Sem Sergio Moro, governo Bolsonaro não acaba. Mas desaba

Matheus Pichonelli
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Jair Bolsonaro e o agora ex-ministro da Justiça Sergio Moro. Foto: Buda Mendes/Getty Images
Jair Bolsonaro e o agora ex-ministro da Justiça Sergio Moro. Foto: Buda Mendes/Getty Images

Sergio Moro não é mais ministro da Justiça e da Segurança Pública.

As avarias da aventura bolsonarista na carreira do ex-juiz ainda serão calculadas nos próximos episódios da novela Brasil. Na análise corrente, ele sai maior do que entrou. Eu tenho minhas dúvidas.

Que Jair Bolsonaro se enfraquece no episódio não há dúvida.

A eleição de Bolsonaro é resultado direto do casamento com o lavajatismo, o movimento que apoiou as investigações baseadas em Curitiba até torcer do avesso a chamada política tradicional. Em algum momento, Moro acreditou que Bolsonaro, defensor da ditadura e do moralismo mais pedestre, representava algo de novo no cenário.

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Deixou o cargo depois de um ano, quatro meses, muitos conchavos, algumas reprimendas públicas e uma espada pendurada na cabeça a qualquer aceno que não fosse a irrestrita reverência ao chefe.

Em sua passagem pelo ministério, Moro evitou falar publicamente das acusações sobre Bolsonaro e família nas investigações sobre rachadinhas em gabinetes e o modus operandi do chamado gabinete do ódio. Segundo o site O Antagonista, foi o avanço das investigações sobre este gabinete a gota d’água para Bolsonaro trocar, no pico de uma pandemia, o diretor-geral da Polícia Federal.

Não havia hora mais imprópria, sobretudo quando a arma que alvejou um elogiado ministro da Saúde ainda esfria no Planalto.

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Bolsonaro é capaz de tudo, inclusive chutar em menos de uma semana uma das bases do seu tripé, formado também pelos militares e pelos liberais de Paulo Guedes. Detalhe: Guedes é outro que entrou na berlinda após a ala militar assumir para si um plano de reativação econômica que já é comparado ao PAC de Dilma Rousseff -- nome que, para o bolsonarismo-raiz, é quase palavrão.

Tudo isso no momento em que o país registra mais de 400 mortes por Covid-19 em um único dia.

Em sua despedida, Moro disse lamentar ter de fazer o pronunciamento no momento em que os esforços deveriam focar no combate ao coronavírus. Afirmou que, ao assumir o posto, recebeu do presidente uma carta branca no combate à corrupção e ao crime organizado e que nem recebeu apoio do chefe.

Moro se queixou da insistência do presidente em trocar o comando da Polícia Federal desde o ano passado, lembrando que isso não aconteceu nem mesmo durante a Lava Jato, sob o governo petista. Deixou claro seu incômodo com um dos nomes ventilados — que, segundo ele, tem mais tempo na Câmara dos Deputados do que na corporação.

Ele listou a queda no índice de homicídios, a prisão de uma liderança do PCC foragida e a apreensão recorde de drogas como avanços ocorridos em sua gestão. Elogiou o trabalho da PF e dos governos estaduais e municipais, hoje sob ataque do presidente, no apoio integrado das operações.

O agora ex-ministro negou que a exoneração do diretor-geral, Maurício Valeixo, tenha acontecido a pedido, como afirmou a Secretaria de Comunicação do governo, e disse que Bolsonaro jamais apresentou uma razão para a troca. Segundo Moro, o ex-capitão tentou interferir politicamente na escolha e queria nomear alguém para quem pudesse ligar ou ter acesso prévio a investigações.

Moro disse ter sido surpreendido com a exoneração do diretor pela manhã. “Não tinha como aceitar”, afirmou ele, que pediu respeito à lei e à autonomia da PF. Para ele, não havia como seguir no posto, já que os resultados da interferência política são “imprevisíveis”.

Para bom entendedor, meio pronunciamento basta.

Bolsonaro paga o preço agora da fantasia que colocou no mesmo balaio afetos e orientações tão distintas que uma hora iriam explodir: o liberalismo econômico com o intervencionismo militar, a ânsia punitivista da Lava Jato com o histórico de pequenos e grandes desvios de seu próprio grupo e aliados, como a manutenção de ministros acusados de usar caixa-dois e candidatos-laranja em campanha.

O resultado era um santo de pau oco que decide mexer em investigações policiais quando elas chegam ao seu encalço.

Quando Bolsonaro já tinha uma coleção de possíveis crimes de responsabilidade na condução das ações contra a pandemia, restou ao capitão abrir as comportas do seu navio para tudo aquilo que a Lava Jato combatia até pouco tempo, inclusive uma raposa condenada no mensalão. Como perguntou o colunista Guilherme Amado, da revista Época, Moro toparia sair na mesma foto com Roberto Jefferson e Valdemar da Costa Neto, caso estes fossem contemplados com cargos no governo em troca de votos para salvar o chefe no Congresso?

O constrangimento era inevitável, mas não foi o único para quem chegou ao governo como paladino da moral e sai com a imagem arranhada pela Vaza Jato e a conivência de meses com o desatinos de Bolsonaro.

Ainda assim, Moro sai a tempo de reparar as avarias. Se as eleições presidenciais fossem hoje, ele ainda seria um nome forte para a disputa. Também é possível que governadores açoitados por Bolsonaro na crise do coronavírus disputem o ex-magistrado no tapa para tê-lo em suas equipes.

Sua saída do governo representa o divórcio entre Bolsonaro e a Lava Jato, o mix que turbinou a candidatura de um deputado de baixo clero que na vida nunca foi exemplo de nada. Bolsonaro terá de caminhar sem essa perna, enquanto a outra, econômica, que amarrou no barco o chamado mercado avesso a intervenções nos negócios, segue por um fim.

Moralmente, é o fim da plataforma que elegeu Bolsonaro. Pode ser que essa barca chegue inteira ao outro lado da travessia até 2002. Mas não será a mesma que largou em 2018.