E(L!)eições-RJ - Renata Souza: 'Vamos integrar escolas municipais com clubes de bairro e federações'

Jonas Moura e Vinícius Faustini
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Candidata à Prefeitura do Rio de Janeiro pelo Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), Renata Souza fala com orgulho do espaço reservado ao esporte em seu plano de governo. Décima-terceira entrevistada do especial do LANCE! sobre as eleições na capital fluminense, a deputada estadual propõe um plano de desenvolvimento do setor baseado nas escolas, diz que pretende criar um calendário municipal de competições esportivas em diversas modalidades e cita a revitalização dos clubes de bairro como algumas de suas propostas.

Crítica do legado olímpico dos Jogos Rio-2016 e das transformações do Maracanã, que segundo ela está "sem alma popular", a candidata indicou o que pretende mudar em um eventual governo e expressou sua opinião sobre assuntos relacionados ao esporte na cidade.

Para realizar esta série, o L! enviou dez perguntas - idênticas, para todos os 14 concorrentes que vêm fazendo campanha - a respeito dos seus projetos e desafios esportivos que enfrentarão na Cidade Maravilhosa.

A publicação é diária e em ordem alfabética. Nesta quinta-feira, o espaço será aberto para Suêd Haidar (PMB), na última entrevista com os candidatos.

LANCE!: Por que deseja se candidatar à Prefeitura do Rio de Janeiro?

Renata Souza:
Porque a cabeça pensa onde os pés pisam. Sou cria da favela da Maré. Fui aluna do Ciep, fiz pré-vestibular comunitário, me formei em doutora em comunicação e cultura. Trabalhei 10 anos com o (atual deputado federal) Marcelo Freixo e com a Marielle (Franco, vereadora que foi morta a tiros em 14 de março de 2018, em um crime no qual também foi assassinado seu motorista, Anderson Pedro Mathias Gomes). Nosso olhar sempre veio da favela. A favela é nossa inspiração. Vivi na pele os problemas do Rio: não ter transporte para trabalhar, não ter médico no posto de saúde, não ter creche para as crianças. A vida está muito difícil, mas a culpa disso não é só da pandemia, é porque essa cidade é cara demais e sempre foi governada para enriquecer os poderosos. É preciso coragem para mudar. Vamos derrotar as máfias que governam a cidade como um balcão de negócios. O Rio não é do bando do Cabral (Sergio Cabral, ex-governador do Rio de Janeiro) nem da gangue do (presidente da República, Jair) Bolsonaro. O Rio é das mulheres e dos homens que dão duro para sustentar suas famílias. Essa turma aí roubou o Rio da gente, mas juntos vamos tomar a cidade de volta.

L!: Qual será a relevância do esporte em seu plano de governo? Haverá alguma preocupação com o desenvolvimento do setor nas categorias de base e de alto rendimento?

O nosso programa tem um capítulo inteiro dedicado ao esporte. Defendemos políticas na área de esporte que promovam a saúde, a cultura e a paixão. Esporte é mais do que uma manifestação cultural, é um direito fundamental. Vamos implementar um plano municipal de desenvolvimento do esporte cujo ponto de partida são as escolas. Hoje faltam locais para nossos alunos praticarem esporte. Muitas escolas têm quadras pequenas e limitadas. Outras não tem espaço para a instalação de quadras poliesportivas. A integração dessas escolas com os clubes de bairro pode solucionar esse problema. E assim podemos garantir uma educação integral para nossas crianças. Por isso, vamos criar um programa de incentivo para revitalizar os clubes de bairro. Como contrapartida, vamos garantir aos alunos das escolas municipais acesso às instalações esportivas dos clubes. Com isso, os clubes ganham vida. E a cidade ganha novas alternativas para o desenvolvimento da educação física e do esporte de alto rendimento. Além disso, vamos promover um calendário municipal de competições esportivas nas diversas modalidades, definindo uma estratégia de fortalecimento dos esportes amadores e do esporte de alto rendimento, integrando os clubes, as federações esportivas e as escolas da cidade.

L!: Qual será o critério para a escolha do seu secretário de esportes, se houver?

Como não temos rabo preso com ninguém, vamos escutar os servidores da Prefeitura e escolher o que há de melhor na cidade, alguém com conhecimento técnico e das necessidades da população e dos esportistas para ocupar a pasta de Esportes.

L!: Caso eleita, a senhora lidará com os impactos da pandemia de Covid-19. Qual é o seu planejamento para assegurar que a população possa gradativamente retomar suas atividades físicas com segurança em relação aos índices do vírus?

Vamos reunir as faculdades de medicina e institutos de pesquisa da cidade, como a Fiocruz, para elaborar um plano emergencial de segurança sanitária baseado em evidências científicas e dados empíricos. Precisamos estabelecer protocolos de ação para integrar o trabalho dos diferentes órgãos da prefeitura e investir em testagem em massa para ampliar nossa capacidade de monitoramento. Cabe à Prefeitura manter a população informada sobre os perigos da pandemia e indicar saídas para as pessoas poderem praticar exercícios físicos sem correr riscos. A defesa da vida está acima de tudo.

L!: Pensa em promover campanhas de incentivo para que as pessoas do "grupo de risco" façam exercícios físicos em suas residências?

Vamos promover campanhas educativas sobre como cuidar da saúde do corpo e da mente garantindo segurança sanitária, como se prevenir do contágio e onde buscar assistência social e atendimento médico. A prefeitura tem obrigação de orientar os cariocas sobre os perigos da aglomeração e apontar alternativas para as pessoas saberem como fazer exercícios físicos sem correr riscos.

L!: A pandemia afetou sensivelmente a rotina dos grandes clubes cariocas. Acredita que a Prefeitura possa contribuir de alguma forma para que as agremiações se recuperem economicamente? Como?

Precisamos nos preocupar com todos os clubes, não apenas os chamados “grandes”. Nos últimos anos, temos assistido clubes tradicionais, como o Olaria, tendo que leiloar sua sede para tentar sobreviver. A situação é crítica. Precisamos pensar um plano municipal de desenvolvimento do esporte que inclua um programa de contingência para o período da pandemia, que ainda não deu sinais de trégua. E para isso, temos que escutar todos os clubes tradicionais da cidade.

L!: Como pretende traçar o planejamento para a volta de público aos estádios e ginásios na cidade?

Enquanto não houver uma vacina, não podemos permitir aglomerações na cidade. A reabertura dos estádios e ginásios só será realizada quando os indicadores epidemiológicos apontarem que é seguro. A vida dos cariocas está acima de tudo.

L!: Qual é a opinião da senhora sobre a construção de um autódromo na Floresta do Camboatá, considerada o último remanescente de Mata Atlântica em terras planas na cidade, para receber grandes eventos do automobilismo, como a Fórmula 1?

Um absurdo! A Floresta do Camboatá é uma reserva ambiental fabulosa, que abriga inúmeras espécies da fauna e flora em extinção. Sozinha, a floresta tem 10 vezes mais árvores do que o Parque do Flamengo, o Campo de Santana, a Quinta da Boa Vista e o Passeio Público juntos. No nosso governo as mais de 200 mil árvores da floresta vão continuar de pé. Existem alternativas melhores para construir um autódromo na cidade. Mas só existe uma Floresta do Camboatá.

L!: Como a senhora avalia a gestão do legado olímpico? Se eleita, quais os planos para uso das instalações olímpicas que estão sob gestão da Prefeitura, como a Arena Carioca 3 e o Parque Radical de Deodoro?

O legado da Olimpíada foi uma cidade quebrada, cheia de elefantes brancos.
Sobraram calotes, o Rio se endividou e quem pagou a conta foi o povo carioca. O megaevento terminou sendo um mega fracasso. E a Olimpíada virou um caso da Lava Jato. O melhor retrato do legado de horrores deixado em nome da Olimpíada foi a Ciclovia Tim Maia. A obra custou R$ 45 milhões dos cofres públicos. A empresa que construiu a ciclovia era da família do secretário de Turismo da prefeitura do Rio. Três meses depois de ser inaugurada, a ciclovia desabou. Duas pessoas morreram. E o governo do Eduardo Paes disse que a culpa era da onda! Eles construíram uma ciclovia na orla sem calcular a onda do mar! É muita incompetência. Esse talvez seja o melhor exemplo de como o projeto olímpico foi tosco, as obras mal feitas, não tinha planejamento e sobravam esquemas de propina para tudo quanto é lado. Mas o Rio tem jeito. Vamos transformar as instalações olímpicas em centros de desenvolvimento da educação física e formação de atletas de alto rendimento, articulando as escolas municipais e as federações esportivas da cidade.

L!: Qual deve ser o modelo de gestão do Maracanã e dos equipamentos esportivos no seu entorno?

O Complexo Esportivo do Maracanã foi assassinado pelo projeto Olímpico do Eduardo Paes e do Sergio Cabral. O Estádio de Atletismo Célio de Barros e o Parque Aquático Julio de Lamare ficaram cinco anos abandonados, quase viraram estacionamentos. O Maracanã passou quase uma década fechado em obras superfaturadas para, no final da roubalheira, deixar de ser o templo do povo e virar uma arena cara e sem alma popular. Sonho com um Maracanã gerido pela Prefeitura. Mas isso depende do impacto no orçamento. Se for possível municipalizar a gestão, nós vamos garantir uma cota mínima de ingressos a preços acessíveis e promover a volta de setores populares. Defendemos um complexo esportivo público e popular, voltado para garantir o direito ao esporte, à saúde e ao lazer.

BATE-BOLA

Pratica ou praticou algum esporte?
Ioga e vôlei

Time de coração: Flamengo

Ídolo no esporte: Zico

Qual é sua lembrança mais forte ligada ao esporte?

Campeonatos de vôlei na minha infância. Eu era levantadora no clube escolar da UFRJ.

Qual legado pretende deixar à cidade do Rio de Janeiro na área do esporte?

Implementar uma política de Educação Integral na rede municipal de ensino que integre as escolas municipais com os clubes de bairro e as federações esportivas.

QUEM É ELA

Nome completo: Renata da Silva Souza (PSOL)
Data e local de nascimento: 31/08/1982 - Rio de Janeiro (RJ)
Vice: Ibis Pereira (PSOL)
Coligação: Um Rio de Esperança (PSOL/UP/PCB)
Ocupação declarada: Deputada
Valor total em bens declarados: R$ 42.000,00