'Diziam que eu não iria mudar o mundo. Eu respondia que também não me mudariam’, diz Aída dos Santos, uma das pioneiras do esporte brasileiro

Tatiana Furtado
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Aída dos Santos nunca se calou. Em 1972, oito anos depois de se tornar a primeira brasileira a disputar uma final olímpica, a atleta do salto em altura foi cortada dos Jogos de Munique por reafirmar em rede nacional, no Programa Flávio Cavalcanti, que viajou a Tóquio sem apoio — era a única mulher entre 68 competidores e terminou sua prova em 4º lugar, sem técnico, com pé torcido e sapatilhas emprestadas.

— Tenho certeza de que os dirigentes me respeitavam. Mas gostar de mim, não gostavam. Meus pais diziam que eu não ira mudar o mundo. Eu respondia que também não me mudariam.

E não mudaram. Aos 84 anos, completados recentemente, só a pandemia parou Aída dos Santos. O lar no Fonseca, em Niterói, tornou-se seu refúgio ao lado do marido. De lá, só sai para o essencial, como tomar a primeira dose da vacina contra o coronavírus na semana passada. Em breve, totalmente imunizada, espera retomar a rotina: jogar vôlei com as meninas, como chama as amigas do time de masters. Antes da chegada da Covid-19, viajavam pelo Brasil e pelo mundo em competições da categoria.

A mente segue ativa. A octogenária mantém a voz firme daquela jovem de 27 anos, pobre e negra, que surpreendeu ao saltar 1,74m nos Jogos Olímpicos de Tóquio. Com o passar do tempo, ao discurso forte foi acrescido um tom professoral, resultado da vida acadêmica acumulada. É formada em Pedagogia, Geografia e Educação Física, curso em que lecionou por anos na Universidade Federal Fluminense (UFF).

— Fiz uma faculdade, outra e outra, para poder me impor. Vi muito atleta que chegava nos lugares, viajava, mas ficava num canto isolado. Não socializava, não conhecia pessoas novas, pois não sabia se comunicar, se impor — conta ela, que conseguiu estudar graças ao esporte, mas que alcançou vida confortável devido aos anos como professora. — Se eu não fosse atleta, o que eu seria, morando no morro, filha de lavadeira? Não sei. Estudei na Gama Filho com bolsa.

O atletismo veio por acaso. A paixão era vôlei. Na juventude, a menina do Morro do Arroz, favela de Niterói, tentava reunir colegas para jogar na quadra do Caio Martins.

O vôlei, naqueles anos 1950 e 1960, era sonho distante. Algumas amigas, também negras, ouviram, no Botafogo, que “negro não joga vôlei”, e mandaram as jovens para o atletismo. Aquilo assustou Aída.

Nem sempre ela conseguia quórum para jogar. Foi num desses dias que, para não perder a carona, aceitou ir ao treino de atletismo com a vizinha. Saltou 1,40m, surpreendeu e começou a competir — escondida da família.

Aída mal conhecia a modalidade. Só tinha ouvido falar de Adhemar Ferreira da Silva, considerado o maior atleta brasileiro. Mas percebeu que ali poderia ter um futuro diferente da mãe lavadeira e o pai pedreiro, ambos analfabetos. Aos irmãos, dizia que “precisavam pensar no dia de amanhã”, mas recebia como resposta que “Deus deu hoje, e amanhã Deus dará”.

Vôlei na terceira idade

O ‘não’ ouvido aos negros no vôlei está longe de ser o único. A ele se somam as negativas por ser mulher e pobre. Aguentou as surras do pai por insistir no esporte, sem “levar dinheiro para casa” e o racismo nada velado de professores e dirigentes de clubes, para quem “a crioula não devia estar ali”.

Mais recentemente, um desconhecido bateu na porta da sua casa e ao vê-la disse que queria falar com a responsável. Ela prontamente respondeu que ela era a dona e não iria falar com ele.

— Acho que está melhorando, mas poderia melhorar mais. No esporte também. Principalmente no individual, que depende muito do índice. Se tivessem mais voz e falassem o que veem...

Só aos 60 anos, já na categoria master, ela pôde viver a grande paixão. Também realizou o sonho por meio da filha Valeskinha, campeã olímpica em Pequim-2008.

— As pessoas dizem que como naquela época eu não pude jogar, coloquei a Valeska. Mas ela precisou escolher entre o atletismo e o vôlei e escolheu o vôlei — conta Aída, que também incentivou esporte para os filhos Sérgio e Patricia, que seguiram outros caminhos.

Já aposentada, foi uma das vozes contra a derrubada do Célio de Barros, onde competiu pelo Vasco e Botafogo. Aos 84 anos, depois de tantas batalhas, Aída se sente confortável para dizer, sem ressentimentos, que não tem o reconhecimento à altura. Ela está na galeria de ídolos em General Severiano, dá nome de pista de atletismo da UFF e tem um painel no Caminho Niemeyer, em Niterói.

No Dia Internacional da Mulher, certamente é uma grande inspiração. Mas não foi chamada para os Jogos do Rio nem para Tóquio pelo COB — se foi a única mulher em 1964, a estimativa do comitê é de que entre 40% e 45% da delegação nos Jogos de julho seja de mulheres. Valeskinha lamenta a falta de homenagens:

— Em outros países só por ter ido competir nos Jogos, é um grande herói. Falta respeito pela história dela e por quem ela foi.