Dólar recorde? AI-5? Paulo Guedes avisa: é melhor já ir se acostumando

O ministro da Economia, Paulo Guedes. Foto: Sergio Moraes/Reuters
O ministro da Economia, Paulo Guedes. Foto: Sergio Moraes/Reuters


“Sejam responsáveis. Pratiquem a democracia. Ou a democracia é só quando seu lado ganha? Quando o outro lado ganha, com dez meses você já chama todo mundo pra quebrar a rua?”.

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Quase quatro anos separam a declaração de Paulo Guedes, todo poderoso ministro da Economia de Jair Bolsonaro, do dia em que Eduardo Cunha autorizou o pedido de impeachment contra Dilma Rousseff, em 2 de dezembro de 2015.

No caso da petista, os descontentes não levaram dez meses, mas dez segundos após o resultado das urnas para chamar os protestos de rua, estes que agora assustam o presidente eleito em 2018 após o bem-sucedido consórcio entre o sentimento de autopreservação dos partidos e o gangsterismo das pautas-bomba que assumiu a presidência da Câmara e foi chamado de herói pelo então deputado Jair Bolsonaro durante a sessão do impeachment.

Paulo Guedes tem razão para se preocupar.

Nos países vizinhos, quem não viu nas eleições uma oportunidade de manifestar o descontentamento, casos de Argentina e Uruguai, está nas ruas pedindo mudanças. Manifestações pipocam ou pipocaram aqui e ali no Chile, no Equador e, mais recentemente, na Colômbia (a Bolívia é um caso à parte, e se radicalizou justamente porque alguma coisa se expressou nas urnas e foi tampada).

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A insatisfação sul-americana não encontrou significantes apenas em língua espanhola. O Brasil pode não acreditar, mas está inserido nesse mesmo território em profundo desalinho com uma ordem econômica que começa a se desenhar mundo afora. Um mundo que tem a tecnologia no centro da disputa, enquanto no coração da América a vocação é ainda agrária, colonial, periférica. Um tema para futuras colunas.

O fato é que, se há um elemento comum nas manifestações pelos países sul-americanos é que o caldo de insatisfação não reconhece coloração política, mas distâncias entre expectativas e realidades do que podem e o que não podem os Estados-nação diante dessa ordem global que se desenha.

E no Brasil o que não faltam são sinais de inapetência. Era melhor já ir se acostumando, diziam eles nas ruas.

E desde então o sinal é exatamente esse: se acostumem. Não reclamem. Aceitem esse lugarzinho ao sol sem vista para o mar das grandes vocações internacionais. O mar, por nosso lado, está tomado de óleo, em breve não terá mais árvores para refresco, mas e daí? É parte da nossa cultura.

Sejamos, então, essa periferia obediente e sem ambições, os patriotas orgulhosos de fazer parte de nada, a não ser capacho para os pés de quem circula da porta para dentro.

Mas os brasileiros têm também essa mania de reclamar.

Vejam 2013.

Vejam 2014.

Vejam 2015.

Bolsonaro sabe disso, e nisso está em sincronia com seu homem-forte da economia que patina. 

Em Washington, nos EUA, Paulo Guedes diz: é bom se acostumar com o câmbio alto. Vamos exportar um pouco mais e importar um pouco menos. Qual o problema?

“Acostumar”, aos poucos, deixa de ser provocação de campanha para se tornar política de governo.

É melhor se acostumar a ter menos direitos para ter pelo menos direito a emprego.

É bom se acostumar em pagar mais por menos.

A trabalhar mais por menos.

A pagar a quinta até no seguro-desemprego.
É melhor já ir se acostumando a ter menos transparência.

Menos informações circulando livremente.

Menos informação sobre políticas públicas, quem saiu, quem entrou, quem está na fila.

“Sejam menos”, diz o slogan informal, sob o disfarce do patriotismo de quem aceita a subserviência como destino. 

E quem não se acostuma? 

Aí não, aí já é bagunça. “Aí o filho do presidente fala em AI-5 e todo mundo assusta”, diz Paulo Guedes.

Curioso ver a palavra “bagunça” automaticamente associada a qualquer possibilidade de mobilização.

Porque manifestação que derruba adversário pedindo fechamento do Congresso, do STF e intervenção militar é exercício da democracia.

Quando se está no poder é “terrorismo”. Se não é, inventa-se, como ensinaram os detonadores da bomba explodida antes da hora no Riocentro, na tentativa de prorrogar os anos de chumbo que o presidente tem tanta saudade.

Vai ver é por isso que o governo, saudoso desse passado e já antevendo o futuro, faça tanta questão de encampar seu projeto de lei de que estabelece excludente de ilicitude para operações de Garantia da Lei e da Ordem para evitar certos tipos de protestos. Para atirar, a lei é um grande entrave, seja no campo, seja nas cidades.

O recado é um só: é melhor já ir se acostumando. 

Melhor já ir obedecendo. 

Melhor já ir pra casa e se contentar com essa vidinha aí, com voos de galinha na economia, dólar a R$ 4,20, programas de estímulo a emprego que pague até R$ 1.497 e toque de recolher para ninguém ouvir nem um pio.

Caso contrário, as balas que soldaram o símbolo da Aliança pelo Brasil podem ricochetear. É melhor já ir se acostumando.

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