É justo o tamanho da culpa dada a Messi?

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Messi lamenta durante a derrota da Argentina para a Croácia (Adam Pretty – FIFA/FIFA via Getty Images)
Messi lamenta durante a derrota da Argentina para a Croácia (Adam Pretty – FIFA/FIFA via Getty Images)

Por Rodrigo Coutinho (@RodrigoCout)

O dito popular nos brinda com alguns chavões questionáveis em uma análise mais aprofundada e estudiosa do futebol. ”O craque do time tem que aparecer pra jogar”. ”O grande jogador tem que resolver”. São afirmações mentirosas? Objetivamente não, mas bem vagas dentro daquilo que realmente acontece num campo. Não estamos tratando de um esporte individual. O craque, seja ele quem for, precisa de condições prévias para que seu imenso talento possa definir dentro de um cenário minimamente favorável. Esta análise não tem como missão defender Lionel Messi! Ele esteve mais uma vez mal na derrota por 3 a 0 contra a Croácia e é um dos culpados pela péssima campanha hermana. Mas precisamos contextualizar as coisas.

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A cabeça baixa, a testa franzida, e a fisionomia tensa ao longo do hino, já foram vistas outras vezes. Fazem parte do ”jeito Messi” de ser. Essa personalidade retraída ajuda no abatimento quando não há ao seu entorno um time com condições razoáveis de competitividade. Compara-se com o que Cristiano Ronaldo vem fazendo neste mesmo Mundial. Tirando a parte comportamental bem diferente de cada um, é preciso lembrar as características de jogo muito díspares. Messi precisa de bola no chão, aproximação e associação com os companheiros. O ”Gajo” não necessariamente.

Jorge Sampaoli fez as mexidas que prometeu no time. Alterou o esquema tático para o 3-4-2-1 no momento ofensivo. Mercado compôs a linha defensiva com Otamendi e Tagliafico. Acuña entrou no lugar de Di Maria e Enzo Pérez ganhou o espaço de Biglia. Sem a bola, a Albiceleste se postava em duas linhas de quatro. Já a Croácia preencheu mais o seu meio-campo numa comparação com a estreia. Zlatko Dalic sacou um atacante e colocou um meio-campista. Brozovic formou ao lado de Rakitic na primeira linha de meio do 4-2-3-1.

Como as equipes começaram a partida (Reprodução)
Como as equipes começaram a partida (Reprodução)
Argentina no momento defensivo alterava a sua formatação tática (Reprodução)
Argentina no momento defensivo alterava a sua formatação tática (Reprodução)

Um jogo nervoso e truncado. Assim foi o primeiro tempo entre Argentina e Croácia em Nizhny. Os argentinos tiveram mais a bola, mas encontraram dificuldades para imprimir um jogo mais fluido. Não conseguiam trocar tantos passes no campo rival, muito em virtude da forte marcação croata. Ao contrário de outros jogos, os argentinos não tiveram em Messi o centro das atenções na etapa inicial. A equipe apresentou boas movimentações pelos lados envolvendo os meias e os alas. Trocas bem coordenadas e que foram responsáveis pelos melhores momentos. Meza, Acuña e Enzo Perez chegaram perto de marcar. Para alargar mais o campo quando a Croácia recuava as suas linhas, Mascherano se infiltrava na linha defensiva argentina e Mercado e Tagliafico abriam para ter amplitude inicial. Messi, porém, não era encontrado e pouco efetivo nas raras vezes que a bola chegava.  Na parte central do campo, havia uma troca de passes inócua e previsível, facilmente anulada pelos croatas.

Meia abre e ala participa por dentro: movimentação deu certo no primeiro tempo (Reprodução)
Meia abre e ala participa por dentro: movimentação deu certo no primeiro tempo (Reprodução)
Argentina abusou da movimentação no primeiro tempo para tentar criar (Reprodução)
Argentina abusou da movimentação no primeiro tempo para tentar criar (Reprodução)
Os dois times alargavam as suas “primeiras linhas”, mas com propostas diferentes (Reprodução)
Os dois times alargavam as suas “primeiras linhas”, mas com propostas diferentes (Reprodução)

A Croácia demonstrava-se um oponente duro! Compacta, variava bastante o posicionamento de seu bloco de marcação. Ora pressionava e forçava a ligação direta hermana, ora recuava as suas linhas e preenchia os lados do campo, muitas vezes até formando uma linha de seis atrás. Com a bola, a exemplo do que fazia com o adversário, sofria com a marcação adiantada da Argentina e produziu algumas ligações diretas. Em uma delas, Perisic quase marcou aos 4′. Mandzukic ainda teve grande chance em cabeçada na reta final do 1º tempo.

Em outros momentos, Croácia adiantava marcação e forçava Argentina a usar jogo longo (Reprodução)
Em outros momentos, Croácia adiantava marcação e forçava Argentina a usar jogo longo (Reprodução)

A Argentina apresentava alguns problemas defensivos. Não tinha uma boa coordenação em sua última linha e, muitas vezes, a mudança entre os esquemas nos momentos ofensivo e defensivo era lenta. A Croácia buscava aproveitar isso com passes em profundidade buscando Perisic e Rebic pelos flancos.

No segundo tempo, os argentinos começaram conseguindo empurrar os croatas pra trás. Aguero finalizou com perigo, mas na sequência o ”caldo entornou”. Em contra-ataque, Mercado fez a cobertura e recuou para Caballero. Rebic pressionou e recebeu um presente para botar a Croácia na frente aos oito minutos.

Sampaoli sacou Aguero e Sálvio. Tentou ganhar mais presença na área com Higuain e drible com Pavón. Depois de dez minutos tentando se encontrar, a Argentina quase empatou. Enzo Perez e Higuain fizeram boa jogada e Meza finalizou para a defesa de Subasic. Nem uma pressão na base do ”abafa” o time de Sampaoli conseguiu fazer. Dybala ainda entrou, mas não havia coletividade e o desespero já era grande.

Mapa de calor e estatísticas de Messi contra a Croácia (Reprodução)
Mapa de calor e estatísticas de Messi contra a Croácia (Reprodução)
Mapa de calor de Messi contra a Islândia (Reprodução)
Mapa de calor de Messi contra a Islândia (Reprodução)

Com espaços pra jogar, a Croácia chegou ao segundo gol. Modric teve toda a liberdade do mundo, chamou Otamendi pra dançar e marcou um golaço de fora da área. Ainda teve tempo para o terceiro. Em linha de passe dentro da área, Rakitic anotou o seu com requintes de crueldade. O resultado selou a classificação balcânica para as oitavas de final com uma rodada de antecedência. Já a Argentina tem que torcer por um empate ou vitória da Nigéria no duelo contra a Islândia nesta quarta-feira. De qualquer forma, não dependerá só de si para passar de fase na última rodada.

Como as equipes terminaram o jogo em campo (Reprodução)
Como as equipes terminaram o jogo em campo (Reprodução)

De que adianta ter um grande jogador e não criar nenhum contexto que o favoreça? Jorge Sampaoli foi escolhido merecidamente para o cargo de treinador, mas desde que assumiu o time não conseguiu dar padrão à Argentina. A geração não é ruim e Messi não é omisso. O que a Argentina não tem é uma equipe minimamente competitiva! O futebol ainda é um esporte com 22 atletas em campo. Necessita de ideias coerentes e organização prévia!

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