Dupla da vela tira do bolso e estoura cartão para lutar por vaga em Tóquio

Jonas Moura
LANCE!


O estilo contido de João Bulhões combinado com a explosão de Isabel Swan deu liga e colocou fogo na corrida olímpica da vela brasileira, que busca manter a tradição de pódios nos Jogos de Tóquio-2020. Nesta semana, eles disputam o Campeonato Mundial de Nacra 17, em Auckland, na Nova Zelândia, com o objetivo de terminar o evento na condição de melhor dupla do país.

Caso consigam o objetivo, os dois serão os representantes brazucas da classe no megaevento, de acordo com o critério estabelecido pela Confederação Brasileira de Vela (CBVela). Juntos há pouco mais de um ano, eles precisam vencer Samuel Albrecht e Gabriela Nicolino, curiosamente seus ex-parceiros, que têm 17 meses de entrosamento e recebem um apoio da entidade por serem considerados as maiores apostas neste ciclo olímpico.

Samuel e Gabriela, inclusive, foram os responsáveis por garantir a vaga do Brasil em Tóquio-2020 na Nacra 17, durante o Mundial da Dinamarca, no ano passado. Esta é a única classe mista da modalidade. O barco é caracterizado por ser o mais rápido e radical do programa olímpico.

A missão de Isabel e João acontece após muitos percalços. Após estourarem o limite do cartão de crédito para financiar a preparação, eles quase desistiram da missão, mas fecharam, em julho, “em cima do laço”, patrocínio com a Energisa, pela Lei Estadual de Incentivo a Projetos Esportivos. O suporte salvou o projeto e permitiu que a dupla fosse para a Oceania tentar a almejada vaga.

– A Isabel construiu o projeto do zero. Conseguimos captar recursos no laço, no momento em que praticamente não teríamos mais como continuar. Falávamos todos os dias sobre a chance de não dar certo. Botamos muita grana própria. Dá até vergonha de falar. Em abril, vi que não conseguia nem pagar a fatura do cartão – contou Bulhões, ao LANCE!.







Isabel Swan e João Bulhões (Foto: Jonas Moura)
Isabel Swan e João Bulhões (Foto: Jonas Moura)
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Isabel Swan e João Bulhões celebram apoio (Foto: Jonas Moura)

No momento em que a modalidade sofre com a falta de concorrência interna, já que a confederação só apoia um atleta ou dupla por classe olímpica, e não mais duas, como no ciclo anterior, a Nacra 17 é a que mais empolga no quesito.

Mas tudo só aconteceu porque Isabel e João pensaram além das velejadas. Bronze em Pequim-2008 na classe 470, ao lado de Fernanda Oliveira, Swan colocou em prática seus conhecimentos em gestão e correu atrás de empresas. Agora, a carioca só espera que a sua quarta campanha olímpica seja bem sucedida.

– Acho que quando você precisa, aprende. Muitas vezes, temos de pensar na parte administrativa das nossas carreiras, e não só técnica e de treinos. Faz parte. Você vai equilibrando os pratos – afirmou Isabel.

Samuel e Gabriela ocupam o nono lugar no ranking da World Sailing. Com menos pontos somados, uma vez que entraram na corrida mas tarde, Isabel e João estão em 29°. Mas os resultados recentes mostram um equilíbrio entre os concorrentes.

Na etapa final da Copa do Mundo, em Marselha (FRA), em junho, eles terminaram em 12° lugar, enquanto a dupla número um do Brasil ficou em 15°.

Os atletas disputaram as quatro primeiras regatas na Nova Zelândia na noite de terça-feira, depois do mau tempo atrapalhar o início do Mundial. Isabel e João fizeram um 11º lugar na primeira e depois chegaram em sexto e em sétimo. Fecharam o dia em 15°. Samuel e Gabriela aparecem em décimo.

Na 49erFX, Martine e Kahena ocupam a quinta colocação. Em quatro regatas, elas conseguiram um terceiro, um nono, um sexto e um quinto lugar.











Sistema da CBVela gera incômodo

Sem apoio financeiro da CBVela, que oferece apenas um suporte logístico, Isabel Swan e João Bulhões acreditam que o sistema de auxílio não é o ideal para atrair um número maior atletas para as classes.

– Na parte de gestão esportiva, acredito que, quando há duplas em níveis similares, a escolha do investimento acaba influenciando no resultado. Então, se outra parceria não conseguir captar, vai ficar para trás. Digo isto independentemente da nossa situação, pois agora temos patrocínio. Mas outras realidades podem ser influenciadas por esse sistema – declarou Isabel.

Se não bastasse ter de encarar a concorrência com nomes consagrados, como Robert Scheidt, Martine Grael, Kahena Kunze e a própria Isabel, os jovens velejadores se sentem desestimulados a investirem recursos em um esporte que demanda despesas elevadas com materiais.

– O sistema impede a entrada de novos competidores. Eu e a Isabel temos uma gana enorme de fazer a campanha. Abrimos mão de muita coisa. Não ter um caminho para realizar o trabalho é muito duro. Sei que nosso esporte é complicado. Não é de massa. Mas ver só uma pessoa fazendo campanha olímpica por classe é muito triste. Se a Martine ou a Kahena se lesionassem, não haveria ninguém hoje para substitui-las – destacou Bulhões.







BATE-BOLA
Isabel Swan Velejadora, ao LANCE!

‘Ficou um gostinho de quero mais. Buscar a vaga olímpica é prioridade’

Você deixou a vela olímpica após a Rio-2016 e, assim como o Robert Scheidt, resolveu voltar. Como foi tomar a decisão?
Foi um processo. Eu fiz um programa de recolocação de atletas da Ernst Young, trabalhei no Fluminense, e aprendi compliance de entidades e marketing esportivo, até mesmo patrocinando atletas. Mas velejar é muito especial. É minha formação. Ficou um gostinho de quero mais. Houve uma mudança na minha vida pessoal que facilitou minha volta. Hoje, a campanha é minha prioridade.

Você foi garota-propaganda da candidatura do Rio para os Jogos. Hoje, qual marca quer deixar registrada?
Virei garota-propaganda dos Jogos do Rio pelo fato de acreditar na força que o esporte tem de mudar vidas e pelos seus valores. Para mim, foi um estímulo muito grande. Participei da Olimpíada e fui finalista. Mas a vida trouxe lições, em função da vontade de trabalhar e fazer acontecer. Estou na Comissão de Atletas Pan-Americana e do COB. Quero mostrar que a participação do atleta define eleição e os rumos do esporte.





BATE-BOLA
João Bulhões Velejador, ao L!

‘Temos condições e experiência para buscar medalha em Tóquio’

Como vê a renovação na vela?
Confesso que se eu fosse começar a velejar agora e soubesse o caminho que teria de trilhar, eu provavelmente não seguiria. Sou apaixonado pela vela, mas é duro para quem está começando. Vai ter quem tente, mas o ambiente não está apropriado.

Você velejava com a Gabriela Nicolino e, no meio do ciclo, formou a parceria com a Isabel. Como foi?
Eu fiquei sem dupla após a parceria desandar em 2018. Já estava me formando na faculdade. Pensei que talvez fosse a hora de parar e, de repente, voltar só para Paris-2024. Eu fui falar com a CBVela, e o Torben (Grael, técnico-chefe da Seleção Brasileira) me aconselhou a ligar para a Isabel. Achei que ela não iria topar, pois já tinha se aposentado, mas ele falou para eu tentar. Ela gostou.

Onde a dupla pode chegar?
Acreditamos seriamente na possibilidade de chegarmos ao topo. Temos condições, vontade e experiência. Queremos ser top 12 agora no Mundial, e disputar uma medalha em Tóquio.









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