Documentário lembra como Antonio Callado terminou desiludido com o Brasil

WALTER PORTO
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*ARQUIVO* RIO DE JANEIRO, RJ, 1982: O jornalista e escritor Antônio Calado em foto de 1982. (Foto: Levy Moraes/Folhapress)
*ARQUIVO* RIO DE JANEIRO, RJ, 1982: O jornalista e escritor Antônio Calado em foto de 1982. (Foto: Levy Moraes/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Na última entrevista de sua vida, concedida cerca de uma semana antes de morrer, aos 80 anos, Antonio Callado fez um balanço nada otimista.

"Não tenho a menor esperança de ver coisas diferentes na minha frente. Lutei muito, é verdade, e não deu em nada", disse aos repórteres Matinas Suzuki Jr. e Mauricio Stycer, na Folha de S.Paulo, em janeiro de 1997. "Hoje, eu realmente não acredito em coisa nenhuma que possa acontecer no Brasil."

Acompanhar o documentário que Emilia Silveira dirigiu sobre o escritor, que chega agora aos cinemas, é particularmente desalentador nesses trechos finais.

Boa parte dos 60 minutos anteriores se dedicavam a mostrar a intensidade com que Callado se dedicou a entender e escrever o Brasil, assim como a lutar para que mudanças revolucionárias obliterassem de vez nossas mazelas históricas.

Nos seus últimos anos, a sensação do escritor era de que "ele fracassou, nós fracassamos, o Brasil fracassou", nas palavras da diretora. "Esse 'parece que vai, mas não vai' é uma marca de toda a nossa história", segundo ela, algo que se repete agora quando "caímos de novo nesse pântano".

Callado, um dos jornalistas mais aguerridos da história do país, documentou a Segunda Guerra Mundial pela BBC britânica e viajou ao Vietnã nos anos 1960, episódios resgatados no filme ao lado da admiração que o escritor nutria por ícones da esquerda como Karl Marx -à casa de quem fez "uma peregrinação" em Londres- e Fidel Castro, com quem aparece em várias fotografias.

"Gostaria de deixar, quando morrer, um mundo melhor do que ele era no meu tempo, sabe?", diz um Callado mais jovem, numa narração em off do documentário. "Acho que não é afetação falar, eu tinha muita vontade de ver um mundo mais justo, mais sério, mais honesto, uma coisa que vi de uma forma muito dramática em Cuba, quando eu estive lá."

Declarações como essa atraíram a ira do regime militar contra o escritor, que fez oposição de primeira hora a ele ao lado de nomes como Carlos Heitor Cony e Glauber Rocha. Jornais foram proibidos de o contratar -ele encerrou a carreira como colunista da Folha de S.Paulo, já na redemocratização- e foi preso mais de uma vez por razões políticas.

Foi durante essa época sombria que Callado escreveu seu romance mais consagrado, "Quarup", referência para as gerações seguintes. Inclusive para Silveira, a diretora do filme, que o lembra como principal autor do jornalismo literário no Brasil, alguém que abriu os olhos de leitores para a importância da reforma agrária e da questão indígena.

Mais de 20 anos depois de sua morte, seu exemplo segue luminoso. Talvez por novas razões.

"Agora ele é um farol, um alerta", afirma Silveira. "Nem quem votou no Bolsonaro imaginava que a gente chegaria aonde chegou. A luta hoje é para manter a esperança e não terminar como ele terminou, desacreditando totalmente no Brasil."