"Meu ex voltou para casa": mães contam desafios da guarda compartilhada na quarentena

Mães contam desafios da guarda compartilhada na quarentena. Foto: Getty Images
Mães contam desafios da guarda compartilhada na quarentena. Foto: Getty Images

Por Vladimir Maluf (@vladmaluf)

Brena Almeida está separada há três meses e meio do ex-marido. A filha deles tem um ano e 11 meses. "A quarentena pegou a gente no momento mais difícil para mim e para minha filha: a separação. Antes, a gente chegou a um consenso de que ela ficaria um final de semana com cada um e alguns dias da semana com o pai, mas moraria comigo."

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Logo em seguida, porém, o combinado ficou inviável. Com o isolamento social, Brena, que trabalha no departamento pessoal de uma multinacional, passou a atuar de casa, a escolinha fechou e o ex também precisou trabalhar remotamente. "Eu preciso cumprir horário, das 7h30 às 16h30, na frente do computador. Com uma criança pequena, é difícil."

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Os dois tentaram várias soluções: "Primeiro, ficarmos na casa dele, mas não deu certo. Minha filha estranhou a mudança total de ambiente e eu e meu ex estávamos brigando, pois me sentia sobrecarregada", conta ela -- que ficou lá apenas quatro dias. "Depois, a gente tentou que ela ficasse com ele nos finais de semana, mas comecei a me prejudicar no trabalho." Daí, tentaram fazer como seria antes do coronavírus: a menina ficaria com o pai uns dias da semana e alguns dias com a mãe. "Mas, aí, nenhum dos dois conseguia trabalhar direito. Estávamos nos ferrando, eu e ele."

Foi aí que veio a decisão que, segundo Brena, deu supercerto até agora: "Ele fica aqui no meu apartamento. Pelo menos, nenhum dos dois se ausenta 100% do trabalho, minha filha continua na casa dela, com as coisas dela, os brinquedos dela. A gente se divide: se tenho reunião, ele a distrai e vice-versa." 

Brena diz que, apesar da convivência forçada, na fase do luto da separação, os dois estão decididos a fazer o que for melhor para a criança. "Se é o modelo ideal, eu não sei. Os conflitos da separação nós deixamos em segundo plano. Do nada, minha filha perdeu a rotina, parou de ir para a escola, de brincar com os amigos, não pode sair de casa. É muito difícil explicar essa situação para uma criança menor de dois anos. A gente, que é adulto, entende o que está acontecendo. Ela, não." 

Video chamada para matar a saudade

Juliana Santana tem uma filha de oito anos e está desempregada há um ano. A menina é muito apegada ao pai, mas não está podendo vê-lo. "Ele é técnico de enfermagem, trabalha em hospital e precisa pegar ônibus todos os dias. Como minha filha tem asma, é arriscado para ela continuar a ter contato com o pai." Juliana mora com a mãe e conta que, por isso, não vê problemas em ficar com a filha o dia todo. "Eu estou sem emprego, ela já está grande, não dá trabalho...  Aqui em casa, somos três mulheres. Então, para cuidar dela, não está sendo difícil. O problema é a saudade que ela tem do pai." 

A solução que eles encontraram foi conversar por video chamada, sempre que o pai pode. "Ele está trabalhando feito um louco, mas a gente dá um jeito". O ex-casal também não achou seguro o pai ver a filha nem à distância. "Pensamos que ele poderia vir no corredor do prédio, vê-la, mas, como ele trabalha na área da saúde, poderia ser arriscado para outros moradores e até para as pessoas que ele pode encontrar no caminho."

A filha está muito orgulhosa do pai e compreende bem a situação, apesar de ficar chateada, conta Juliana. "Ela me fala para eu não me preocupar, mesmo quando a pego chorando de saudade, pois ela diz que entende que o papai dela é um herói."

Mais gastos, menos dinheiro

Carla Lopes, analista de comércio exterior, tem duas filhas gêmeas, de dez anos. Ela e o ex-marido dividem os cuidados das meninas em regime de guarda compartilhada. Com o isolamento social, tudo está mais difícil. O pai está trabalhando e a escola está com as aulas suspensas.

"Minhas filhas dormiam com ele em dias intercalados e finais de semana intercalados, também. Como estou fazendo home-office, ele deixa as crianças todo dia de manhã comigo, vai trabalhar e, na volta, nos dias dele, pega as duas para dormir lá. Os finais de semana continuam iguais."

Ele precisa estar no escritório a semana toda e não tem como fazer home-office  -- mas fica isolado, sem funcionários e vai e volta de carro. Elas, enquanto isso, passam o dia com Carla -- até à noite. "Elas almoçam e jantam comigo todos os dias. Por isso, o que eu gastava de mercado em um mês, agora, eu gasto por semana. Sem contar que eu preciso trabalhar, cuidar delas, fazer almoço, jantar, sair para fazer compras, cuidar da casa..." 

O ex-marido, conta Carla, não está pagando a pensão integralmente. "Ele é contador e, como atende comerciantes, e quase todos são pequenos, não está recebendo de muitos clientes. Então, as contas aumentaram aqui em casa, mas a entrada de dinheiro diminuiu."

Problemão, mas não para o filho

Ana Carolina Oliveira tem um filho de quatro anos e meio. Ela e o ex-marido estão separados há um ano. Ana trabalha com TI e, antes do isolamento, já atuava em casa. O ex está desempregado. "Como o pai do meu filho já não estava trabalhando, ele levava e buscava nosso filho na escola, todos os dias, para eu poder trabalhar. Ele mora com a mãe dele e, como não paga pensão, minha ex-sogra ajudava fazendo o almoço dele todos os dias depois da escola."

O ex-casal se dá "relativamente bem", segundo Ana, mas não a ponto de voltarem a morar juntos. "Não tem condições emocionais, para ambos, e seria um gasto maior para mim, sozinha, com o qual não posso arcar. Meus trabalhos devem diminuir e minha renda mensal já caiu. Não sou registrada, não tenho nenhuma segurança trabalhista, caso fique sem clientes."

A solução que os dois encontraram está sendo divertida, principalmente, para a criança. "Minha ex-sogra faz o almoço para nós, todos os dias, e meu ex traz aqui -- ela é uma santa, é como uma mãe para mim. Nós comemos todos juntos e, depois, o pai do meu filho passa a tarde com ele, brincando, enquanto eu trabalho."

Apesar das dificuldades, Ana diz que tem conseguido lidar bem com a presença do ex em casa e a convivência do ex-casal até melhorou. "Eu não aguentaria deixá-lo com o pai a semana toda, nem meu menino. Somos grudados. Também não tem como eu ir para a casa da minha sogra, pois lá é pequeno e preciso do meu computador. Do jeito que está é meio atrapalhado, mas estamos com saúde e seguros, que é o mais importante." 

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