Diretor do COB minimiza resultados ruins de estrelas do Brasil após Rio-2016: “Essa ressaca é normal”

Yahoo Esportes
Thiago Braz é um dos atletas que acumula maus resultados recentes
Thiago Braz é um dos atletas que acumula maus resultados recentes

Por Alexandre Massi (@alexmassi)

A quatro meses dos Jogos Pan-americanos, em Lima (Peru), o Comitê Olímpico do Brasil (COB) entra em um momento crucial de seu planejamento esportivo, passando a se dedicar integralmente à preparação de atletas e equipes para os Jogos Olímpicos de Tóquio (Japão), em 2020.

Role para baixo para continuar lendo
Anúncio

Entre tantas atribuições, a entidade observa promessas do esporte nacional que têm no Pan uma oportunidade de mostrarem sua real capacidade técnica; auxilia estreantes em eventos multiesportivos a tomarem consciência da importância dessas competições; e envia profissionais à capital japonesa para identificar as condições de competição que os atletas vão encontrar na cidade-sede dos Jogos.

Esse trabalho é liderado pelo Diretor de Esportes Jorge Bichara, que em entrevista exclusiva ao Yahoo Esportes detalha o que o Brasil deve encontrar em Lima, quais serão os objetivos da delegação nos Jogos Pan-americanos e como a entidade vem atuando em relação a atletas com potencial de medalha em Tóquio.

Quais foram as principais mudanças encaradas pelo COB neste ciclo olímpico?

Enfrentamos momentos bem difíceis desde o término dos Jogos Rio 2016. Sabíamos que aconteceriam certas situações, principalmente a retração de investidores e patrocínios. Tínhamos um intercâmbio com os ingleses e fomos alertados por eles que, mesmo em países com cultura esportiva e economia equilibrada, a redução de investimentos aconteceria. Vivemos um ciclo de dez anos de grandes eventos esportivos, era natural que o marketing das empresas fosse para outro lado.

Além disso, o país sofreu transformações drásticas, que impactaram a economia e a sociedade como um todo. O COB também teve mudanças políticas, com troca de presidente e elaboração de um novo estatuto. Em alguns momentos, a atenção ao desenvolvimento esportivo ficou dividida com a administração da entidade, e a ressaca pós-olímpica acabou sendo prorrogada.

Porém, seguimos com o programa de preparação olímpica, atuando próximo aos atletas e integrando as equipes sul-americanas, pan-americanas e olímpica. O cenário atual é interessante, pois mantivemos o nível dos resultados, mesmo com dificuldades no sistema interno.

Após visitar Lima recentemente, qual é a análise que você faz das instalações esportivas para os Jogos Pan-americanos?

Eles têm uma estrutura muito bem planejada do ponto de vista do legado. O centro de treinamento do Comitê Olímpico Peruano, chamado Videna (Villa Deportiva Nacional), vai receber grande parte das competições. Esse é um ganho muito interessante, porque às vezes você constrói uma instalação esportiva para o evento e depois precisa buscar sua ocupação. Por outro lado, você pode ter algumas perdas, como o local ser um pouco mais acanhado para abrigar as provas.

Fora conquistar o maior número de vagas olímpicas que serão distribuídas no Pan, quais são os objetivos do COB em Lima?

Podemos traçar inúmeros objetivos quando participamos de eventos dessa natureza, desde gerar oportunidades a novos atletas até fazê-los passar por experiências importantes. Como o nosso objetivo é a melhor participação brasileira nos Jogos Olímpicos, o meu olhar nos Jogos Pan-americanos está direcionado a aproveitar as possibilidades que temos de prepará-los.

Levamos estrategicamente a Martine (Grael) e a Kahena (Kunze) para Toronto 2015, mesmo sabendo que as condições de vento não eram as ideais, porque elas precisavam vivenciar um evento multiesportivo e conhecer o ambiente de uma vila antes do Rio 2016. Elas conquistaram a medalha de prata, mas aquela experiência as ajudou a serem campeãs olímpicas. A mesma lógica se aplica ao Thiago Braz, que zerou a prova de salto com vara, e foi ouro no Rio.

Falando no Thiago Braz, ele é um exemplo de atleta que até agora não repetiu o resultado do Rio 2016. O que ele e outros podem fazer para superar essa ressaca olímpica?

O processo de ressaca é normal, mas foi acentuado pelo nível de exposição dos Jogos Olímpicos no Brasil. Isso ocorreu com vários jovens que tiveram sucesso no Rio 2016, como Arthur Nory, Felipe Wu, Isaquias Queiroz, Erlon Souza, Martine Grael e Kahena Kunze. Esperávamos que durasse um ano, mas não aconteceu para alguns. As pessoas reagem de formas diferentes, em tempos diferentes. Por isso, a ação mais inteligente é entender como isso ocorre e estabelecer estratégias individualizadas.

Foi o que aconteceu com o Thiago que, no fim de 2017, manifestou dificuldades de continuar na Itália por questões pessoais. Insistimos mais um pouco, mas ele entendeu que o importante era estar no Brasil. A partir disso, buscamos soluções e a mais adequada era voltar a trabalhar com o treinador que o conhecia desde criança (Elson Miranda), mantendo uma base com o Petrov na Europa.

Projetando os Jogos de Tóquio 2020, você acredita que o fato de o Japão competir em casa pode dificultar a conquista de medalhas do Brasil no judô?

O judô japonês talvez tenha a maior supremacia olímpica em uma modalidade individual tão diversificada. O Japão tem chances de ganhar medalhas em todas as categorias, o que é fruto do excelente trabalho desenvolvido por eles e pelo reconhecimento do esporte dentro da sociedade japonesa. Para ter essa qualidade, é preciso uma quantidade enorme de praticantes. Com um trabalho muito bem organizado e planejado, eles vão chegar em condições espetaculares de performance na casa deles.

Mas a Confederação Brasileira de Judô (CBJ) tem profissionais experientes, e o Brasil é um dos países com maior nível de intercâmbio com o judô japonês. Estamos nos preparando para fazer o melhor, sabendo que há uma transição de gerações na modalidade.


Outra esperança de medalha nos Jogos Olímpicos é a Ana Marcela Cunha, que deve encontrar em Tóquio condições de prova que, na teoria, não a favorecem: águas calmas. Fora isso, a temperatura da água pode superar os 30°C. Como o COB tem se comportado nessa questão?

Tanto a Ana quanto o treinador dela (Fernando Possenti) são muito experientes. É preciso estudar as condições de competição e tentar simular o que será encontrado em Tóquio. A combinação que vamos enfrentar será difícil, mas igual para todo mundo. Você está combinando uma grande diferença de fuso horário, com uma temperatura ambiente extrema, em condições alimentares diferentes da que estamos acostumados. Então, é preciso estar muito bem adaptado.

Posso dizer que a Ana está se preparando bem e que é uma atleta como poucas no mundo, por manter bons resultados durante mais de dois ciclos olímpicos. Ela está indo para sua terceira participação nos Jogos, mas esse já é seu quarto ciclo. Em todas as vezes ela chegou em condições de brigar (por uma medalha) e será assim novamente em Tóquio. Tenho um respeito muito grande pelo seu trabalho porque sei da dificuldade de permanecer em condição de performance por tanto tempo nos dias de hoje. Isso precisa ser reconhecido.

A inclusão de novos esportes no programa olímpico deve ajudar o Brasil no quadro de medalhas, mas normalmente há uma dificuldade para lidar com as novas confederações. Como o COB vem encarando esse tipo de situação?

A proposta do Comitê Olímpico Internacional (COI) de se aproximar de novos esportes é muito interessante. Uma novidade para todos, para nós e para eles. Precisamos entender as dificuldades de relacionamento com as confederações nacionais e internacionais e trazer os atletas para esse modelo olímpico de competição, de modo que eles compreendam a importância de se dedicarem e participarem dos Jogos. Temos conquistados bons resultados internacionais principalmente no surfe, no skate e no caratê, mas não há facilidade nos Jogos Olímpicos.

Outro dia, estava sentado aqui com o Bob Burnquist (presidente da Confederação Brasileira de Skate) discutindo questões ligadas ao skate e depois tive uma reunião com o Charles Medina para finalizar a preparação que o Gabriel estava fazendo no Rio de Janeiro. Para nós, é extremamente motivante trabalhar com pessoas bem-sucedidas no que se propõem a fazer, que se dispuseram a conduzir a preparação de atletas ou entidades para levar o Brasil a uma participação nos Jogos. Então, não encontramos nenhuma dificuldade com treinadores e atletas nesse momento. Há apenas questões particulares de entidades, que vamos tratando no dia a dia.

Mais no Yahoo Esportes
Jemerson sonha com volta à Seleção
Time mais simpático do RS quer dar um passo à frente
Facebook perde transmissão exclusiva da Libertadores
Silvio Luiz sobre Milton Neves: ‘Ele me dá azia’

Leia também