Dra. Danielli Mello fala da evolução tecnológica para estudar membros do Exército Brasileiro

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Dra. Danielli Mello, Professora Associada da Escola de Educação Física do Exército Brasileiro (EsEFEx). Foto: Arquivo Pessoal
Dra. Danielli Mello, Professora Associada da Escola de Educação Física do Exército Brasileiro (EsEFEx). Foto: Arquivo Pessoal

Um dos fatores mais importantes para o desenvolvimento das Forças Armadas é a evolução tecnológica, porém quando mencionado tal assunto, as primeiras imagens surgidas no imaginário coletivo é o das mais novas máquinas e armamentos; entretanto, tão importante quanto é o trabalho de estudos de Fisiologia feitos sobre o material humano que compõe tais grupos. No Exército Brasileiro um dos principais nomes neste front é o da Dra. Danielli Mello.

Professora Associada da Escola de Educação Física do Exército Brasileiro (EsEFEx), com trabalho reconhecido internacionalmente, Dra. Mello é autora da pesquisa “Efeitos do Exercício, Fardamento e Ambiente sobre a Termorregulação de Militares do Exército Brasileiro”, focada em abordar as mudanças fisiológicas e termorreguladoras no corpo militar considerando o material de fardamento utilizado pelo Exército Brasileiro e empregando o uso de termografia infravermelha – para os leigos algo parecido com a visão do Predador dos filmes de Hollywood –. Tal pesquisa tem parceria com o IPCFEX (Instituto de Pesquisa da Capacitação Física do Exército) e o Professor Dr. Manuel Sillero da Universidad Politécnica de Madri, Espanha, um dos principais nomes na área de termografia esportiva ainda contando com o apoio de Poliscan e ThermoHuman na termografia.

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Dra. Mello, além de acadêmica é escritora e dá dicas de Fisiologia na Prática para leigos em seus canais na internet. Em entrevista exclusiva ao Yahoo Esportes Brasil, a pesquisadora fala de seus trabalhos, a relação das ciências considerando esportes e assuntos militares e qual estágio o Brasil se encontra em relação ao mundo.

Yahoo Esportes: Você é uma das principais especialistas em Fisiologia do Exercício no Brasil. Como se deu a evolução desta área no país e em qual estágio se encontra no momento?

Dra. Danielli Mello: A área da Fisiologia do Exercício cresceu junto com o aumento da tecnologia no esporte, que é uma indústria que movimenta bilhões de dólares no mundo todo. A evolução de materiais e equipamentos esportivos visando a melhora do desempenho do atleta, fez com que as indústrias esportivas investissem em tecnologia e pesquisa nas mais diversas áreas (fisiologia, biomecânica, nutrição, bioquímica, engenharia, física, matemática) que compõem as ciências do esporte. Um exemplo disso foi o desafio lançado pela Nike e Adidas em 2018 para quebra da barreira de duas horas na maratona, o quanto de investimento e pesquisa foram aplicados para que o atleta (Eliud) Kipchoge conseguisse esse marco histórico em 2020.

No Brasil, nós temos excelentes pesquisadores na área de Fisiologia do Exercício, mas a quantidade de laboratórios de alta performance ainda é insuficiente. Principal motivo: recursos financeiros. Os equipamentos são caros e a maioria importado, que ficam mais caros ainda devido a nosso câmbio. E dependendo da verba (orçamento) disponível nos clubes e instituições esportivas, existe uma hierarquização nas prioridades, e infelizmente, a ciência fica em último lugar.

Você é uma Professora Associada da Escola de Educação Física do Exército Brasileiro. Como se dá a preparação física dos soldados e como o seu conhecimento e pesquisas tratam da mesma?

Na Escola de Educação Física do Exército (EsEFEx) existe o Curso de Bacharelado em Educação Física, que é reconhecido pelo MEC e atende todas as diretrizes curriculares vigentes, onde são formados os profissionais de Educação Física que vão atuar na tropa, militares que são chamados de Calções Preto (pelo uniforme diferenciado do curso), que vão cuidar da saúde e preparação física dos soldados.

Minha área de conhecimento e atuação é a Fisiologia do Exercício. Eu ministro essa disciplina para os alunos do curso, que tem como objetivo compreender o funcionamento do metabolismo e dos sistemas muscular, cardiovascular, respiratório e endócrino durante os diferentes tipos de exercício físico. Ou seja, que esse militar ao chegar na tropa, conheça o funcionamento e respeite os limites do corpo humano.

Minha linha de pesquisa é na área de Fisiologia em Ambientes Extremos, onde eu investigo os efeitos do calor ambiental sob a saúde e desempenho físico. Venho utilizando a termografia infravermelha, a medida da temperatura do core (central) por meio de cápsulas que medem a temperatura interna em tempo real, a composição corporal, o nível de desidratação e outras variáveis em pesquisas para análise da termorregulação em função do tipo de vestimenta militar.

Além disso, também atuo na avaliação dos atletas militares da CDE (Comissão de Desporto do Exército) nas modalidades esportivas de pentatlo militar, futebol, triatlo e atletismo, em pesquisas relacionadas a análise de desempenho, controle de carga, prevenção de lesões e termorregulação.

Membro do Exército Brasileiro sendo avaliado pela Dra. Mello (Arquivo Pessoal)
Membro do Exército Brasileiro sendo avaliado pela Dra. Mello (Arquivo Pessoal)

O que observa desta evolução ao longo dos anos? Para onde o Exército pode seguir neste sentido?

No dia 17 de setembro completo 12 anos no Exército Brasileiro e posso afirmar que a EsEFEx evoluiu muito como Instituição de Ensino Superior, nas áreas de ensino, pesquisa e extensão. Nossas instalações são excelentes e nosso corpo docente extremamente capacitado e motivado a ministrar o que tem de mais inovador nas suas respectivas áreas de atuação, com todo o apoio acadêmico-administrativo e do Estado Maior.

O Departamento de Educação e Cultura do Exército criou em 2018 o Pró-Pesquisa, um edital de fomento ao pesquisador, que tem como objetivo a produção de pesquisa e a formação do pesquisador para desenvolvimento de pesquisa científica, contribuindo para desenvolvimento do conhecimento na área de Defesa e em Ciências Militares. Eu apliquei meus projetos e já ganhei dois editais (2019 e 2020) com temas para análise do tipo de fardamento sobre a termorregulação de militares do Exército Brasileiro em marcha simulada.

Investir em capacitação profissional, intercâmbio institucional e acadêmico, e pesquisa científica aplicada para tomada de decisões estratégicas por meio de programas e fomentos como o Pró-pesquisa, é o caminho.

O que diferencia a preparação física do Exército Brasileiro em relação às outras forças do mundo?

Não tem como comparar, pois, cada país e cada força tem uma demanda operacional específica. O Exército Americano, por exemplo, dá muita ênfase ao treinamento de força. No Brasil, os objetivos do Treinamento Físico Militar são: desenvolver, manter ou recuperar a aptidão física necessária para o desempenho das funções militares; contribuir para a manutenção da saúde do militar; cooperar para o desenvolvimento de atributos da área afetiva e contribuir para o desenvolvimento do desporto no Exército Brasileiro. Vários manuais de treinamento ficam disponibilizados no site IPCFEx (Instituto de Pesquisa e Capacitação Física do Exército). No entanto, o treinamento ainda é muito direcionado para o TAF (Teste de Avaliação Física) que tem uma parte cardiorrespiratória (corrida) e outra neuromuscular (flexão, abdominal e barra).

Há membros do Exército que são atletas. Como é a adaptação destes ao regime e como é feito o trabalho com os mesmos?

O Programa de Atletas de Alto Rendimento (PAAR) é do Ministério da Defesa e teve início em 2009 com o objetivo de ajudar o Brasil nos 5º Jogos Mundiais Militares (V JMM), que ocorreu no Rio de Janeiro em 2011.

O edital de abertura de vagas de sargentos especialistas em esporte de alto rendimento, é igual ao de sargentos especialistas em setores específicos, como a administração, saúde e TI.

A formação militar é igual a qualquer sargento técnico temporário: 3 semanas de adaptação a vida militar, com instruções e finalizando com um acampamento. Ao término, todos são incorporados como sargentos técnicos temporários. A grande diferença é que os especialistas em esporte de alto rendimento continuam seus treinos nos seus respectivos clubes e anualmente fazem a reciclagem militar. Já os sargentos técnicos das outras áreas ocupam as vagas existentes nos diversos setores militares.

O seu trabalho também aborda a Fisiologia em Ambientes Extremos e Estresse Térmico. Como condições extremas afetam os corpos dos soldados e quais são os métodos para que os mesmos atuem da melhor forma possível dentro de tais cenários?

A temperatura ambiente alta e a umidade relativa do ar elevada associado ao exercício de alta intensidade e/ou longa duração aumenta o risco de doenças e colapso pelo calor, que vai desde dor de cabeça, náuseas, calafrio, vertigem, desmaios, convulsão, até rabdomiólise (síndrome clínica relacionada necrose muscular e insuficiência renal). Se levarmos em consideração que em algumas instruções e cursos isso está associado a restrição de líquido e privação de sono, esse risco é potencializado. A desidratação, por exemplo, interfere também na função cognitiva, influenciando na atenção, função executiva, coordenação motora e tomada de decisões.

Todos as instruções são cuidadosamente planejadas seguindo todas as normas de segurança, e todos os militares envolvidos nas instruções, cursos e operações são preparados para identificar os primeiros sinais e sintomas de risco. Além de equipe médica, de saúde e suporte avançado de vida 24h disponível.

Um fator de transição do esporte nacional foi a entrada do Exército Brasileiro como patrono de atletas e considerável número de atletas chegou ao pódio olímpico. Como avalia esta atuação?

Muito positiva. Esse modelo de trazer atletas de alta performance para dentro das Forças Armadas já existia em vários países do mundo. Tanto que existem os Jogos Mundiais Militares Organizados pelo Conselho Internacional do Esporte Militar (CISM), que é uma espécie de Olimpíada das Forças Armadas. O Brasil só replicou um modelo de sucesso utilizado pensando na Olimpíada do Rio em 2016, e deu muito certo. O quadro de medalhas agora em Tóquio é uma boa medida disso, mas precisamos observar outros dados que são extremamente relevantes como: a quantidade de atletas enviados (delegação do Brasil), equilíbrio entre atletas homens e mulheres, quantidade de modalidades esportivas representadas, classificação desses atletas, quais modalidades chegaram as semifinais e finais, recordes pessoais que foram atingidos, ou seja, uma série de variáveis que precisam ser analisadas para tomada de futuras decisões do COB (Comitê Olímpico do Brasil) com as federações e confederações esportivas.

Existe intercâmbio entre atletas olímpicos brasileiros e os atletas dentro do Exército?

Sim. Por meio de campings e seminários técnicos. Além disso, esses atletas contribuem como convidados em algumas instruções e palestras para alunos (oficiais e praças) e corpo docente nos cursos da Escola de Educação Física do Exército (EsEFEx) e nas Escolas de Formação (AMAN, EsPCEx e ESA).

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