A dois jogos do fim do campeonato, Cruzeiro reza para não cair

FERNANDA CANOFRE
Folhapress
***ARQUIVO***BELO HORIZONTE, MG, 08.01.2018: Presidente do Cruzeiro, Wagner Pires de Sá, durante coletiva de imprensa no CT Toca II, na Pampulha, na região metropolitana de Belo Horizonte. (Foto: Doug Patricio/Brazil Photo Press/Folhapress)
***ARQUIVO***BELO HORIZONTE, MG, 08.01.2018: Presidente do Cruzeiro, Wagner Pires de Sá, durante coletiva de imprensa no CT Toca II, na Pampulha, na região metropolitana de Belo Horizonte. (Foto: Doug Patricio/Brazil Photo Press/Folhapress)

BELO HORIZONTE, MG (FOLHAPRESS) - Torcedores revoltados do Cruzeiro usaram em pichações duas palavras que uma geração talvez só conhecesse pelo humorístico Hermes e Renato, da MTV. Elas apareceram no muro da Toca da Raposa 2 e na sede administrativa, no fim de novembro. "Sevandijas". "Diretoria quilingue".

A primeira, sevandijas, significa parasitas, vermes e veio acompanhada de frases como "some do Cruzeiro" e "a farra acabou". A segunda, quilingue, se refere à cultura de corrupção. Na sexta-feira (29), um vídeo nas redes sociais mostrou o tom de revolta engrossando. Torcedores abordaram o presidente Wagner Pires de Sá e ameaçaram de morte jogadores. 

Role para baixo para continuar lendo
Anúncio

"Você já ouviu falar, no futebol brasileiro, que teve morte de jogador porque o time foi rebaixado? Nunca, né? Vai acabar acontecendo isso. Vocês tá (sic) ligado", diz um deles. Wagner responde: "Tem umas coisas que a gente não entende, os caras jogavam bola. Até o início do ano, eram o melhor time, não sei o que, de repente pararam de jogar bola".

Wagner assumiu a presidência do clube em 2018 e viu o Cruzeiro ganhar a sexta Copa do Brasil. Mas a lista de problemas de 2019 inclui conflitos dentro do elenco, jogadores afastados, salários atrasados, investigação policial mirando a diretoria e a troca de três técnicos em quatro meses.

Como presidente do conselho deliberativo e com o capital político de ex-presidente, Zezé Perrellla se tornou um dos críticos ferrenhos à gestão de Wagner e a seu então gestor de futebol, Itair Machado, apontado como uma das figuras centrais da crise.

Ai jornal Folha de S.Paulo, no começo de outubro, Perrella disse que esperava que as investigações policiais andassem para que a diretoria fosse retirada na Justiça. Logo depois, Machado foi demitido e ele assumiu o cargo na gestão de futebol.

Em entrevista ao site Globo Esporte, ele afirmou que saídas de jogadores à noite não seriam toleradas. Nesta segunda-feira (2), Perrella apareceu no perfil oficial do clube no Twitter anunciando o afastamento do meia Thiago Neves, um dos mais criticados pela torcida, depois que o atleta foi visto em um show enquanto trata um edema na coxa esquerda.

"Vamos torcer para que ele consiga arrumar um clube, porque vestir a camisa do Cruzeiro, pelo menos enquanto eu aqui estiver, ele não veste mais", diz no vídeo de 58 segundos.

No mesmo dia, depois da derrota por 1 a 0 para o Vasco, Perrella também direcionou críticas ao ex-técnico do clube Mano Menezes por ter priorizado a Copa do Brasil -o Cruzeiro foi eliminado nas semifinais pelo Inter- ao invés do Campeonato Brasileiro.

"Se o Cruzeiro não ficar na primeira, todo mundo tem responsabilidade, até eu tenho a minha. Mas vamos olhar lá atrás, no planejamento, a culpa da diretoria passada, que concordou com isso. O Mano é um cara sensacional, mas avaliou mal, confiou muito", afirmou a jornalistas. "Agora é rezar para não cair".

Na última sexta, o clube chamou o terceiro técnico desde a queda de Mano, em agosto: Adilson Batista. O anúncio foi feito dois meses depois da estreia de Abel Braga, que substituiu Rogério Ceni, na sua passagem rápida e tensa pela Toca da Raposa.

A estreia de Adilson foi na derrota desta segunda. A dois jogos do final do campeonato, o Cruzeiro tem hoje 90,6% de chance de ser rebaixado, segundo o projeto "Probabilidades no futebol", do departamento de matemática da UFMG.

O time tem 36 pontos, dois a menos que o Ceará, que está logo acima da zona do rebaixamento. O time teve sete vitórias em 36 jogos. É a pior campanha do Cruzeiro desde que o projeto da UFMG estreou, em 2005, diz o professor de matemática Gilcione Nonato Costa, ficando abaixo inclusive da luta para escapar da Série B em 2011.

Com Grêmio e Palmeiras pela frente, a situação agora depende mais dos resultados do Ceará do que do próprio Cruzeiro na avaliação do professor. O jogo contra o tricolor gaúcho será em Porto Alegre nesta quinta (5).

"O Ceará tem que fazer no máximo três pontos, e o grande problema do Cruzeiro é que ele não vence. Eu diria que está respirando por aparelhos", diz ele. O time perdeu nas últimas três rodadas. "É possível que aconteça [de ficar na série A], mas a situação está ficando irreversível".

Em outras palavras, ainda que seja matematicamente possível que o Cruzeiro se mantenha no grupo de times brasileiros que nunca caíram para a Série B, parece cada vez mais improvável. Os demais clubes que nunca foram rebaixados são Flamengo, São Paulo e Santos. A Chapecoense disputou pela primeira vez a Série A em 2014 e já está rebaixada este ano, com Avaí e CSA.

"É uma crise que transcende a história do clube. Se o rebaixamento se concretizar, não é surpresa para ninguém", diz Costa. 

Leia também