Detalhista, exigente e vitorioso: os 18 meses de Rogério Ceni no Fortaleza

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Ativo dentro e fora de campo, Rogério Ceni completa um ano e seis meses à frente do Leão (Foto: Fortaleza EC)
Ativo dentro e fora de campo, Rogério Ceni completa um ano e seis meses à frente do Leão (Foto: Fortaleza EC)

Por Afonso Ribeiro

Há exatos 546 dias, Rogério Ceni decidiu dar o segundo passo na carreira de treinador. Longe de casa, em uma nova região e em um novo Tricolor. Extremamente dedicado ao trabalho, adaptou-se fácil à cidade. Arregaçou as mangas para mudar o patamar do clube dentro e fora de campo. Multicampeão e líder como jogador, o paranaense de 46 anos já soma dois títulos como comandante, mantém o perfil de cobrança e vê uma nova estrutura no clube. Neste 10 de maio, Ceni completa um ano e meio como técnico do Fortaleza.

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"Eu fico contente porque a vida de treinador é muito complicada no nosso país. Tivemos duas semifinais de Champions League em que um treinador está há cinco anos no clube (Mauricio Pochettino, do Tottenham) e o outro está há quatro anos (Jürgen Klopp, do Liverpool), sem sequer ter vencido um título, nenhum dos dois. Dois caras que eu conheci, visitei e conversei. (...) Infelizmente, no nosso país, um cara que sobrevive 18 meses no cargo pode se considerar um vitorioso. Os títulos um dia vêm, de acordo com o trabalho que é feito. O que vale da vida não é o final dela, é como você viveu até o último dia. É assim que funciona. Eu fico feliz de dar essa continuidade nessa história que começou a ser construída no final de 2017 aqui no Fortaleza", refletiu o comandante tricolor, em entrevista coletiva após a classificação para a final da Copa do Nordeste.

O trabalho do ex-goleiro à frente do Leão do Pici já é histórico. Passa pela longevidade no cargo - a maior do clube nesta década -, construída no ritmo das obras e reformas no clube, solidificada pelos números e resultados em campo e tranquilizada pela discreta e pacata vida em Fortaleza nas (poucas) horas vagas.

O Yahoo Esportes ouviu dirigentes e funcionários do Tricolor do Pici e pessoas ligadas ao técnico para esmiuçar as mudanças implementadas desde a sua chegada, os efeitos desta duradoura união dentro do clube e os momentos de Rogério Ceni sem o boné, a prancheta e o apito.

A trajetória

Rogério Ceni e Fortaleza tiveram o primeiro contato em 29 de outubro de 2017, quando o ex-jogador visitou a sede do clube a convite de Bosco, antigo companheiro de São Paulo e então preparador de goleiros do Leão. Conheceu a estrutura e conversou com o então presidente Luis Eduardo Girão. Nos dias seguintes, o contato passou a ser com o então vice-presidente e diretor de futebol Marcelo Paz. Os dois se reuniram em São Paulo no dia 7 e, no dia 10 de novembro, Ceni bateu o martelo do acerto por WhatsApp.

No dia 15, feriado da Proclamação da República, foi apresentado à torcida e à imprensa na Arena Castelão. Na ocasião, Marcelo Paz chegou a afirmar que via o acerto sob a mesma ótica da ida de Ronaldo para o Corinthians, guardadas as proporções, em termos de evolução do clube e conquistas. Na breve passagem pela cidade, Ceni observou melhor as instalações do clube, tomou nota da situação do elenco para a temporada seguinte e passou a observar e indicar jogadores.

Rogério Ceni conhece o vestiário do Castelão no dia da apresentação ao lado do presidente Marcelo Paz e do diretor de futebol Daniel de Paula Pessoa (Foto: Eslley Lopes)
Rogério Ceni conhece o vestiário do Castelão no dia da apresentação ao lado do presidente Marcelo Paz e do diretor de futebol Daniel de Paula Pessoa (Foto: Eslley Lopes)

O trabalho em campo começou em 26 de dezembro. As contratações passavam sempre pelo crivo do treinador: ou indicações diretas ou aprovação dos nomes. O calendário da temporada tinha apenas Campeonato Cearense a Série B. Viveu momentos de turbulência no Estadual e acabou com o vice-campeonato. Na competição nacional, comandou a campanha histórica que culminou com o título inédito.

Ao fim do Campeonato Brasileiro, abriu a negociação para a extensão do contrato. Recebeu oferta de dois anos, mas, após uma semana de conversas, prolongou por apenas mais um, tocado pelas manifestações da torcida e motivado pela oportunidade de dar sequência no bom trabalho em um novo patamar.

Neste ano, já conquistou o título cearense, colocou o Tricolor na final do Nordestão e está na zona intermediária do Brasileirão após três rodadas - na Copa do Brasil, a equipe entra a partir das oitavas de final e encara o Athletico-PR.

Durante o período no clube, já recebeu sondagens e propostas de outros clubes (Athletico-PR e um clube turco, por exemplo, em 2018), mas optou pela continuidade do trabalho. A última oportunidade de saída foi para o Atlético-MG, no final de abril, mas o técnico recusou. O clube mineiro já tinha tentado um acordo no decorrer do ano passado e balançou Ceni, mas uma conversa com o presidente Marcelo Paz selou a permanência no Pici.

O efeito Ceni

Acostumado à estrutura do São Paulo, que se transformou durante os 25 anos em que esteve lá, Rogério Ceni sofreu um choque no novo clube. Mostrou compreensão com a situação na primeira visita e durante as negociações – o Fortaleza estava há oito anos na Série C –, mas encarou a nova realidade na prática. Detalhista, o treinador se preocupou com o gramado, alojamentos, refeitório, alimentação, logística de viagens...

Diante das dificuldades e necessidades do clube, o comandante quebrou a cabeça para encontrar soluções (Foto: Fortaleza EC)
Diante das dificuldades e necessidades do clube, o comandante quebrou a cabeça para encontrar soluções (Foto: Fortaleza EC)

Em período de chuva na capital cearense, entre final e início de ano, o campo do estádio Alcides Santos, sede do clube, estava em reforma para a instalação de drenagem. Foram raros treinos no local durante o ano passado. O CT Ribamar Bezerra, em Maracanaú, na Região Metropolitana de Fortaleza, tornou-se a nova casa. A privacidade e o espaço para as instalações agradaram ao comandante. Para suprir o dia a dia, o clube ativou os alojamentos e o refeitório e fez outras melhorias necessárias, como no campo principal.

As refeições ganharam atenção especial do treinador, tanto em qualidade quanto em quantidade. Os atletas passaram a jantar no local após os treinos, para que o clube tenha maior controle da alimentação. "O Rogério é muito ‘cricri’ com comida, até mais do que com coisas que, teoricamente, seriam mais importantes para um treinador de futebol", relata um funcionário do clube.

Pela localização geográfica de Fortaleza, o desgaste com o deslocamento nas viagens é outra preocupação do treinador. A pedido dele, a programação e os trajetos são sempre definidos de forma conjunta entre departamento de futebol e comissão técnica. Pelo assédio em aeroportos e hotéis Brasil afora, a presença do chefe de segurança Wellyson Galdino se tornou obrigatória como uma “sombra” do comandante.

O contato restrito com o público se estende ao ambiente interno. Rogério Ceni é descrito como "simpático" e “amistoso” com funcionários e dirigentes do clube, mas sem muita intimidade – com poucas exceções – e bastante exigente quando necessário. O mandatário do Tricolor admitiu um desgaste inicial pelas cobranças do campeão mundial. O treinador tem contato direto com o presidente Marcelo Paz, e os auxiliares Charles Hembert e Nelson Simões resolvem diversas questões no dia a dia para blindar o comandante.

O contato com a imprensa também é raro. Rogério só concede entrevistas coletivas após os jogos, por cerca de 15 minutos. As entrevistas exclusivas são escolhidas a dedo e sempre em momentos da temporada definidos pelo treinador – ele abre exceções para os profissionais que conhece da época de São Paulo ou com quem tem boa relação.

Em negociações com jogadores, Rogério Ceni costuma ser acionado pela diretoria para conversar por telefone com os alvos. Não foram poucas as vezes em que atletas foram apresentados e apontaram o contato com o treinador como fator importante para o acordo com o clube. O atacante Gustavo, emprestado pelo Corinthians em 2018 e artilheiro do país com 30 gols, já revelou que estava de férias nos Estados Unidos quando recebeu a ligação e pensava ser um trote.

"A maioria da geração de atletas de hoje viu o Rogério jogar, viu o auge dele. Por mais que não fossem são-paulinos, sabem o tamanho do cara. Então, uma ligação dele causa muito impacto. E ele é um cara extremamente articulado, inteligentíssimo, tem um poder de convencimento absurdo. Faz muita diferença", conta uma fonte ouvida pelo Yahoo Esportes.

Participativo nas reformas do Tricolor, o ex-goleiro chegou a se reunir com arquitetos e engenheiros para opinar (Foto: Divulgação)
Participativo nas reformas do Tricolor, o ex-goleiro chegou a se reunir com arquitetos e engenheiros para opinar (Foto: Divulgação)

No final do ano passado, Ceni externou a ideia da construção de um Centro de Excelência na sede, dando fim à estrutura de estádio. A sugestão agradou ao presidente, que teve a aprovação do Conselho Deliberativo e deu início às obras - ainda em execução. Serão construídos novo campo auxiliar, vestiário, piscina, sala para preleção e sala de odontologia, além da reforma do refeitório e ampliação do alojamento. Antes, uma nova academia já havia sido feita.

Entretanto, a principal mudança percebida dentro do clube em todo este período é comportamental – e também mental. Após oito anos consecutivos na Terceira Divisão, o clube estava acostumado a trabalhar sempre no limite – em termos de capacidade e financeiro – e pretendia se reorganizar com o retorno à Série B, selado em 2017.

A chegada de Rogério Ceni potencializou a mudança. Pela carreira vitoriosa e pelo nível de exigência, o treinador forçou o clube a funcionar em outra rotação – o número de funcionários, inclusive, praticamente dobrou em dois anos. A sede do comandante pelo título nacional em 2018 enquanto o restante do clube e a torcida já vibravam pelo acesso à elite do futebol nacional após 13 anos é citada como exemplo da mentalidade diferente.

“O Rogério fez com que todo mundo saísse da zona de conforto. Ele é um cara extremamente exigente, então simplesmente o que dá para fazer nem sempre é o suficiente para o que ele precisa fazer", diz um funcionário do Tricolor.

Lazer? Vista da praia e tênis

A discrição é a marca maior da vida pessoal de Rogério Ceni. Avesso às redes sociais – só usa WhatsApp, mas prefere ligações –, o treinador é caseiro e evita exposição de momentos íntimos com amigos ou familiares através de fotos ou vídeos.

Apesar do longo tempo no Estado, não conheceu as praias do litoral. O único contato com o mar é da vista do apartamento onde reside, em área nobre da cidade. Em uma das paredes, inclusive, o técnico colocou à vista um quadro dado de presente por um torcedor, no qual Ceni está pintado em tons de vermelho, azul e branco. O principal receio nas saídas de casa é o assédio do público para fotos, vídeos e até conversas. O treinador costuma se ausentar até de eventos do clube em razão disso – e pelo perfil workaholic.

O francês Charles Hembert é o braço-direito de Ceni e também companheiros nas partidas de tênis (Foto: Fortaleza EC)
O francês Charles Hembert é o braço-direito de Ceni e também companheiros nas partidas de tênis (Foto: Fortaleza EC)

Divorciado, Ceni mora sozinho - os auxiliares moram perto, assim como vários jogadores. Durante o período no Tricolor, já recebeu a visita dos três filhos - Henrique, mais novo, e as gêmeas Beatriz e Clara -, assim como do pai Eurides e de amigos. Conseguiu levá-los a jogos do Fortaleza e, em raro momento livre, para jantar na Beira-Mar.

O único lazer do treinador na cidade é outro esporte: o tênis. Amante do jogo, vê a prática como uma válvula de escape para o estresse da rotina e uma forma de cuidar da saúde por meio do exercício físico. Quando a agenda permite, Rogério costuma movimentar a raquete e a bolinha às segundas-feiras, em um clube próximo ao apartamento. O auxiliar e braço-direito Charles Hembert e o diretor médico do Fortaleza, Cláudio Maurício, são companheiros frequentes nas partidas.

Técnico mais longevo da década

Rogério Ceni já é o técnico mais longevo à frente do Fortaleza nesta década e o segundo com maior número de jogos, perto de assumir a liderança – o que deve ocorrer em junho. O topo da lista pertence a Marcelo Chamusca, atualmente no CRB.

Adorado pela torcida, Ceni deve ser tornar o treinador com maior número de partidas nesta década à frente do Fortaleza (Foto: Fortaleza EC)
Adorado pela torcida, Ceni deve ser tornar o treinador com maior número de partidas nesta década à frente do Fortaleza (Foto: Fortaleza EC)

Chamusca comandou o Tricolor em 86 partidas entre 2014 e 2015, mas houve um breve intervalo entre as duas passagens. Foram 49 triunfos, 28 empates e nove derrotas, com aproveitamento de 67,8%.

Campeão brasileiro e estadual no Leão, Ceni já esteve à frente da equipe em 80 partidas, com 46 vitórias, 15 empates e 19 derrotas, que resultam em um aproveitamento de 63,7%.

Em 2018, foram 33 resultados positivos, nove igualdades e 14 reveses em 56 duelos. Na campanha do vice-campeonato estadual, o time obteve 12 vitórias, um empate e cinco derrotas em 18 confrontos. Já na caminhada do troféu nacional foram 21 triunfos, oito empates e nove derrotas em 38 partidas.

Neste ano, a equipe tricolor já entrou em campo 24 vezes por três competições e somou 13 vitórias, seis empates e cinco derrotas. A trajetória vitoriosa no Cearense foi construída com sete vitórias, dois empates e duas derrotas em 11 jogos. Finalista da Copa do Nordeste, o Leão soma cinco vitórias, quatro empates e uma derrota em dez partidas. Já no Brasileirão foram duas derrotas e uma vitórias em três duelos.

A primeira vez contra o São Paulo

Além da data marcante pelo trabalho à frente do Fortaleza, o mês de maio reserva outro momento especial para o treinador: o primeiro duelo contra o São Paulo, neste domingo, às 19h, na Arena Castelão, pela Série A. Durante quase três décadas como jogador e seis meses como treinador, Rogério Ceni defendeu o Tricolor Paulista e se tornou o m1to.

Como guardião da meta do clube do Morumbi foram 1237 jogos e 131 gols marcados, que o colocam como maior goleiro-artilheiro da história. Já no comando técnico foram 35 partidas oficiais, com 14 vitórias, 11 empates e dez derrotas – aproveitamento de 50%.

"Para mim, é um grande prazer porque é um clube que eu tenho um carinho e respeito muito grande. Na posição de treinador, você vai ter que enfrentar também seu ex-clube, que deu tanta alegria para mim e há uma reciprocidade com a torcida são-paulina. Mas nós vamos enfrentar o São Paulo e tentar buscar a vitória", afirmou o técnico.

"O São Paulo está com uma equipe muito boa, com garotos subindo da base novamente, boas contratações, bastante dinheiro injetado nesses últimos dois anos. É um clube que parece ter encontrado um caminho para esse Campeonato Brasileiro", opinou.



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