E(L!)eições-RJ - Luiz Lima: 'Quero deixar uma política pública para o desenvolvimento esportivo no Rio'

Jonas Moura e Vinícius Faustini
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Eleito deputado federal pelo PSL em 2018 e um dos nomes do esporte mais enfáticos no apoio ao presidente Jair Bolsonaro, o ex-nadador Luiz Lima acredita que pode utilizar sua experiência de atleta para fortalecer o setor no Rio de Janeiro, caso venha a ser eleito prefeito.

O carioca, que ganhou espaço na vida pública após o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff e esteve à frente da Secretaria Nacional de Esportes de Alto Rendimento na gestão de Michel Temer, afirma que o esporte terá papel "de grande destaque" em um eventual governo seu, sobretudo na retomada após os impactos da pandemia de Covid-19. Ele é o nono entrevistado do especial do LANCE! sobre as eleições municipais no Rio.

Para realizar esta série, o L! enviou dez perguntas - iguais, para todos os concorrentes que vêm fazendo campanha - a respeito dos seus projetos e desafios com os quais se depararão no esporte na Cidade Maravilhosa. A divulgação das entrevistas ocorre em ordem alfabética. Nesta sexta-feira, será a vez de o atual prefeito Marcelo Crivella (Republicanos) expor seus planos.

LANCE!: Por que deseja se candidatar à Prefeitura do Rio de Janeiro?

Luiz Lima: A situação do Rio, hoje, é de assustar. A cidade já não tem recursos para pagar o funcionalismo público. O prefeito (Marcelo) Crivella está indo a Brasília pedir adiantamento de royalties ao ministro Paulo Guedes para fechar as contas. Eu estive no Tribunal de Contas do Município e vi a situação de perto. O Rio não aguenta mais. Temos que resgatar essa cidade. Sou honesto, sou ficha limpa, e preservo valores que foram passados pelos meus pais, como verdade, disciplina e dedicação para fazer sempre o melhor.

Nasci em Campo Grande, morei no Grajaú, em Laranjeiras e na Barra (da Tijuca). Me tornei atleta olímpico e, aos 16 anos, já estava na Seleção Brasileira de natação. Defendendo o Brasil, conheci mais de 50 países. Vi o que funciona e vi o que não funciona. Fui na Venezuela nadar quando era muito jovem e vi um país rico, feliz e promissor. Voltei na década seguinte e vi a miséria nas ruas. Eu me tornei Secretário Nacional de Esportes e, pela transparência da minha gestão, fui muito elogiado pelo Tribunal de Contas da União. Por obra de Deus, a convite do presidente Jair Bolsonaro me tornei deputado federal. No Rio, conheço da Ilha do Governador a Santa Cruz.

Sei dos problemas dos cariocas, e vou ter a capacidade e a sensibilidade para escolher as melhores pessoas para governarem o Rio comigo. Quero chegar aos 100 anos, olhar para trás e ver que tive a coragem de fazer. Espero que o eleitor conheça cada candidato e faça seu voto valer a pena. A vida e a história de cada um valem mais do que o discurso. Não sou o rei da cocada preta, mas acredito que sou uma ótima opção.

L!: Qual será a relevância do esporte em seu plano de governo? Haverá alguma preocupação com o desenvolvimento do setor nas categorias de base e de alto rendimento?

Não pode ser diferente. Eu sou um atleta olímpico. Minha vida foi o esporte, minhas referências vieram do esporte. Minha mulher foi uma atleta da Seleção Brasileira, como eu. Minha filha, de 15 anos, já é também nadadora da Seleção Brasileira. O esporte terá papel de grande destaque em nosso governo. E isso não vai acontecer somente por causa da minha formação como atleta e professor de Educação Física. Vai acontecer por um motivo óbvio: o esporte é um pilar da educação.

O esporte muda e transforma a vida das pessoas. Traz saúde, bem-estar, cidadania e gera emprego. Por isso, temos que começar na base. Vamos tratar as vilas olímpicas municipais com o máximo de carinho. Criança que pratica esporte fica longe das drogas. Em 2019, a Prefeitura investiu só R$ 1 mil, pasmem vocês, sob a rubrica “construção de vilas”, mesmo valor destinado a apoiar atletas de alto rendimento e a eventos e projetos para o esporte de alto rendimento. Ainda nas vilas olímpicas, vamos ampliar a oferta de atividades e serviços através de convênios com espaços já dotados de alguma infraestrutura, como clubes, quadras de escolas de samba e instalações militares. Temos a ideia também de criar um time de “olheiros” nas vilas olímpicas e escolas, para a descoberta de novos talentos, através de parcerias com clubes, federações, confederações e o Comitê Olímpico do Brasil (COB).

Nosso plano de governo inclui subsídio para campeonatos e torneios de base via federações. Sobre a questão do patrocínio de atletas de alta performance, nossa luta será também para implementar uma política que estimule a iniciativa privada a apoiar atletas, através de leis de incentivo ao esporte.

L!: Qual será o critério para a escolha do seu secretário de esportes, se houver?

O critério será o mesmo que valerá para escolha das outras secretarias. Eu quero trabalhar com gente técnica e gente competente. Não vai ter politicagem no meu governo. Eu não tenho apoio de vários partidos e não vou precisar lotear a Prefeitura entre aliados. Quero uma pessoa que entenda de esporte, que seja correta, séria, que dialogue com todo o setor de esportes, e que tenha a capacidade de buscar parcerias junto ao governo do estado, ao governo federal e, principalmente, na iniciativa privada. Já foram feitos alguns convites. A pessoa terá carta branca para desenvolver tudo aquilo que o setor deseja, sendo um grande gestor, acima de tudo.

L!: Caso eleito, o senhor lidará com os impactos da pandemia de Covid-19. Qual é o seu planejamento para assegurar que a população possa gradativamente retomar suas atividades físicas com segurança em relação aos índices do vírus?

O combate à Covid-19 sempre será orientado pela Prefeitura, caso a pandemia continue. Os protocolos serão seguidos com todo o rigor necessário. Além disso, os programas de informação da Secretaria de Saúde serão disseminados entre a população. Mas é importante reiterar que escolas, comércio, trabalho e atividade econômica serão incentivados por mim para terem continuidade. Não podemos parar mais a nossa economia. Acho que governo estadual e municipal pecaram por exigir um distanciamento social sabendo que a maior contribuição está no distanciamento físico – que, sim, é eficaz na redução do risco da Covid-19. A compreensão equivocada do termo distanciamento nos afastou das relações sociais, dividiu a sociedade e determinou o forte baque na economia.

L!: Pensa em promover campanhas de incentivo para que as pessoas do "grupo de risco" façam exercícios físicos em suas residências?

Claro, está mais que comprovado que a atividade física, mais que qualquer coisa, está associada a longevidade e uma boa saúde mental. Assim, toda campanha de incentivo ao esporte e à prática de exercícios físicos será sempre importante. As pessoas que estão no grupo de risco, aos poucos, também estão podendo realizar suas atividades em áreas abertas, parques, praias e, mesmo, em academias e clubes, de acordo com as normas sanitárias de segurança. Caso a pessoa ainda não se sinta à vontade, temos opções de lives e outras formas on-line de promover a saúde física e mental do cidadão. O importante é quebrar a barreira do medo e tentar ao máximo tocar a vida. Na retaguarda de tudo isso, conforme está assinalado no nosso plano de governo, vamos criar centros especializados no tratamento da Covid-19 e suas co-morbidades.

L!: A pandemia afetou sensivelmente a rotina dos grandes clubes cariocas. Acredita que a Prefeitura possa contribuir de alguma forma para que as agremiações se recuperem economicamente? Como?

Os clubes fazem escolinhas que ensinam a prática esportiva e investem grandes somas na formação de atletas em sua base para competições. Têm, portanto, sob sua guarda uma demanda enorme de jovens na infância e adolescência: cerca de 2 mil nos quatro “grandes” do futebol. E só no futebol. Considerando as categorias divididas em sub-20, sub-15 e sub-13, é grande o contingente carente de saúde e educação, porque esses indivíduos, em sua maioria, advêm dos extratos mais humildes da nossa sociedade. Os clubes, no entanto, vêm perdendo a sua referência histórica nos bairros. Acumulam dívidas e tornam o investimento na formação (a sua essência) um sacrifício. Consequentemente, a maioria de suas sedes não dispõe de infraestrutura adequada, os seus espaços de treinamento estão mal aproveitados ou precisam de reforma, foi reduzida à prática de diversas modalidades nas escolinhas e em competições. Perde-se, assim, qualidade e descumprem-se obrigações sociais, trabalhistas e fiscais. Pouco se reverte para a sociedade, para o cidadão ou a cidade. Hoje, o jogo é de “perde-perde”.

O declínio de bairros tradicionais e a desmobilização da sociedade guarda, sim, relação com o declínio dos clubes, desprezando o potencial neles existente. Ou seria muita coincidência? A cidade precisa de um choque de gestão para renascer em todas as áreas. O reaquecimento da economia será uma das nossas prioridades. No caso dos clubes, eles sentiram bastante a paralisação das atividades, assim como o setor cultural e o comércio. Temos que elaborar e implementar um plano de socorro e incentivo para o esporte, setor de serviços, turismo, cultura, eventos, bares e restaurantes. A Prefeitura do Rio será parceira desses agentes na retomada pós-pandemia e formulará estratégias conjuntas para suporte de ações, atraindo apresentações, competições, negócios, feiras e eventos. Vamos contribuir, também, para divulgação destas atividades. Isso é fundamental. O desafio é enorme, mas possível.

L!: Como pretende traçar o planejamento para a volta de público aos estádios e ginásios na cidade?

Tudo será planejado e alinhado com a secretarias de Saúde, Esporte e Lazer e, ainda, observando-se as orientações do Ministério da Saúde. Não podemos, ainda, pensar em aglomerar 80 mil pessoas no Maracanã. No entanto, podemos e devemos montar um retorno escalonado de público aos estádios, assim como outros países estão fazendo.

L!: Qual é a opinião do senhor sobre a construção de um autódromo na Floresta do Camboatá, considerada o último remanescente de Mata Atlântica em terras planas na cidade, para receber grandes eventos do automobilismo, como a Fórmula 1?

Sem dúvida, o Rio de Janeiro precisa de um novo autódromo para recuperar grandes eventos que já abrigou, como os GPs de Fórmula 1 e Fórmula Indy. Quem não se lembra? Somos entusiastas dessa ideia. Mas esse equipamento não necessariamente precisa estar em Deodoro, onde haveria a destruição de 200 mil árvores numa área de Mata Atlântica. Nada será decidido de forma apressada, sem ampla consulta aos setores envolvidos, tecnicamente, e sobretudo à população, que é a principal interessada. Temos que analisar também os prós e contras pensando nas comunidades do entorno. Se, após esse debate, Deodoro for considerado o local ideal para o novo autódromo, vamos em frente.

L!: Como o senhor avalia a gestão do legado olímpico? Se eleito, quais os planos para uso das instalações olímpicas que estão sob gestão da prefeitura, como a Arena Carioca 3 e o Parque Radical de Deodoro?

Vamos buscar a iniciativa privada para juntos salvarmos o legado olímpico, com a exploração eficiente de equipamentos esportivos, diminuindo ou eliminando seus custos de manutenção, através de uma ampla licitação. As partes lucrativas “pagam” pelas deficitárias. Uma coisa é fato: a população do Rio não aguenta mais gastar suas economias reformando equipamentos que poderiam ter sido salvos da deterioração com a manutenção adequada. Em relação ao Parque de Deodoro, temos que efetivamente fazer melhor uso dele. Houve uma tentativa, mas a Prefeitura do Crivella não deu continuidade. O local tem tudo para funcionar o ano inteiro como um local de competições esportivas, além de área de lazer para os moradores do entorno, que necessitam de mais atenção e carinho.

L!: Qual deve ser o modelo de gestão do Maracanã e dos equipamentos esportivos no seu entorno?
É de responsabilidade do poder estadual. Acredito que o Maracanã e os equipamentos esportivos precisam ser geridos pela iniciativa privada, pelos clubes, como hoje é feito pelo Flamengo e Fluminense, e sempre com a fiscalização do poder público, funcionando como o poder concedente.

BATE-BOLA

Pratica ou praticou algum esporte?

Claro. Desde pequeno faço natação. Cheguei a duas Olimpíadas e continuo nadando praticamente todo dia, no mar ou na piscina. Morando parte da semana em Brasília, nado no Lago Paranoá no nascer do dia.

Time de coração: Fluminense

Ídolo no esporte: Pelé

Qual é sua lembrança mais forte ligada ao esporte?

Pessoalmente, foi a minha vitória no Pan-Americano de 1999, em Winnipeg. Ganhei a medalha de ouro nos 400m livre, foi um momento muito especial. No esporte em geral, o tetra, em 1994, nos Estados Unidos. Na época, eu treinava por lá, assisti no estádio àquela partida contra os Estados Unidos, 1 a 0, sofrido, com Leonardo expulso no primeiro tempo pela cotovelada no Tab Ramos.

Qual legado pretende deixar à cidade do Rio de Janeiro na área do esporte?

Quero sair do governo deixando entranhada no Município uma política pública para o desenvolvimento esportivo no Rio. Não podemos viver de ações pontuais, isoladas, descoordenadas e desalinhadas de qualquer planejamento para o esporte e sua integração com as áreas da educação e, sobretudo, saúde. A construção de equipamentos esportivos é uma solução de engenharia que, embora importante para a prática, não necessariamente induz, por si só, a formação de atletas – e de plateia tampouco. Com os grandes eventos esportivos já realizados, perdemos, lamentavelmente, a oportunidade de investir na formação de talentos e dos cidadãos, não consolidando política pública alguma para o esporte. A qualidade dos esportes coletivos tradicionais do carioca entrou em declínio em todas as suas modalidades. Ao longo dos últimos anos, as competições de modalidades olímpicas como remo, natação e vôlei tornaram-se pouco atrativas, ou, como ocorreu com a vela e o turfe, desconhecidas do calendário esportivo da cidade e do cidadão. O mesmo declínio ocorreu com o futebol, especialmente com o Campeonato Carioca. Ademais, nenhum investimento há nos torneios de “base” (formação), ao contrário do que acontece em outras cidades. A evolução que se percebe na cidade ocorreu na prática do ciclismo, nas maratonas e em esportes radicais e de praia. Na maioria dos casos, ou são esses esportes de competição individual ou são atividades de lazer (saúde), muitos patrocinados devido à maior exposição das marcas em valorizados pontos turísticos.

QUEM É ELE
Nome completo:
Luiz Eduardo Carneiro da Silva de Souza Lima (PSL)
​Data e local de nascimento: 10/12/1977 - Nova Friburgo (RJ)
Vice: Delegado Fernando Veloso (PSD)
Coligação: O Rio tem Opção (PSL/PSD)
Ocupação declarada: Deputado
Valor total em bens declarados: R$1.537.681,74