Edmilson acha difícil comparar 2002 e 2018: "Agora é rede social, fone de ouvido..."

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Edmilson comemora seu gol contra a Costa Rica na Copa de 2002 (Clive Brunskill/Getty Images)
Edmilson comemora seu gol contra a Costa Rica na Copa de 2002 (Clive Brunskill/Getty Images)

Por Felipe Portes

A Copa do Mundo vem aí. E o Brasil vive a expectativa de conquistar o hexa. Já não há mais nenhum remanescente da geração de 2002 em campo. Apenas a saudade e o legado do último time campeão mundial.

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Impossível não se emocionar com as lembranças da Copa que atravessou as madrugadas e consagrou Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho e outras feras na história do principal torneio de futebol do planeta. Contudo, a campanha na Coreia e no Japão não pertence apenas aos astros. E o time de Luiz Felipe Scolari se fez valer do coletivo para alcançar o penta.

Para relembrar e entender melhor o que foi aquela glória, falamos com um dos envolvidos, o volante Edmílson, titular em seis das sete partidas do Brasil no Mundial de 2002. Ele ficou de fora apenas do jogo contra a China.

Lembrado pelo momento curioso quando se atrapalhou para colocar a camisa de jogo, na decisão contra a Alemanha, Edmilson comentou passagens cruciais daquele período da arrancada até o penta.

Para começar e esquentar a conversa, aquela pergunta básica: o que há de comum entre a Seleção de 2002 e a de 2018, se é que se pode afirmar que existe um elo entre as duas?

Este grupo chega à Copa através de uma classificação sossegada a partir de um determinado momento, enquanto o nosso teve uma classificação sofrida e com isso provocando muitos questionamentos. Por consequência disso, o grupo atual termina sendo mais estável. O nosso tinha dúvidas de nomes, inclusive em termos de titularidade. Em termos comportamentais do grupo é uma geração bem diferente, pois a atual é a geração das redes sociais, dos fones de ouvido… a nossa ainda era a do pagode no ônibus, da “resenha” no quarto do hotel. Havia certamente mais interação e se percebia com mais transparência se havia desconforto ou desavença num elenco, de maneira geral. A similaridade entre as gerações é a qualidade, ambos os grupos muito bons. A de 2002, apesar das Eliminatórias ruins, chegava à Copa com mais distribuição da capacidade de decidir, e ambas tinham um representante do futebol-alegria, Ronaldinho Gaúcho e Neymar Jr. É difícil apontar similaridades além da qualidade.

Na sua visão, qual foi o jogo mais complicado no percurso para o título de 2002? E por qual razão?

Acho que o mais complicado da fase de grupos obviamente foi o da Turquia, que inclusive surpreendeu e chegou às semifinais exatamente contra a gente. Ninguém imaginava que [os turcos] chegariam tão longe. Mas o jogo mais complicado da Copa toda, na minha maneira de ver, foi contra a Bélgica. Até porque era um jogo eliminatório. Nosso início de partida foi ruim e a seleção belga era forte, não estava ali por acidente. Com menos de três minutos, Marcos já tinha feito um milagre, e no começo do segundo tempo fez outro, ou seja, começamos ambas as etapas pressionados. Forte defensivamente e com jogadores de qualidade: esta combinação foi a principal razão para ter sido o mais complicado dos nossos adversários. A Bélgica fez um gol que, ao meu ver, foi uma jogada normal de Wilmots sobre Roque Júnior, um gol anulado deles que poderia ter dado outro rumo. Ganhamos no segundo tempo, e lembro que foi um jogo em que Felipão mexeu bem.  Denílson e Kléberson entraram e jogaram muito, mudando o posicionamento do time belga.

O Brasil de 2002, para os atletas, era o maior favorito? Ou essa sensação vitoriosa estava com vocês desde a largada no Mundial? Qual foi a conversa depois da estreia complicada com a Turquia?

Não, de maneira alguma. Como falei antes, as Eliminatórias complicadas não colocaram o Brasil como uma seleção favorita. Havia muitas dúvidas e questionamentos, Ronaldo, Rivaldo, o sistema tático de Felipão… A conversa do grupo em todos os momentos era que deveríamos ir jogo a jogo, nem se animar muito se fôssemos bem, nem nos abatermos se corresse tudo mal numa partida. Após o primeiro jogo com a Turquia prevaleceu exatamente isso: que já era passado e portanto, era preciso olhar para a frente. No jogo da semifinal, contra eles novamente, já sabíamos que era uma equipe difícil, e que seríamos pacientes.

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E quais são as diferenças mais visíveis entre o time de 2002 e o de 2018?

Bem, recai no que coloquei antes de que não gosto muito de comparar, identificar similaridades e diferenças, que time seria melhor ou pior… Já se passaram 16 anos, o futebol em si mudou bastante, o comportamento do atleta e do grupo. Outro aspecto é que eu conhecia muito bem aquele grupo, e este não, ainda mais em termos de clima interno, padrões de comportamento dos jogadores e comissão técnica. Entendo que a diferença nítida é mais da geração como um todo, não do atleta em si: uma geração como falei antes das redes sociais e do fone de ouvido, a geração do perto-longe. Não dá para saber o quanto este isolamento parcial impacta num grupo e como se afirmam as lideranças, ou como se reage num momento negativo. No nosso tempo, a altura do pagode mostrava o astral do grupo, e uma piada de Vampeta poderia iniciar uma recuperação emocional depois de uma derrota.

Você acredita plenamente no hexa ou o Brasil não chega como o grande favorito? Quem pode ser o principal opositor da Seleção na Rússia?

O Brasil tem condições de ser campeão porque tem valores individuais, um bom coletivo, bom técnico, mas Copa do Mundo é uma competição sempre difícil, não dá para falar em favoritismo e que vamos trazer o hexacampeonato. Eu acho que há outras seleções fortes e que sempre pode haver alguma surpresa. A partir do mata-mata, passa quem erra menos. Com nível muito bom chegam Alemanha, França, a própria Espanha e sua mescla de jogadores jovens com experientes. O Brasil chega forte, bem competitivo, podendo jogar de igual para igual com qualquer uma delas.

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