Bate-boca que selou destino de ministro do Turismo é novo capítulo da avacalhação

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Brazilian President Jair Bolsonaro (R) speaks with his Tourism Minister Marcelo Alvaro Antonio during the launch of a program for the resumption of tourism, a sector severely affected by the new coronavirus outbreak, at Planalto Palace in Brasilia, on November 10, 2020. - Brazil's decision to halt trials of a Chinese-developed Covid-19 vaccine triggered a politically charged row Tuesday as a top health official expressed "indignation" and far-right President Jair Bolsonaro claimed the ruling as a personal victory. (Photo by EVARISTO SA / AFP) (Photo by EVARISTO SA/AFP via Getty Images)
Jair Bolsonaro com seu (agora ex) ministro do Turismo Marcelo Álvaro Antônio. Foto: Evaristo Sá/AFP (via Getty Images)

Com tantos indícios, o que leva o ministro do Turismo a permanecer no cargo?

Você leu essa pergunta aqui no Yahoo Notícias em abril de 2019.

Seis meses depois, os indícios levaram Marcelo Álvaro Antônio a ser denunciado pelo Ministério Público Eleitoral de Minas Gerais pelos crimes de falsidade ideológica eleitoral, apropriação indébita de recurso eleitoral e associação criminosa. Ele é acusado de liderar um esquema de candidaturas-laranja do PSL na eleição de 2018.

A suspeita foi levantada a partir de uma série de reportagens da Folha de S.Paulo logo no início do governo de Jair Bolsonaro, presidente que costuma bater no peito para dizer que acabou com a corrupção.

O esquema, segundo a denúncia, usava candidaturas femininas de fachada apenas para driblar a cota de 30% para mulheres. Não há indício de que os recursos tenham chegado de fato a elas. Álvaro Antônio é suspeito de embolsar os recursos do fundo eleitoral no diretório do PSL em Minas. Dos R$ 279 mil que deveriam financiar as campanhas das deputadas, R$ 85 mil foram destinados a empresas de assessores, parentes ou sócios de funcionários do ministro.

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Mesmo com a suspeita, o aliado do presidente seguiu a vida normalmente no governo dos homens honestos. Na véspera de sua demissão, comunicada na quarta-feira 9, Álvaro Antônio ainda era o bajulador que usava o santo nome para dizer, em um evento de lançamento do Instituto Liberal-Conservador, do deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), que “Deus levantou o presidente para a bênção dessa nação”. “Em cada momento, em cada detalhe, eu parava e via a mão de Deus sobre a vida do presidente”.

Pois foi a mão do presidente que assinou sua demissão no dia seguinte.

Não por causa de eventuais escândalos que tenha patrocinado como chefe de diretório, mas porque se meteu em um bate-boca com o ministro da Secretaria de Governo, o general Luiz Eduardo Ramos, em um momento em que o governo precisa de espaço para abrigar a voracidade do centrão. Álvaro Antônio chamou o (agora ex) colega de “traíra” e o acusou de pediu sua cabeça ao presidente para obter êxito na eleição da Câmara dos Deputados, que está prestes a escolher seu novo comandante.

Disse ainda que Ramos comemora “algumas aprovações insignificantes no Congresso, mas não o ALTÍSSIMO PREÇO (sic) que tem custado, conheço de parlamento, o nosso governo paga um preço de aprovações de matérias NUNCA VISTO ANTES NA HISTÓRIA (sic de novo), e ainda assim (na minha avaliação), não temos uma base sólida no Congresso Nacional, (tanto que o Sr pede minha cabeça pra suprir sua própria deficiência)..."

Lendo a mensagem, percebe-se que a concatenação das ideias na prova de redação não é o forte da turma instalada no Planalto.

Para o anedotário:

1- O ministro que cai atirando, e que bem poderia vir a público explicar o que entende por “altíssimo preço” em caixa alta, será substituído, ao menos temporariamente, pelo sanfoneiro Gilson Machado, que dirigia a Embratur e meses atrás virou piada ao assassinar a “Ave Maria” de Schubert em uma live com o presidente.

2- A troca no Ministério do Turismo, juntamente com o fim da alíquota de importação de armas no país, acontece em meio às discussões sobre vacinação no país, um bate-cabeça de quem até agora não apresentou um programa razoável de imunização enquanto vê o bafo da revolta aumentar com as imagens de pessoas sendo vacinadas em países minimamente organizados. Prioridades são prioridades;

3 - O desrespeito com o general responsável pela articulação política do governo e foi chamado de “traíra” é mais um episódio da avacalhação na imagem das Forças Armadas hoje associadas ao capitão que saiu pelas portas dos fundos do Exército para não ser expulso por insubordinação. Ramos já tinha sido desmoralizado em público ao ser chamado de “maria fofoca” por Ricardo Salles, do Meio Ambiente;

4 - O aceno ao toma-lá-dá-cá é só um aperitivo do que ainda vai acontecer até a eleição dos novos chefes do Congresso, que pode ser determinante ou não para os planos de Bolsonaro até 2022. Aguardem os próximos capítulos;

5- Foi na gestão Álvaro Antônio que seus subordinados da Cultura, rebaixada a secretaria acoplada ao Turismo, provocaram estragos na imagem do país com um cosplay de Joseph Goebbels e o sincericídio ao vivo da atriz Regina Duarte. Só não foi mais esquecível porque não se deve esquecer;

6 - Já são quase 180 mil mortos pelo coronavírus no país. Se ampliar um pouco mais o acesso às armas no segundo país onde mais se morre de gripezinha no planeta, Bolsonaro já pode mudar o slogan para quem quiser conhecer nossos atrativos turísticos além da sanfona e da indumentária usada pelo casal real no dia da posse: “Brasil acima de tudo. Sete palmos de terra acima de todos”.

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