Doria acusa Bolsonaro de interferir na Anvisa: 'agência de vigilância ideológica'

Redação Notícias
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Joao Doria, gobernador del estado de Sao Paulo, habla en una conferencia de prensa el miércoles 21 de octubre de 2020 tras una reunión sobre la vacuna CoronaVac contra el COVID-19, en la sede de la Agencia Nacional de Vigilancia Sanitaria (Anvisa), en Brasilia, Brasil. (AP Foto/Eraldo Peres)
Sem apresentar provas, Doria afirma que a decisão da agência de paralisar os estudos foi motivada “por uma orientação ou pressão exercida pelo Palácio do Planalto. (Foto: AP Foto/Eraldo Peres)

O governador de São Paulo, João Doria (PSDB), acusou o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) de interferência na Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) no caso da interrupção por dois dias dos testes clínicos da CoronaVac, vacina contra a Covid-19 desenvolvida pelo Instituto Butantan em parceria com a empresa chinesa Sinovac Biotech.

Sem apresentar provas, Doria afirma que a decisão da agência de paralisar os estudos foi motivada “por uma orientação ou pressão exercida pelo Palácio do Planalto”. O tucano também chamou o presidente de “irresponsável” por ter celebrado a suspensão, ocasionada pela morte de um voluntário.

“Nem a própria Anvisa acreditou naquilo que propagou. Ficou claro que a decisão foi motivada por uma orientação ou pressão exercida pelo Palácio do Planalto. Foi um fato inédito na história da agência. Espero que ela volte ao caminho de antes - de garantir a segurança, mas também a celeridade do processo, sem fazer escolha de vacinas”, afirmou Doria, em entrevista à revista Veja.

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Questionado se tem provas da suposta interferência de Bolsonaro na Anvisa, Doria disse que não e afirmou ser apenas uma “análise das circunstâncias”.

A retomada dos testes da CoronaVac foi anunciada na quarta-feira (11). Laudos do IML (Instituto Médico Legal) e do IC (Instituto de Criminalística) da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo indicaram que a morte do voluntário ocorreu em consequência de uma intoxicação por agentes químicos.

‘AGÊNCIA DE VIGILÂNCIA IDEOLÓGICA’

Na avaliação do governador, a interrupção dos estudos da CoronaVac - mesmo que momentânea e por dois dias - causou constrangimentos à Anvisa.

“A interrupção foi uma decisão extemporânea, sem diálogo com o Butantan, que aconteceu no mesmo dia em que se anunciou em São Paulo a chegada do primeiro lote de vacinas. Foi um ato inadequado, que causou constrangimentos ao mundo científico e até dentro da própria Anvisa”, criticou o governador de São Paulo.

Após o episódio, Doria questionou a credibilidade da Anvisa e afirmou que, se a agência for comandada pelo Planalto, será uma “agência de vigilância ideológica”.

“Até esse equívoco havia uma confiança na autonomia da agência. O episódio recente mudou essa percepção. Se ela for comandada pelo Planalto, passará de agência de vigilância sanitária para de vigilância ideológica”, afirmou Doria.

ENTENDA A ‘GUERRA DAS VACINAS’

A suspensão dos estudos clínicos da CoronaVac foi feita pela Anvisa após a agência alegar a ocorrência de um “evento adverso grave” com um voluntário do estudo. A paralisação pegou de surpresa o governo Doria. Na terça (10), o diretor do Instituto Butantan, Dimas Covas, afirmou que era “impossível” a relação entre "evento adverso grave" e com a vacina.

Foi revelado mais tarde que o “evento adverso grave” tratava-se da morte do voluntário, ocorrida no dia 29 de outubro, que foi registrada inicialmente pela Polícia Civil como suicídio. A vítima integrava o grupo que fazia parte do estudo conduzido pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo).

A suspensão do estudo foi comemorado por Bolsonaro. Na terça, o presidente compartilhou a notícia de suspensão pela Anvisa dos testes da vacina Coronavac e disse ter “ganhado” do tucano.

Há tempos, Doria e Bolsonaro travam uma espécie de “guerra das vacinas”, com o tucano defendendo a aplicação obrigatória do imunizante enquanto o presidente comanda um movimento anti-vacinas.

Na avaliação de aliados do presidente, Doria estaria tentando ganhar “capital político” ao encampar a produção de uma vacina contra a Covid-19 e chegaria municiado neste tema em uma eventual disputa pela presidência em 2022 contra Bolsonaro.

A paralisação dos testes ocorreu no mesmo dia em que Doria anunciou que 120 mil doses da CoronaVac chegarão ao estado ainda no mês de novembro.