Detento afirma que pegou coronavírus e teve AVC dentro de penitenciária em SP

Yahoo Notícias
Reprodução/Google Maps
Reprodução/Google Maps

“Eu tive muita febre de noite. Dava aquele calor, eu acordava com a camisa banhada de suor. Eu acordava, tirava a camisa, trocava a camisa e daqui a pouco dava calor de novo. Eu fiquei mais ou menos uns cinco, seis dias lá dentro dessa forma. Toda noite dava isso”, diz o detento Pedro Souza*, 59 anos, que afirma ter testado positivo para o novo coronavírus e sofrido um AVC (Acidente Vascular Cerebral) dentro do CPP (Centro de Progressão Penitenciária) Professor Ataliba Nogueira de Campinas, em São Paulo.

Desde o dia 1º de maio, ele está em casa, cumprindo prisão domiciliar por conta do diagnóstico que recebeu após dias sofrendo com sintomas da doença. Segundo ele, depois de alguns dias, ele sentiu outros sinais que o deixaram ainda mais preocupado. “Nos próximos dias, eu senti que o meu braço esquerdo ficou bobo. Eu não estava mais segurando nada. Aí eu fui na enfermaria”, afirma em depoimento ao Yahoo.

Role para baixo para continuar lendo
Anúncio

“Naquele dia, eles me levaram para o Mário Gatti [hospital municipal de Campinas] e deu que eu tive um AVC. Aí, chegou lá e perguntaram para mim se estava faltando o ar e eu disse que não, que não tava sentindo nada. Aí fizeram os exames e constou que, realmente, eu tava com coronavírus e que meu corpo já tinha anticorpos”, relata durante entrevista.

Leia também:

Após uma semana internado, Souza recebeu alta médica e foi buscado pelo filho para ir para casa ficar com a família. No entanto, ele afirma seguir preocupado com os amigos que ficaram dentro da penitenciária. “Várias pessoas lá têm o vírus. Um menino que morava na mesma cela que eu estava com o vírus também, mas saiu. Mas lá é um lugar meio escasso de higiene”, diz.

“São quase 3 mil pessoas lá e só tem duas enfermeiras lá que dão atenção pra gente. É um lugar difícil de viver. Não tem máscara, não tinha um álcool pra lavar a mão, não tem uma higiene de álcool, de nada… e se torna um lugar cruel”, afirma o detento que ficou um ano e dois meses morando no pavilhão F do centro de progressão.

Desde que foi para casa, ele comemora que não irá mais precisar voltar para a cadeia e relembra com tristeza dos momentos que passou. “Eu trato diabetes do tipo dois. Lá, eu sentia frio e, de repente, calor… até então, ninguém lá dentro tinha [coronavírus]. Só que começou a manifestar em mim. Eu ‘catarrei’ bastante, sabe? Eu tossia bastante. Isso era quase a noite toda… mas, graças a Deus, não tem mais nada disso”, diz.

Agora, ele afirma estar se cuidando e diz que não sente mais nenhum dos sintomas que tinha antes. “Eu estou fazendo um pouco de fisioterapia com a mão e com o pé. O menino vem aqui e me ajuda a andar em casa”, relata.

A reportagem entrou em contato com a SAP (Secretaria da Administração Penitenciária) para questionar sobre a situação do preso que alega ter sido contaminado dentro do centro e sobre as condições de higiene do local. Por meio de nota, a pasta afirmou que “as denúncias do egresso do sistema prisional não se sustentam frente à realidade”.

“Nem o então reeducando que diagnosticado com Covid-19 durante internação em hospital, nem os outros 11 presos tiveram resultado positivo para teste rápido no Centro de Progressão Penitenciária de Campinas, apresentam histórico de AVC”, afirma a SAP em seu posicionamento.

De acordo com a pasta, “as denúncias apresentadas pela reportagem são inverídicas”. “Todas as pessoas que circulam pelo CPP, incluindo reeducandos, usam máscaras. Todos os procedimentos de limpeza foram intensificados: há higienização dos ambientes administrativos, galerias e pavilhões habitacionais”, diz a nota.

“Há ainda fornecimento de kits de higiene pessoal aos presos e disponibilização de álcool em gel em todos os setores. A desinfecção no prédio é feita com solução de hipoclorito”, afirma a SAP. De acordo com a pasta, há 24 presos com Covid-19 no Estado. Desses, 10 faleceram e outros 68 estão isolados. 

“Nos casos suspeitos entre os presos, o paciente é isolado e a Vigilância Epidemiológica local é contatada. Os servidores em contato com o paciente devem usar mecanismos de proteção padrão, como máscaras e luvas descartáveis. Se confirmado o diagnóstico, além de continuar seguindo os procedimentos indicados, o preso será mantido em isolamento na enfermaria durante todo o período de tratamento”, diz a nota enviada à reportagem.

* o nome do detento foi trocado para preservar sua identidade e segurança.

Leia também