Em Dortmund, um clássico sem público "é melhor que nada"

Por David COURBET
AFP
Jogadores do Borussia Dortmund comemoram a vitória sobre o rival Schalke, apesar de não ter público no estádio, 16 de maio de 2020
Jogadores do Borussia Dortmund comemoram a vitória sobre o rival Schalke, apesar de não ter público no estádio, 16 de maio de 2020

Nicole Bartelt, de 44 anos, frequenta o estádio do Borussia Dortmund desde 2008, tendo ficado de fora de apenas dois jogos desde então, mas, neste sábado (16), não pôde estar em sua cadeira na arquibancada no retorno da Bundesliga, após mais de dois meses de suspensão devido ao coronavírus.

O Borussia Dortmund goleou por 4 a 0 o Schalke 04 no tradicional 'Derby do Ruhr', mas, assim como em todas as outras partidas da rodada, esta também foi com portões fechados, sem público, o que na Alemanha é popularmente chamado de "jogos fantasmas".

"Mais vale ter 'jogos fantasmas' para frear a progressão da epidemia do que uma catástrofe sanitária", declarou à AFP Bartelt, que costuma frequentar a famosa 'Muralha Amarela' do estádio, onde ficam os torcedores mais fanáticos e festeiros.

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"Embora a gente deteste o Schalke, uma temporada sem o derby não teria o mesmo sabor", completou a torcedora, que assistiu ao jogo pela televisão ao lado de um casal de amigos, respeitando as medidas sanitárias que só autorizam as reuniões entre pessoas de duas casas diferentes, com uma distância mínima de quase dois metros entre cada indivíduo.

Da mesma maneira, Marco Perz, de 45 anos e outro assíduo frequentador do Signal Iduna Park desde 1987, sentou diante da televisão para assistir, ao lado de amigos, o jogo do clube de seu coração.

"É triste que os jogos sejam disputados em estádios vazios, mas é melhor que nada: quanto mais respeitamos as regras de saúde, mais cedo poderemos voltar à normalidade", analisa Perz, com uma cerveja na mão.

Teria sido "absurdo e perigoso" não permitir o encerramento da temporada, diz Perz, que veste uma jaqueta decorada com uma dezena de escudos do Borussia Dortmund.

"Não necessariamente para os jogadores, que podem se permitir comprar uma Lamborghini a menos, mas para todos aqueles que dependem economicamente do futebol: técnicos, jardineiros, funcionários das lojas. Num dia de jogo, algumas lojas faturam o equivalente a uma semana normal".

- Ambiente diferente na cidade -

O ambiente nesta cidade industrial acostumada a viver o futebol intensamente e que é invadida por milhares de torcedores nos dias de jogo era muito diferente neste sábado, sem o amarelo e preto do clube que decora as ruas quando o Borussia joga.

A polícia da cidade fez um apelo aos torcedores para que assistissem ao jogo em casa neste sábado e viaturas foram estrategicamente posicionadas pela cidade, principalmente perto da estação de trem do estádio, para evitar qualquer aglomeração.

Somente alguns ciclistas ocasionais e pessoas passeando se encontravam perto do estádio, onde as lojas permaneceram fechadas.

O único sinal perceptível de atividade no estádio, que sediou pela primeira vez em sua história uma partida sem público, era a presença de funcionários do clube, todos usando máscaras, além de patrulhas policiais.

Na quarta-feira, o prefeito da cidade, Ullrich Sierau, pediu para a população não se reunir nos arredores do estádio: "Temos que deixar nosso gol sem ser vazado contra o coronavírus", declarou.

A associação que reúne todas as torcidas organizadas do Borussia Dortmund anunciou que não se mobilizaria para o jogo. Assim, os únicos cantos ouvidos no exterior do estádio eram os dos pássaros.

Até os bares do centro da cidade não ficaram cheios. "Só podemos receber 50 pessoas, quando normalmente são 500. De qualquer maneira, as pessoas não estão tranquilas o suficiente para se reunirem no contexto atual", explica Jörg Kemper, gerente do bar Wenkers, habitual ponto de encontro de torcedores do Borussia Dortmund.

Ao fim do jogo, os torcedores no bar ecoavam o grito de "Borussia campeão!" para comemorar a goleada por 4 a 0 sobre o rival. Alguns até ensaiaram uma ola, embora com dificuldade diante do distanciamento entre as pessoas.

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