Depois de 12 anos de críticas e denúncias, o Qatar realiza sua Copa do Mundo

DOHA, QATAR (FOLHAPRESS) - Quando, em dezembro de 2010, o Qatar foi anunciado como sede do Mundial de 2022, a desolação tomou conta de todos os integrantes da candidatura norte-americana, considerada favorita. Todos, menos um.

"É impossível o Qatar receber um evento como a Copa do Mundo. Eles [a Fifa] vão vir até nós. Vamos ser a sede", acreditava o presidente da federação local, Sunil Gulati.

Doze anos depois, a previsão do dirigente não virou realidade. Pelas ruas de Doha, capital do Qatar, a mensagem de que o torneio está prestes a começar pode ser vista em todos os cantos. As bandeiras do país se misturam à imagem de La'eeb, o mascote do torneio, ao lado de palavras como amazing (incrível, em inglês), celebrate (celebre, em inglês) e Haya, termo árabe que designa decência, modéstia e faz referência também ao "Hayya Hayya", música tema da Copa.

"É uma vitória para todos os que acreditam que um país islâmico e árabe pode receber a Copa do Mundo", disse à Folha de S.Paulo, no início de 2020, o secretário-geral do Comitê para Execução e Legado do Mundial de 2022, Hassan Al Thawadi.

A candidatura do Qatar sobreviveu a denúncias de corrupção, Fifagate, bloqueios comerciais de nações vizinhas, medo do calor, acusações de desrespeito aos direitos humanos e de fazer o maior sportswashing da história. A palavra sintetiza o uso do esporte por um governo ou país para mudar sua imagem diante da comunidade internacional.

O discurso da organização, mesmo a quatro dias do primeiro jogo, não mudou. Os visitantes devem se adaptar ao Qatar. Não o contrário. Isso não foi colocado a prova até o momento porque são poucos os turistas visíveis nos principais pontos de Doha. A organização tem certeza que isso vai mudar nos próximos dias.

"Se a imprensa mostra o que é sportswashing, deixa de ser sportswashing porque isso começa a alertar as pessoas sobre o que está acontecendo. Perde a eficácia", afirma Agnès Callamard, secretária-geral da Anistia Internacional no Reino Unido, a ONG que mais denunciou casos de violação de direitos humanos no Qatar na última década.

Receber a Copa do Mundo, ser dona do Paris Saint-Germain (FRA) -a equipe de Neymar, Messi e Mbappé- e investir bilhões de dólares no futebol são peças de um quebra-cabeças para entender o que a família real do país deseja. Se o Qatar realiza sportwshing, trata-se de uma escala jamais vista.

Doha é um canteiro de obras. Desde a construção ou reformulação de oito estádios, passando por obras de infraestrutura, erguer prédios e uma cidade nova em folha (Lusail), a nação tem um projeto que vai além de receber um torneio de futebol, por maior que este seja.

O governo local conseguiu até o que era considerado inimaginável: mudar a data da competição. Passar de junho-julho, verão qatari com temperaturas superiores a 50ºC, para o final do ano.

"A candidatura do Qatar para abrigar a Copa do Mundo faz parte de uma estratégia, uma maneira de se engajar com o mundo, construir relacionamentos e criar interdependência com outros países. O Qatar se tornou um legítimo e importante membro da comunidade internacional, em parte por receber o Mundial", analisa Simon Chadwick, professor de Economia Geopolítica na Skema Business School em Paris.

O Mundial é parte de plano para que, em 2030, o Qatar seja reconhecido também como um polo turístico, reduzindo a dependência da extração de petróleo e gás natural, o pilar da economia nacional.

A estratégia tem a chancela do emir Tamim bin Hamad Al Thami. Sua foto está em todos os lugares em Doha. Muitas vezes ao lado do pai, Hamad bin Khalifa Al Thani, que assumiu o poder em um golpe de estado em 1995.

Em alguns pontos, ainda é possível encontrar imagens penduradas após o Mundial de 2018, em que o emir está acompanhado do presidente da Rússia, Vladimir Putin, anfitrião do torneio naquele ano, e do mandatário da Fifa, Gianni Infantino.

Ser mais influente, para o Qatar, também significa ter proteção contra os inimigos. Dois deles estão do outro lado da fronteira: Emirados Árabes e Arábia Saudita iniciaram bloqueio contra a sede do Mundial de 2022 por, supostamente, apoiar o terrorismo, algo que o Qatar sempre negou. O assunto foi resolvido apenas em 2021, também com esforços diplomáticos da Fifa.

Não que todos os dirigentes da entidade fossem tão simpáticos à ideia árabe de realizar o evento.

"Para mim, está claro: Qatar foi um erro. A escolha foi ruim", disse o ex-presidente da Fifa, Sepp Blatter, para o jornal suíço Tages-Anzeiger.

Blatter preferia a vitória dos Estados Unidos e tinha acordos políticos para isso. Mas o presidente da Federação Asiática e integrante do comitê executivo da Fifa era o qatari Mohammed bin Hammam. Com receio de perder o poder pela influência do rival e o dinheiro da candidatura do Qatar, o então mandatário cedeu.

Hammam foi banido do futebol em 2014 após serem vazados para a imprensa documentos de que ele participou do pagamento de propinas a membros da Fifa para tentar se candidatar à presidência.

Nos últimos dias, Infantino pediu que as pessoas esqueçam as denúncias a respeito dos direitos humanos e da comunidade LGBTQA+ e foquem apenas no futebol. A declaração provocou reações de entidades internacionais.

Diante das reclamações sobre as condições de trabalho da força imigrante no país, que rvebe baixos salários e, no verão, trabalham sob calor superior a 50ºC, o governo do Qatar responde que a Copa do Mundo foi a força para mudanças. Provocou alterações na legislação trabalhista e nas regras para a imigração. Para a Anistia Internacional, estas foram pequenas, sem terem sido totalmente colocadas em prática e terão consequências duvidosas.

A candidatura sobreviveu até ao relatório do advogado americano Michael Garcia, contratado pela Fifa para fazer uma investigação independente do processo de escolha das sedes para os últimos mundiais e apurar denúncias de corrupção. No final de 2014, ele deixou a entidade alegando "falta de liderança", mas produziu um relatório que as autoridades do futebol relutaram em liberar na íntegra. Era a esperança dos que queriam a mudança do local do Mundial de 2022.

Mas Garcia apontou que não apenas o Qatar cometeu atitudes impróprias para obter votos. Outras candidaturas também. Inclusive a dos Estados Unidos.

De novo, o Qatar venceu os críticos e opositores. Por causa disso será, como as pessoas em Doha não se cansam de repetir, o primeiro país árabe a receber o maior evento do esporte mundial.

"A Copa do Mundo não é exclusiva de uma região; É um evento de todos. Todos têm o desejo de sediá-la e devem ter esse direito. Nós queremos fazer isso para o mundo árabe", disse Al Thawadi à Folha de S.Paulo há quase três anos.