A guerra é racista: por que Destacamento Blood é um dos favoritos ao Oscar 2021

Thiago Romariz
·4 minuto de leitura
Spike Lee (esq.) com seu elenco durante as filmagens de 'Destacamento Blood'. Foto: Divulgação / Netflix
Spike Lee (esq.) com seu elenco durante as filmagens de 'Destacamento Blood'. Foto: Divulgação / Netflix

Por Thiago Romariz* — A força dos filmes de Spike Lee sempre esteve na contextualização e propriedade com que falam sobre racismo, segregação social e outros inúmeros problemas. Só essa abordagem, nua e crua, o faria ser um dos cineasta de maior destaque da geração; mas é a capacidade de envolver estes temas em narrativas atuais, em roteiros ágeis e ilustrados com personagens tão críveis que faz suas histórias serem exemplo da cultura pop contemporânea.

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Em Destacamento Blood isso se repete com elementos de filmes de guerra e caça ao tesouro se misturando ao movimento Black Lives Matter, o que torna o filme tão divertido quanto obrigatório – e já de cara um dos favoritos a figurar no Oscar 2021.

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É lógico que, pelo momento, o discurso de Lee sobre racismo e os problemas estruturais da sociedade estadunidense fica potencializado. Mas é incrível como, mesmo discutindo sobre um passado longínquo ou acontecimentos das últimas décadas, o tema permaneça atual e não-resolvido. A abertura do filme exagera na estética violenta e dá indícios ao espectador do horror que será discutido – e, de fato, a exploração das minorias é o foco de Destacamento, mas o diretor esquece a brutalidade visual ao longo das 2h35 de filme e foca nas dores psicológicas que a segregação traz.

O roteiro, escrito por Lee e seu parceiro de Infiltrado na Klan, Kevin Willmott, fica centrado na dinâmica dos 5 Bloods, os cinco soldados pretos que foram ao Vietnã lutar pelos EUA e encontram uma fortuna escondida em destroços da guerra. No meio disso, um deles é morto e para honrar o combate, anos depois, os quatro sobreviventes decidem voltar ao país.

A partir daí, Destacamento praticamente deixa o sangue da guerra pontuar momentos importantes da história e dá destaque à amizade do grupo e aos devaneios que os traumas de guerra trazem a cada um deles. Ao desenhar subtramas de outros personagens, o filme estica a corda e deixa evidente que suas quase três horas são o calo da narrativa, mas em momento algum se perde na história que apresenta. A jornada se encerra com louvor, por mais cansativa que ela pareça em alguns momentos.

A atuação de todo o grupo é exemplar, mas o destaque vai para Delroy Lindo, o veterano angustiado e que volta ao lugar que nunca deixou sua mente. A forma como o ator equilibra o senso de humor ácido e os traumas de combate chegam ao ápice em uma cena de delírio que deve lhe render indicações na temporada do Oscar 2021. E a partir desta sequência, Destacamento discute o legado das ações destes soldados e os questiona sobre a efetividade da luta que eles tiveram durante anos. "Nós fizemos tudo que podíamos ou só lutamos pelo bem próprio?", parece dizer o roteiro.

A autocrítica que Lee impõe, sem descredibilizar qualquer luta atual, engrandece o longa de forma inesperada e torna o grupo ainda mais humano e relacionável. E mesmo que seja duro e não faça cerimônias para criticar o momento atual, Lee se mantém como um dos poucos cineastas a questionar nossas ações ao mesmo tempo que nos faz rir, chorar e levar sustos. O que no fim das contas é o melhor e mais longevo tipo de entretenimento.

*Thiago Romariz é jornalista, professor, criador de conteúdo e atualmente head de conteúdo e PR do EBANX. Omelete, The Enemy, CCXP, RP1 Comunicação, Capitare, RedeTV, ESPN Brasil e Correio Braziliense são algumas das empresas no currículo. Em 2019, foi eleito pelo LinkedIn como um dos profissionais de destaque no Brasil no prêmio Top Voice.

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