Covid em alta e Pazuello em baixa: Brasil enfrenta aumento nas mortes com ministro desacreditado

Lucas Tomazelli
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Foto: AP Photo/Eraldo Peres
Foto: AP Photo/Eraldo Peres

“Para que essa ansiedade e angústia?”. Esse foi a fala de Eduardo Pazuello, ministro da Saúde, que mais reverberou entre tantas durante a apresentação do plano nacional de imunização contra a Covid-19 no Brasil. Mesmo sem dar detalhes específicos sobre a estratégia do governo de Jair Bolsonaro (sem partido), o general disse que não é preciso se preocupar com questões como “logística", dada a experiência do país na área.

Pazuello é o terceiro ministro da Saúde da gestão Bolsonaro. Ele assumiu o cargo depois das demissões de Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich, ambos médicos, quando o país contabilizava 15 mil mortos pela Covid-19, na metade de maio. Sete meses depois, o Brasil se aproxima dos 184 mil óbitos e parece começar a viver uma nova escalada nas mortes causadas pelo vírus [registrou acima de 900 diárias nos últimos dois dias].

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Sem conseguir conter os estragos imediatos da Covid-19, a pasta chefiada por Pazuello parece despreparada para resolver a situação também à longo prazo. Entre as principais queixas, estão a demora para divulgar o plano de vacinas, a falta de clareza sobre a negociação pelos imunizantes e até o atraso na compra de insumos (seringas, frascos, entre outros) necessários para uma vacinação em massa.

Avaliação em baixa

No início da semana, uma pesquisa Datafolha mostrou que 52% dos brasileiros isentam Bolsonaro pelas mortes causadas pela Covid-19 no país. Contudo, o mesmo levantamento deixa claro que a avaliação do Ministério da Saúde despencou no decorrer da crise sanitária.

35% consideram o desempenho da pasta como “ótimo/bom”, índice que chegou a ser de 76% em 3 de abril, quando o Ministério era comandado por Luiz Henrique Mandetta, que acabou demitido após discordâncias com as posturas negacionistas de Bolsonaro.

Nesta quarta-feira (16), Rodrigo Maia (DEM-RJ), presidente da Câmara dos Deputados, classificou a atuação de Pazuello como um “desastre".

“Acho que o ministro da Saúde é um desastre. Vai ser um desastre para o país primeiro e para o governo. Acho que a sociedade já começou a entender, e a área médica principalmente. Num momento de uma pandemia, um Ministério da Saúde do jeito que está, quem vai pagar a conta primeiro é a sociedade. É mais importante do que o governo pagar a conta", avaliou o deputado em conversa com jornalistas na capital federal.

Até logística decepcionou

Logo após anunciar o general como ministro, Bolsonaro recebeu críticas por optar por um nome fora da saúde durante a crise sanitária mundial mais grave dos últimos 100 anos. A defesa de Pazuello, no entanto, era calcada por sua vasta experiência em logística, área na qual atuava no Exército.

Ainda assim, no final de novembro, o jornal “O Estado de S. Paulo", revelou que mais de sete milhões de testes do tipo RT-PCR para detecção do novo coronavírus estavam “encalhados” e próximos de sua validade em um galpão do governo federal em Guarulhos (SP). O Brasil é criticado mundialmente por ser um país com baixa testagem.

Nesta semana, o jornal “Folha de S. Paulo” revelou que o Ministério da Economia enviou à Saúde, em julho, um pedido para que se manifestasse sobre o interesse na importação de seringas vindas da China. A pasta chefiada por Pazuello não havia respondido a solicitação até o último dia 15. Sabe-se, que o governo apostará em uma compra escalonada de insumos que pode durar até o final de 2021.

A gestão Pazuello sofre pressão por não conseguir informar com clareza uma data para o início da imunização no país. Países como Inglaterra, Estados Unidos e Canadá já iniciaram a imunização de forma emergencial. Nesta semana, México, Chile e Equador apresentaram planos otimistas para vacinar suas populações, fato que aumenta a desconfiança sobre o plano do governo Bolsonaro, que segue adotando “meados de fevereiro” como meta.

Falas polêmicas e festa em plena pandemia

Além de questionar a “ansiedade” por uma data inicial de vacinação, Pazuello recentemente afirmou que o governo federal compraria as vacinas se houvesse “demanda", fala que gerou indignação ao redor do país, tendo em vista o número de casos e mortes registrados pelo vírus no Brasil.

No último final de semana, já cobrado pela demora em divulgar o plano nacional de imunização, Pazuello foi flagrado em uma festa na casa de Ibaneis Rocha (MDB), governador do Distrito Federal, cantando ao lado do sertanejo Zezé di Camargo.

Em outubro, após ser publicamente desautorizado por Bolsonaro em polêmica envolvendo o imunizante Coronovac, Pazuello (que estava infectado com a Covid-19 e recebeu o presidente sem usar máscara) apareceu ao lado do chefe atestando: “é simples assim: um manda e o outro obedece”.