varredura com ângulo na perna.

Como você faz para diminuir a falta que seus pais representam?

Bate saudade deles, porém eu os encontro todos os anos. Falo com eles diariamente. Então não está sendo sacrifício. Enquanto for atleta, não pretendo voltar para o Japão.

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