Dívidas de R$ 4 bi e sonegação de impostos: entenda a crise da Ricardo Eletro

A Justiça de São Paulo aceitou nesta semana o pedido de recuperação judicial da Máquina de Vendas, dona da rede Ricardo Eletro. A companhia anunciou na última sexta-feira (7) que fechou suas 300 lojas físicas em 17 estados e demitiu cerca de 3.600 funcionários.

Este é apenas o mais recente capítulo na crise da varejista, que no passado chegou a faturar R$ 10 bilhões por ano, mas que agora acumula uma dívida de R$ 4 bilhões, resultados decepcionantes graças à crise econômica provocada pela pandemia de coronavírus e investigações de fraude.

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Fundada em 1989 pelo empresário Ricardo Nunes, então com 18 anos, a varejista cresceu a partir de uma agressiva estratégia de fusão com concorrentes. A maior delas foi realizada em 2010, quando a Ricardo Eletro se juntou à Insinuante para formar o grupo Máquina de Vendas.

Lojas Insinuante, City Lar, Eletro Shopping, Clique Eletro e Salfer são outras marcas que, com o passar dos anos, foram devoradas pela Máquina de Vendas. Aos poucos as bandeiras deram lugar àquela que leva o nome do fundador. Em 2011, ficou entre as cinco maiores varejistas do país, segundo o Ibevar (Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo e Mercado).

Mas os problemas começaram a aparecer em 2018. Naquele ano, a Máquina de Vendas viu seu faturamento cair à metade do que registrava no auge. As fusões não deram o resultado esperado no longo prazo e desde 2014 a companhia registrava prejuízos. De 2015 a 2018, foram fechadas mais de 600 lojas, mas as contas ainda não fechavam.

Com dívidas na casa dos R$ 2,5 bilhões, em 2019 a empresa entrou em recuperação extrajudicial, renegociando dívidas com credores sem envolver a Justiça. O plano não deu certo e as dívidas só aumentaram.

Em julho de 2020, Ricardo Nunes foi preso no âmbito de uma operação de combate à sonegação fiscal e lavagem de dinheiro em Minas Gerais. O empresário, que já não tem mais ligação com a Máquina de Vendas ou com a Ricardo Eletro, é acusado de sonegar R$ 400 milhões em impostos durante cinco anos, quando ainda trabalhava com a varejista.

De acordo com o Ministério Público, a rede de varejo cobrava o valor correspondente aos impostos estaduais e federais no preço dos produtos, mas não fazia o repasse às autoridades responsáveis. Em nota, a Ricardo Eletro reafirma que a investigação não atinge a administração atual.

Se afastar de Ricardo Nunes não foi suficiente para uma empresa que, como todo o setor de comércio, já sofre há meses com os impactos econômicos da covid-19. Em entrevista à Exame, o presidente da Ricardo Eletro, Pedro Bianchi, confirmou que a pandemia foi a “causa final” para o pedido de recuperação judicial registrado nesta semana.

Segundo dados da Máquina de Vendas, o faturamento chegou a cair mais de 92% nos últimos meses. Sem uma estratégia sólida de vendas por canais digitais como os concorrentes maiores, Casas Bahia e Magazine Luíza, por exemplo, agora a empresa aposta todas as suas fichas no WhatsApp.

“Com a pandemia, as pessoas passaram a comprar muito pelo WhatsApp. É um caminho sem volta”, disse Ana Garini, vice-presidente de transformação digital da Máquina de Vendas, à Exame.

Os maiores credores da varejista são os bancos Bradesco, Itaú e Santander, a fornecedora Whirpool (das marcas Brastemp e Consul), o fisco – que ainda cobra os impostos sonegados pela administração de Ricardo Nunes – e a gestora de fundos Starboard.

A empresa diz que tem dinheiro para pagar a rescisão dos demitidos – cerca de R$ 125 milhões –, mas admite que vai precisar pechinchar à Justiça para conseguir os maiores descontos possíveis na negociação com credores.

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