Despreparo no retorno das aulas em escolas das periferias preocupa pais e professores

Alma Preta
·4 minuto de leitura
No período de preparação para retomada das aulas presenciais, 80 escolas do estado de São Paulo contabilizaram 147 infectados pela Covid-19; conforme apurado pela reportagem, há problemas como falta de profissionais para limpeza das salas de aula. Foto: Secretaria Estadual de Educação de São Paulo
No período de preparação para retomada das aulas presenciais, 80 escolas do estado de São Paulo contabilizaram 147 infectados pela Covid-19; conforme apurado pela reportagem, há problemas como falta de profissionais para limpeza das salas de aula. Foto: Secretaria Estadual de Educação de São Paulo

Texto: Juca Guimarães Edição: Nataly Simões

As escolas estaduais de São Paulo retornaram às aulas presenciais a partir desta segunda-feira (8). Na semana passada, professores e funcionários fizeram atividades nas escolas, distribuição de material e repassaram as medidas de segurança elaboradas por profissionais das AMEs (Ambulatório Médico de Especialidades). Segundo o sindicato da categoria, no período de preparação para o retorno foram registrados 147 casos de Covid-19 em 80 escolas. Diante disso, os profissionais decidiraram por uma greve sanitária. Parte dos pais, por sua vez, se preocupa com o risco de aumento do contágio, especialmente nas periferias.

Leia também:

“Acho que é um erro voltar. Os alunos e as nossas famílias vão ficar mais expostos”, diz uma mãe, que tem dois filhos adolescentes matriculados na Escola Estadual Parque Santos Dumont, no bairro do mesmo nome, em Guarulhos, na região metropolitana. Na escola, segundo o sindicato, são apenas duas funcionárias encarregadas da limpeza nos períodos da manhã, tarde e noite. A mãe diz ainda que, por conta da estrutura “de latão”, a escola é muito quente e a circulação de ar é ruim.

A situação é a mesma na escola Leonor Quadros, no Jardim Miriam, periferia da Zona Sul da capital paulista, onde também há apenas duas pessoas responsáveis pela limpeza de 44 salas, nos três turnos de aulas. “Estamos à mercê de um sistema que exige resultados sem fornecer meios para isso”, desabafa um funcionário.

Ainda na Zona Sul, a Escola Estadual Martins Pena, no bairro de Cidade Ademar, ficou sem energia elétrica desde setembro de 2020. “Só arrumaram agora, às pressas, por causa da volta às aulas. Não estamos preparados para receber alunos, foi feita uma grande reforma mas os equipamentos de segurança ainda estão precários e não temos máscaras para professores ou alunos”, revela uma funcionária. Segundo a profissional, a situação deixa pais e professores “inseguros, angustiados, mas sem escolha”.

Outra escola que aparenta despreparo para o retorno das aulas presenciais está localizada em Guaianases, na Zona Leste. Os funcionários da escola Rocca Dordall afirmam que o retorno das aulas acontece diante de um cenário de falta de material de limpeza. “Teve a semana de atividades dos professores, mas não tinha material para a limpeza da escola”, relata um professor.

Protocolo de segurança só funciona no papel

Na rede municipal da cidade de São Paulo, as aulas presenciais estão previstas para retornar na semana seguinte. A prefeitura prepara um retorno com aulas híbridas, online e presencial, live com os pais para explicar a situação e medidas de segurança para garantir a higiene. Em janeiro, entre os dias 11 e 29, foram realizadas aulas de reforço e recuperação em 46 unidades com cerca de 11,3 mil alunos.

“O protocolo no papel é lindo, mas na prática a dinâmica da escola é outra. Estão com uma abordagem muito técnica e pouco humana. Estou apreensiva”, diz uma professora.

Ainda segundo professores, na Escola Municipal Isabel Vieira Ferreira, no Parque Primavera, periferia da Zona Sul, a semana de preparação para a retomada das aulas presenciais gerou insegurança. “O planejamento de retorno presencial e o protocolo estipulado pela AME foram impostos sem o mínimo de criticidade. Sem levar em conta as limitações da escola”, relata uma funcionária.

A mãe de um aluno afirmou que o retorno é “importante porque as crianças já estão há muito tempo longe da escola”, por outro lado, ela teme que a volta às aulas acabe “piorando ainda mais a crise causada pela pandemia”.

A deputada estadual Bebel Noronha (PT), presidente do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (APEOESP), informou que a categoria quer manter o trabalho remoto até que se tenha condições realmente seguras para receber os alunos nas escolas. A orientação é que os professores enviem requerimento às escolas informando sobre a adesão à greve por questões sanitárias e sobre a disponibilidade para a realização do trabalho remoto.

“Em todas as escolas em que teve caso de Covid-19 na última semana foram realizadas atividades presenciais com professores e funcionários seguindo protocolos. Imagine o que vai acontecer com a volta de milhões de alunos”, argumenta Bebel. Ao todo, existem mais de 5.200 escolas estaduais em São Paulo.

Procuradas pela agência Alma Preta, a Secretaria de Educação do Estado e a Prefeitura da capital não comentaram os problemas relatados por professores e funcionários à reportagem.