Queda de Wajngarten explica o fiasco de um governo de confronto

Matheus Pichonelli
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Chief of the Secretariat of Social Communication Fabio Wajngarten, mutes the microphone for Brazil's President Jair Bolsonaro, during a Flag Day ceremony at the Alvorada Palace, in Brasilia, Brazil November 19, 2019. REUTERS/Ueslei Marcelino
Fabio Wajngarten ajusta o microfone para o agora ex-chefe Jair Bolsonaro em novembro de 2019. Foto: Ueslei Marcelino/Reuters

Num rodapé de página, leio que o empresário Fabio Wajngarten, ex-secretário de Comunicação e ex-leão de chácara ideológico do governo Bolsonaro, foi demitido do posto devido ao seu histórico de desentendimentos com ministros, com o gabinete da Presidência, com os ministros e com a imprensa —com quem, em tese, deveria ter trânsito e bom relacionamento (o conflito, ali, tinha mais de um sentido, aliás)

A notícia parece déjà vu. Não é a primeira vez que um aliado devoto de outros tempos sai pelas portas do fundo de um governo de brigōes com a fama de...brigão. A contradição dos termos está no pleonasmo.

O desfecho das trajetórias de quadros como o agora ex-ministro é tão comum quanto previsível. Como outros ex-colegas, Wajngarten é parte de um grupo aguerrido e agressivo de profissionais que perderam ou nunca gozaram de prestígio de seus pares e áreas de atuação e encontraram no bolsonarismo uma promessa de consagração.

O que era prometido como um governo de notáveis se tornou um amontoado de ressentimento alimentado por auxiliares dispostos a mostrar ao mundo a injustiça que sofreram quando perambulavam, como almas penadas, pelos corredores do baixo clero e da indiferença.

A mágoa compõe não só o primeiro escalão, mas também a gosma de apoiadores de primeira ordem — exemplo são os militantes de carteirinha na classe artística, com Dedé Santana, Paulo Cintura e outros gênios incompreendidos e/ou esquecidos pelos cadernos de cultura.

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Como aquele aluno que dormiu na aula, tomou bomba e culpou o professor e a doutrinação dos livros pelo fiasco, os militantes de segunda, terceira e quarta linha de suas áreas de atuação encontraram nas promessas do capitão um atalho para a glória.

Bolsonaro é, afinal, um dos tantos membros de seu governo que nunca se notabilizou por nada antes de chegar ao topo da cadeia alimentar política. Até então era só um deputado agressivo, mas medíocre, com um passado nada glorioso pelo Exército.

A linguagem da raiva e do ressentimento causa fascínio pela identificação: como aquele parente nada brilhante que aderiu à causa, muitos dos integrantes do governo passaram a vida justificando o ostracismo e o déficit de reconhecimento não por suas falhas, limitações e decisões individuais, mas pelo boicote do “sistema” e das gestões anteriores que só premiariam os malandros e bem relacionados.

Ao pregar para ressentidos, Bolsonaro de certa forma deu narrativa e sentido para a vida deles. Mas, como era imaginável, não conseguiu dar uma vida realmente melhor para eles. (Ou alguém pode dizer que a vida de fato melhorou de 2018 pra cá?).

A promessa de Bolsonaro é uma promessa impossível de ser cumprida, embora ainda seja alimentada pelas mesmas ladainhas: a culpa é das tralhas do passado, de quem não deixa o grande líder implementar seu grande, incrível e mirabolante plano de salvação.

A desculpa e seus inimigos escamoteiam o fato de que ali não existe plano algum.

Ainda assim, Bolsonaro segue vendendo terreno na lua em companhia de Paulo Guedes, Ernesto Araújo e outros subordinados que nunca foram reconhecidos como referência em suas áreas. É o que os ligam por um cordão umbilical.

Não tinha como dar certo. Não está dando certo.

Mudanças no governo, com trocas e reposições por tentativa e erro, são comuns em qualquer época e lugar. Mas o ritmo da atual gestão é intenso até para os padrões brasileiros. É como se o governo fosse um intestino em constante fagocitose. Quem anda de mão dada hoje é o inimigo e detrator a ser engolido amanhã (vide MBL, Alexandre Frota, Joice Hasselmann, Paulo Marinho, Gustavo Bebianno, general Santos Cruz, Sergio Moro, Luiz Henrique Mandetta e grande elenco).

No fundo, o nó da atual gestão é um dos muitos nós dos tempos atuais: a muita gente medíocre foi vendida a ideia de que ela era especial em livros de autoajuda, programa motivacional e correntes de WhatsApp. Muitos acreditaram nisso e hoje cobram seu lugar ao sol.

Esse lugar não é, nem pode ser, a política, um espaço natural de negociação, cessão, recuos, busca de consenso (e um pouco de autoestima para entender que uma derrota não é a morte de tudo o que se tem). Vamos combinar que é muito difícil negociar com quem foi enganado a vida toda por quem inflacionou seus dons especiais e foi ensinado a ganhar a todo custo. A guerrear. A botar o inimigo sempre no chão.

Este é o problema de colocar tanta gente treinada para ir à guerra (e à espera da vitória) na mesma mesa. Eles não vão brigar só com os fantasmas externos, imaginários ou não; vão brigar entre si. Não há espaço para tantos protagonistas em um ambiente em que o verbo “servir” é, ou deveria ser, o elemento central.

Deu no que deu.

Ao longo do mandato, muitos generais foram escalados nos postos-chave como se fossem as únicas autoridades capazes de organizar a casa botando ordem, de cima para baixo. No fundo, porém, há uma interdição inconfessável na relação porque há uma inversão da hierarquia militar quando o general obedece ao capitão.

As desobediências e discordâncias explícitas do vice-presidente Hamilton Mourão, um general da reserva, são o maior exemplo dessa tensão.

O fracasso na pandemia, administrada por quem está acostumado a mandar e não a ouvir, é resultado deste modelo. Treinados para guerrear, os soldados bolsonaristas rejeitam a ideia de unificar o país porque isso tiraria o confronto da mesa onde digladiam ministros, governadores, prefeitos, instituições de pesquisa, etc. Por isso temos mais botinadas do que vacinas no país.

Polemizar e transformar a discordância em crise, e não em uma ideia de ordem dialética (tese, antítese e síntese), é o que Bolsonaro e companhia sabem fazer de melhor. Com eles no comando, perde-se mais tempo e energia abrindo e fechando feridas do que buscando soluções.

Já são quase 275 mil mortos na pandemia. Se a mediocridade fascina, seus efeitos, pela repetição, já não causam choque.