Denúncia contra Glenn Greenwald é ataque claro contra a liberdade de imprensa

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O jornalista Glenn Greenwald, do site The Intercpet. Foto: Adriano Machado/Reuters
O jornalista Glenn Greenwald, do site The Intercpet. Foto: Adriano Machado/Reuters

No dia 18 de dezembro de 2019, a Polícia Federal concluiu um inquérito relativo à invasão das contas do Telegram do ministro Sergio Moro e de procuradores da Lava Jato, entre eles Deltan Dallagnol.

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Seis pessoas foram indiciadas sob a suspeita de participação em organização criminosa, invasão de dispositivo informático e interceptação de mensagens privadas. O material recolhido havia dado munição, seis meses antes, para a chamada Vaza Jato, série de mensagens divulgada pelo site The Intercept Brasil entre o então magistrado e os membros da força-tarefa em Curitiba. 

Fundador do site, o jornalista americano Glenn Greenwald não foi indiciado por crime algum. Segundo a  PF, inclusive, ele se mostrou cauteloso quanto a não participação do suposto crime. A relação, apontava o relatório, era de fonte e jornalista.

Essa relação sempre baseou grandes reportagens que, sem risco de exagero, muitas vezes mudaram o curso da história. Uma das mais famosas foi a que levou à renúncia do presidente dos EUA, Richard Nixon, após a revelação do Washington Post sobre o caso Watergate. A fonte, Mark Felt, ocupava o segundo cargo mais importante do FBI, e municiou os jornalistas Bob Woodward e Carl Bernstein com vazamentos das investigações sobre o então presidente americano.

Apesar da conclusão da PF a respeito da relação entre jornalista e fonte do caso Vaza Jato, Greenwald foi denunciado nesta terça-feira (21) pelo Ministério Público Federal na esteira da operação Spoofing. Responsável pela publicação das informações, de incontestável interesse público, ele é acusado de associação criminosa, mesmo sem ter sido investigado ou indiciado durante as apurações. 

A seu favor havia uma liminar concedida pelo ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, que determinava que o jornalista não poderia ser investigado naquela ação. Segundo o MPF, porém, novos indícios surgiram contra ele ao longo das investigações. A denúncia sem investigação seria assim justificada: Glenn "auxiliou, orientou e incentivou" o grupo de hackers suspeito de ter invadido os celulares das autoridades. A orientação? Uma mensagem na qual orientava o interlocutor a apagar o conteúdo para proteger o sigilo da fonte.

A convicção do procurador Wellington Divino Marques de Oliveira não carece só de provas. Carece de nexo.

A denúncia é uma clara tentativa de intimidação do trabalho jornalístico, já decretado como extinto pelo presidente Jair Bolsonaro, autor de 58% dos 121 ataques sofridos por profissionais de mídia em seu primeiro ano de mandato.

Na véspera da denúncia, o ex-juiz e hoje ministro da Justiça Sergio Moro chamou de bobagens as conversas que ele diz não reconhecer a autenticidade. Ele também viu com naturalidade as ofensas praticadas pelo chefe contra o jornalismo profissional. Apenas um caso de “ação e reação” -- uma reação que manda repórter calar a boca quando instada a prestar contas de seu trabalho.

Wellington Divino Marques de Oliveira é o mesmo procurador que acusou o presidente da OAB, Felipe Santa Cruz, por calúnia contra Sergio Moro, conforme lembrou a colunista da Folha de S.Paulo Mônica Bergamo.

Em 2016, numa ação aparentemente menor e que hoje parece esquecida, o próprio Moro, quando juiz, quebrou sigilo telefônico do jornalista Eduardo Guimarães para chegar aos responsáveis pelo vazamento de informações sigilosas relativas a uma ação da PF contra Lula. 

Nos dois casos houve uma tentativa de definir o que era ou não jornalismo, num esforço claro de intimidação e criminalização da atividade.

Desta vez, a repercussão foi imediata. 

Pelas redes, apoiadores de Bolsonaro comemoravam como se não houvesse amanhã, entre eles seu filho Eduardo e o empresário Luciano Hang. O próprio Bolsonaro já havia dito, meses atrás, que o jornalista talvez pegasse uma cana no Brasil.

“Nada como um dia após o outro”, celebrou Mario Sabino, do site O Antagonista -- que dias antes foi tema de reportagem do próprio Intercept sobre a proximidade indevida com os membros da Lava Jato. 

É bem provável que a acusação dê em nada, com o indeferimento de qualquer juiz ou ministro de cortes superiores com um mínimo de bom senso.

Em todo caso, como lembrou a jornalista Tai Nalon, Glenn Greenwald tem amparo internacional e recursos garantidos para se defender, na medida do possível, das tentativas de cercear seus direitos. Os próximos alvos, porém, podem não ter os mesmos privilégios. Ela conclui: não existe liberdade de imprensa seletiva. “Só é liberdade se não houver distinção”.

Pode ser tarde demais quando as pessoas que agora vibram por ver o jornalista que não gosta em apuros perceberem que tudo isso diz respeito também a elas.

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