Ataques à China e EUA: com muita saliva e pouca pólvora, Brasil se mete em briga de pitbull

Matheus Pichonelli
·3 minuto de leitura
ELDORADO, BRAZIL - SEPTEMBER 03: Eduardo Bolsonaro, Federal Deputy speaks during the presentation of a bridge development project over the Ribeira de Iguape river on September 3, 2020 in Eldorado, Brazil. Eldorado is a city in the countryside of the state of Sao Paulo where Jair Bolsonaro was raised. The bridge will provide access from the Boa Esperanca neighborhood to the Quilombo de Sao Pedro. (Photo by Miguel Schincariol/Getty Images)
O deputado federal Eduardo Bolsonaro. Foto: Miguel Schincariol/Getty Images

Quem quiser conferir o que disse Eduardo Bolsonaro para estremecer as relações diplomáticas com a China, maior parceiro comercial do Brasil e segunda maior potência econômica do Planeta, vai ter que contar com a boa vontade de quem registrou o destempero em prints. O post foi apagado.

A resposta veio na mesma rede, o Twitter. Uma nota diplomática mais para coturno do que para luva. O tom poderia ser entendido até se viesse em mandarim: “Instamos essas personalidades a deixar de seguir a retórica da extrema-direita norte-americana, cessar as desinformações e calúnias sobre a China e a amizade sino-brasileira, e evitar ir longe demais no caminho equivocado, tendo em vista os interesses de ambos os povos e a tendência geral da parceria bilateral. Caso contrário, vão arcar com as consequências negativas e carregar a responsabilidade histórica de perturbar a normalidade da parceria China-Brasil”.

Provável que o texto seja só um puxão de orelha no menino que ainda não entendeu, ou finge não entender, que é autoridade na Câmara para assuntos internacionais. E que, dependente como é, ecoa em público o que ouve e discute em casa. Eduardo é filho do presidente da República. Nem um nem outro são mais parlamentares de baixo clero de quem a opinião só valia para quem guerreava nas redes como guerreia num videogame.

De duas, uma. Ou o ataque gratuito à China não foi gratuito ou foi tiro acidental. Num caso como no outro, fazem estragos do mesmo jeito — perguntem para exportadores e produtores rurais, a base do bolsonarismo, se eles gostaram da pisa de quem entre janeiro e julho deste ano comprou 50,5 milhões de toneladas só de soja do Brasil, o equivalente a 72,4% de todas as exportações do produto.

Boa sorte para quem visualizar algum sentido na estratégia.

A biruta instalada no Itamaraty tem dado sinais trocados conforme o vento.

Caso os recursos comerciais e diplomáticos se esgotem, o Brasil precisa decidir logo para quem reserva a pólvora quando cansar de usar saliva.

Leia também:

Dias atrás, Jair Bolsonaro direcionou o canhão para os EUA, “apenas” a maior potência militar e econômica mundial, após entender como repreensão o discurso do presidente eleito, Joe Biden. Pouco depois, seu filho e representante ideológico na Câmara mirou a bala para a China, já acusada de espalhar vírus e enfermidades mundo afora e agora alvo de uma teoria da conspiração com pitadas de espionagem na questão da internet 5G.

O risco não é mais o cachorrinho enfezado ser engolido pelo pitbull. É ficar acuado entre dois cachorros grandes e buscar abrigo num aliado banguela.

Sem Donald Trump, o velho cachorro grande que mandava o pequeno buscar a água no quintal, vai faltar retaguarda e costas largas caso a aposta na pólvora seja a resposta para recompor o estoque de saliva, gasta em produções industriais pelo Twitter dos ideólogos do governo. Talvez por isso Bolsonaro já tenha enviado aquela piscadela para Vladimir Putin caso precise de braço na empreitada.

Na melhor das hipóteses viramos piada.

Na pior...bem, basta ver na História para onde leva a hiperatividade bélica impregnada no discurso de Eduardo Bolsonaro e seus capangas.