‘Os atletas estão dando recados’, diz Diogo Silva

Marcelo Laguna
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Lutador de taekwondo, Diogo Silva. Foto: Instagram/@diogosilvatkd
Lutador de taekwondo, Diogo Silva. Foto: Instagram/@diogosilvatkd

Há em andamento no esporte olímpico brasileiro uma mudança, talvez pouco notada, de atitudes e comportamento. E isso não tem nada a ver com o desempenho em campos, quadras, piscinas ou pistas. Inspirados por exemplos do exterior ou animados com um espaço maior dentro dos confederações, os atletas do Brasil estão falando, se posicionando. Algo que seria impensável uma década atrás.

Uma das vozes mais atuantes e críticas entre os atletas do país, o ex-lutador de taekwondo Diogo Silva, ouro no Pan do Rio-2007 e duas vezes 4º lugar em Olimpíadas (Atenas-2004 e Londres-2012), enxerga que existe mesmo uma mudança de rota. Mas, segundo ele, está longe de ser recente.

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“Nós não criamos a roda. Só estamos fazendo esta roda andar mais rápido. Outros atletas que vieram antes de nós, como Sócrates, Ana Moser, Reinaldo, que já levantaram estas bandeiras, tentaram se articular. A diferença é que dependemos de um momento de amadurecimento do próprio país para poder debater determinados assuntos e alcançar certos lugares”, afirmou o ex-taekwondista.

Nome mais lembrado por seus pares para integrar a recém-eleita Comissão de Atletas do COB (Comitê Olímpico do Brasil), com 47 votos, Diogo Silva acredita que uma mudança ocorrida há oito anos está agora surtindo efeito para um maior posicionamento dos atletas brasileiros. “O movimento iniciado pela Atletas do Brasil lá em 2013, que obteve a vitória da modernização da Lei Pelé, possibilitou que todas as confederações olímpicas brasileiras tivessem 1/3 de atletas participando do processo eleitoral, além de acabar com a reeleição intermitente dos dirigentes”, comenta Diogo.

“Foi esse grupo, comandado pela Ana Moser, Raí, Joaquim Cruz, Hortência, entre outros, que venceu esta batalha. Nós agora estamos fazendo o polimento destas conquistas”, explicou. Estes avanços prosseguiram após a maior crise de credibilidade vivida pelo COB, quando da prisão e posterior renúncia de Carlos Arthur Nuzman, acusado de participar de um esquema de compra de votos do Rio de Janeiro para ser a sede dos Jogos de 2016.

Após o então vice Paulo Wanderley Teixeira assumir o COB, foi votado um novo estatuto, no qual o espaço da Comissão de Atletas aumentou de um representante para 12, além da criação do Conselho de Ética e do Conselho de Administração. Após uma revisão do estatuto, em 2019, o número de integrantes da Comissão de Atletas passou para 25, sendo 19 com direito a voto na Assembleia Geral da entidade.

“Democratizou-se o acesso dos atletas dentro do COB, fazendo parte das discussões dentro do próprio Comitê Olímpico. Isso nunca aconteceu e tivemos todos estes avanços em apenas três anos”, lembrou Diogo Silva.

Lutador de taekwondo, Diogo Silva. Foto: Instagram/@diogosilvatkd
Lutador de taekwondo, Diogo Silva. Foto: Instagram/@diogosilvatkd

Efeito pandemia

Fatores mais recentes, contudo, também tiveram influência indireta para amplificar a voz do atleta brasileiro. A pandemia do coronavírus, que parou o mundo do esporte em 2020, incluindo o adiamento da Olimpíada de Tóquio, foi um ponto de reflexão para muitos atletas. E incidentes que ocorreram no exterior também, como o Black Lives Matter (Vidas Negras Importam), que teve enorme repercussão nos Estados Unidos pela luta contra o racismo, além de ampliar as discussões sobre a desigualdade social.

Isso também acabou despertando por aqui um maior posicionamento. A pivô de basquete Damiris Dantas, que atua na WNBA, a liga profissional feminina, foi uma das novas vozes que apareceram na luta contra o racismo. “A semente foi plantada e depende de nós possibilitar a germinação dela e dos frutos que virão. Não conseguiremos nada a curto prazo, entendemos que é um planejamento a longo prazo”, aponta Diogo Silva, novamente indicando que o espaço maior dos atletas nas entidades esportivas pode sim permitir avanços em várias áreas.

“Temos que democratizar a informação e possibilitar que toda confederação brasileira, as 35, tenham sua comissão de atletas. Esse é o primeiro passo. Depois que estas comissões forem formadas, democratizar a eles o acesso de tudo o que é gerido no esporte. A partir daí, eles montarão suas pautas e debaterão internamente os processos, como fazemos dentro do COB.”

Diogo Silva durante a Olimpíada de 2012. Foto: Toshifumi Kitamura/AFP/GettyImages
Diogo Silva durante a Olimpíada de 2012. Foto: Toshifumi Kitamura/AFP/GettyImages

Maior liberdade de expressão

No esporte, um ponto que surgiu dos movimentos sociais espalhados por todo o plante foi a discussão da mudança da chamada “Regra 50”. Ela faz parte da Carta Olímpica, a “constituição” do Movimento Olímpico. Esta regra proíbe qualquer tipo de manifestação ou propaganda política, religiosa ou racial em qualquer evento olímpico. Há um clamor de muitos atletas para que a regra seja flexibilizada, de acordo com os tempos atuais.

“É uma pauta que já foi levantada em 2020 pelo COI, com a Comissão de Atletas Internacionais, a Atletas365. Comissões como as nossas existem em quase todos os países, são mais de 200 pelo mundo. Foi feito um levantamento mundial sobre a Regra 50. Foi o primeiro ato para rever essa norma, que está desatualizada em muitos pontos. Mas é uma discussão complexa. Para o Brasil, que apesar dos pesares ainda vive num regime dito democrático, temos um ponto de vista sobre ela. Mas um atleta da Arábia Saudita, que não vive numa democracia, tem outro”, afirmou Diogo Silva.

Internamente, contudo, esta questão esteve em evidência quando a jogadora de vôlei de praia Carol Solberg chegou a ser julgada por se manifestar contra o presidente Jair Bolsonaro, em uma etapa do Circuito Brasileiro. O “Fora, Bolsonaro” de Carol foi representativo, na opinião do ex-taekwondista.

“Foi um recado. Os atletas estão dando alguns recados e um deles é que há um desconforto com o governo brasileiro e sobre como estamos vivendo. Em todas as competições, existem regulamentos e normas de conduta. O vôlei tem uma norma diferente do taekwondo, que é diferente do basquete. Isso não é padronizado”, explicou Diogo.

Além de cada entidade determinar o seu próprio regulamento, ainda há a questão da diferença de tratamento para casos semelhantes. Recentemente, o técnico da seleção masculina de vôlei, Renan Dal Zotto, e o vice-presidente da CBV (Confederação Brasileira de Vôlei), Radamés Lattari, postaram em redes sociais foto com uma camisa do time brasileiro que seria dada de presente ao então candidato à presidência da Câmara Federal, deputado Arthur Lira. Ao contrário do que houve com Carol Solberg, a CBV não considerou este um gesto político.

“O que nós solicitamos é que se tenha um atleta participando da redação destas normas de conduta ou atualizar as existentes. Os dirigentes criam estas normas, que sempre os favorecem e desfavorecem o atleta. O atleta não pode se manifestar, mas um vice-presidente pode, por exemplo”, disse Diogo Silva.