Dez anos após ir à falência, Rangers está perto da maior glória

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O poço parecia não ter fundo para o Rangers. Após um inverno de três anos, a torcida invadiu Motherwell, pequena cidade no interior da Escócia, para o que parecia ser o dia da redenção em 2015: havia a chance de retornar à elite do futebol nacional.

Deu tudo errado. A equipe perdeu para o Motherwell por 3 a 0 e ficou na segunda divisão.

"Sabe o que é o pior de tudo? Este nem é o pior dia para o Rangers. Nem de perto", constatou para o jornal Folha de S.Paulo naquela tarde o ex-atacante Ally McCoist, lenda do clube e técnico naquela temporada. Enquanto dizia isso, torcedores do Motherwell passavam por ele e tiravam sarro. Gritavam "you’re not Rangers anymore" ("vocês não são mais o Rangers", em inglês).

Não eram mesmo. Em 2012, o Glasgow Rangers faliu e foi liquidado pelo governo britânico. Teve de nascer de novo como Rangers FC. Começou na quarta divisão escocesa. No primeiro treino para a temporada 2012/2013, apenas seis jogadores apareceram.

Dez anos mais tarde, o time está a 90 minutos de igualar a maior glória do Glasgow Rangers, campeão da Cup Winners' Cup (conhecida no Brasil como Recopa Europeia) em 1972. Decide nesta quarta-feira (18) a Liga Europa, o segundo mais importante torneio do continente, contra o Eintracht Frankfurt (ALE). A partida será em Sevilha, na Espanha, e será exibida ao público brasileiro na TV Cultura, no SBT e na ESPN 2.

O novo Rangers manteve no currículo os títulos do antigo Rangers por uma gentileza da federação do país. Continua a atuar no mítico estádio de Ibrox, e o uniforme é idêntico.

A caminhada de volta foi longa não só para o clube mas também para os torcedores. A partir da falência, o arquirrival Celtic foi campeão nacional nove vezes consecutivas. O primeiro jogo do Rangers FC foi um empate em 2 a 2 com o minúsculo Parkhead. A vitória por 5 a 1 sobre o East Stirling teve o recorde de público na história de um confronto da quarta divisão no futebol britânico: 49.118 pessoas estiveram presentes.

O Glasgow Rangers faliu por administração temerária. Pura matemática. Passou quase dez anos gastando mais do que arrecadava. Acreditava que classificações para a Liga dos Campeões refinanciariam o débito, o que nunca foi bastante. Como pagar 12 milhões de libras (R$ 74 milhões em valores atuais) pelo norueguês Tore Andre Flo ou 6,5 milhões de libras (R$ 40 milhões) pelo hoje esquecido lateral inglês Michael Ball e achar que vai se safar?.

Em fevereiro de 2012, não havia como pagar 9 milhões de libras (R$ 55 milhões) de impostos nem oferecer garantias de que quitaria 134 milhões de libras (R$ 826 milhões) em outros débitos. Mexeu com dinheiro do governo. Era o fim.

A torcida do Rangers é unionista no momento em que o sentimento de independência escocesa é o mais forte em décadas. Leva bandeiras do Reino Unido para os estádios. É a equipe que foi chamada de "desgraça" para o país na sua noite de maior glória. Após a vitória sobre o Dínamo de Moscou (RUS) e o título da Recopa europeia de 1972, torcedores invadiram o campo, as ruas da Catalunha, e quebraram tudo pelo caminho.

São oficialmente "não bem-vindos" em Manchester pelo mesmo motivo, após a derrota para o Zenit (RUS) na final da Liga Europa de 2008.

A rivalidade com o Celtic é vista como algo que vai além do futebol. É religiosa. Mas o Rangers ficou identificado com os protestantes quase por exclusão. Era o único que podia fazer frente ao Celtic, time dos irlandeses católicos que deixaram o país natal por causa da fome. A maioria dos aficionados do Rangers era protestante, como eram quase todas as outras agremiações, porque isso refletia a sociedade escocesa da época.

Não que a religião não influísse de verdade. Sir Alex Ferguson, lendário técnico escocês, afirma que a sua passagem como atacante do Glasgow Rangers, time do qual era torcedor, foi seriamente prejudicada quando os diretores descobriram que sua mulher, Cathy Ferguson, era católica. O clube durante décadas relutou em ter atletas canhotos por acreditar que chutar uma bola com pé esquerdo era característica dos católicos.

A contratação do artilheiro Mo Johnston em 1989 foi considerada um escândalo e dividiu a torcida. Ele foi o primeiro jogador abertamente católico a vestir a camisa do Rangers depois da Primeira Guerra Mundial (1914-1918).

Como força nacional, a equipe renasceu sob o comando de Steven Gerrard, hoje no Aston Villa (ING). Foi campeã escocesa em 2021, o primeiro título na elite após dez temporadas.

O sucessor, o holandês Giovanni van Bronckhorst, não conseguiu defender o título neste ano, conquistado pelo Celtic. Mas pode obter algo ainda maior. A campanha na Liga Europa é surpreendente. O Rangers eliminou Borussia Dortmund (ALE), Estrela Vermelha (SER), Braga (POR) e RB Leipzig (ALE) no caminho para a decisão.

Trata-se de um elenco sem grandes estrelas, com um veterano no gol (Allan McGregor, 40 anos). O nome mais conhecido do grande público está no meio-campo, o inglês Aaron Ramsey, emprestado pela Juventus (ITA). Na final, o time não contará com sua maior referência ofensiva, o colombiano Alfredo Morelos, lesionado.

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